Leu porventura o meu último artigo? Aí eu assinalava que são precisos três ingredientes essenciais para atingir objectivos:
1. ter um sonho (o objectivo) concretizável (realista) – por exemplo, viajar até ao Sol neste momento não é realista... mas pode sonhar com isso e imaginar que passos seriam necessários para isso. Mas para já, pensemos em algo mais próximo. "Eu quero mudar de carreira."
2. ser para si e estar sob o seu controlo – por exemplo "eu quero mudar de carreira, e para isso há certos passos que tenho que fazer, e para isso posso tomar medidas concretas..." (e não "eu quero que o meu parceiro mude de carreira ou de comportamento...")
3. ser mensurável: isto quer dizer – como é que eu sei que consegui o meu objectivo?
Já falei sobre as várias etapas para um objectivo. Não vou repeti-los aqui. Mas vou partilhar convosco a estratégia de Walt Disney, um homem muito criativo e de grande imaginação, como sabem – lembra-se de alguns dos seus filmes? Pinóquio, Fantasia, Branca de Neve e os Sete Anões, Peter Pan, Cinderela, o Leão Africano, etc. Pois este homem genial tinha um método muito especial para concretizar os seus sonhos, que passo a transcrever (extraído e adaptado do autor, escritor e treinador de PNL , Robert Dilts):
1. Ponha três folhas de papel no chão em forma de triângulo, com estes títulos: o Sonhador, o Realista, o Crítico.
2. O Sonhador: Ponha-se em estado de sonhar
Entre no Sonhador e sonhe à vontade. Sonhar é ter imagens, um filme na sua cabeça. O segredo, neste espaço, é permitir-se os sonhos mais loucos que quiser. Pôr de lado, de momento o espírito crítico ou realista.
3. Passar para o Modo Realista.
No espaço do realista, você é um perito. O que vai ser preciso fazer para atingir este sonho? Que recursos precisa? Que conhecimentos tem ou precisa de adquirir? Que ambiente? Que pessoas precisa à sua volta que o podem ajudar? Que pessoas "negativas" precisa de pôr de lado? Este é o espaço para ter os pés bem assentes na terra. É por o lado prático em acção. Quando tiver efectuado todas as modificações necessárias ao seu plano de acção, saia deste lugar e passe para o lugar do Crítico, a uma distância igual do Sonhador e do Realista.
4. O Modo Crítico
O papel do Crítico é evitar que faça figura de parvo, que perca todo o seu dinheiro, que faça disparates, evitar que vá parar à prisão, etc. É muito importante dar ouvidos ao Crítico, pois ele vai assegurar a realização do sonho com toda a segurança! O papel do Crítico é o de chamar a atenção para tudo o que possa vir a correr mal ou atrapalhar o seu plano. É o de prever os riscos e os possíveis efeitos negativos da sua acção.
Aqui neste espaço você está distanciado do seu sonho. Escute com atenção todos as objecções e dúvidas que se apresentem. Esteja pronto a fazer as modificações que se tornem necessárias como resultado destas críticas. Não se trata de desistir do sonho, mas sim de o concretizar da melhor maneira possível. Quais são as consequências possíveis do seu sonho? Qual o impacto no seu ambiente, familiares, vizinhos, país, etc.? Como é que pode evitar magoar alguém? Desse modo, pode modificar o sonho de maneira adequada. Quando o Crítico estiver satisfeito com as suas respostas e já não tiver objecções, passe de novo para
5. O espaço do Sonhador: aqui, sonhe com o sonho modificado.
a. Que tal lhe parece? Ainda representa aquilo que deseja, mas de um modo mais praticável?
b. Experimente. Sonhe mais um pouco: agora que o sonho original é mais funcional que outras ideias surgem? Mais uma vez, dê-se todo o tempo e espaço que for preciso para sonhar. Depois, passe adiante.
6. Regresse ao Espaço do Realista.
Agora aplique o seu lado prático e lógico ao sonho modificado. Como é que o vai pôr em prática?
7. Passe para o Espaço do Crítico
O sonho foi alterado de acordo com as sugestões (incorporadas) do crítico. E o realista já descobriu como o pôr em prática. O que diz o Crítico agora? Há mais alguma coisa que lhe desagrada? Proceda como da última vez: escute com atenção as objecções que se apresentarem . Se houver ideias novas, volte aos passos 5, 6 e 7 até todos os aspectos estarem de acordo e contentes com o projecto. Se nada de novo se apresentar, passe para
8. O acto final – A criação de um Sonho
Até agora, você esteve a fazer o papel de três pessoas diferentes para separar o projecto nas suas componentes – e assim evitar ter as ideias em turbilhão na cabeça e acabar num mar de confusões. Chegou o momento de elaborar o acto final.
Mude o seu triângulo para um círculo. Passeie pelos três espaços quarto ou cinco vezes para fazer com que cada tarefa – e os pensamentos e atitudes que a acompanham – seja integrada dentro de si. Talvez queira acrescentar uma canção enquanto anda pelo círculo – para distrair o seu Consciente e permitir ao Inconsciente absorver e usufruir todas os benefícios, e aprendizagem que recebeu do seu Sonhador, do seu Realista e do seu Crítico.
Chegou o momento de transformar o sonho numa realidade, e pode dar os parabéns ao seu Walt Disney interior que lhe permitiu elaborar um projecto de uma maneira mais eficiente e com o mínimo de riscos possíveis.
Todos nós podemos ser autores do nosso possível, mas para isso é preciso ousar sonhar, ter muita vontade, um pouco de esforço e alguma disciplina.
Desejo-lhe muitos sonhos, caro leitor. Sonhar é como respirar e amar. Sem sonhos não há esperança, sem ar não há vida, sem amor não há calor.
Teresa Pignatelli ,
consultora em Programação neuro-linguística
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domingo, 13 de dezembro de 2009
Crónica luxemburguesa: Lasauvage - a história da mulher selvagem
Não muito longe dali (net wäit eweg vun do) , o bosque (de Bësch) luxuriante chamado o "Groussebësch" (grande bosque) nutriu a imaginação do povo (Vollek) trazendo à luz uma lenda (Seechen) que acabou por dar o nome à aldeia (Duerf) da qual hoje aqui (hei) vamos falar – Lasauvage (Zowaasch) . O vale que corre paralelo à fronteira (Grenz) francesa foi unicamente (nëmmen) povoado por volta (ëm) do século XVII e a razão (Ursaach) desse povoamento tardio teve seguramente (ganz bestëmmt) origem na história que, durante séculos (Joerhonnerter) , por ali correu. Dizia-se que naquele vale (Dall) , num buraco (Lach) de um penedo negro e enorme, o penedo de La Cronnière, vivia uma mulher (Fra) selvagem (wëll) que só se alimentava de carne (Fleesch) crua (réi) . A sua cabeleira espessa e comprida (laang) , tão comprida que lhe chegava aos pés (Féiss) e se lhe enrolava à volta do corpo (Kierper) , era o único (war den eentzegen) manto que a cobria. Os olhos (d’Aen) grandes e vermelhos (rout) eram tão grandes que lhe chegavam até (bis) à raiz dos cabelos e brilhavam como se fossem carvões ardentes. Na sua boca (Mond) , enorme, viam-se, não uma (net eng) , mas duas (mee zwou) filas de dentes (Zänn) e a sua voz (Stëmm) profunda (déif) e aguda era como o grito (Kreesch) de uma coruja (Eil) que trespassava o breu da noite – as unhas (d'Neel) espessas (déck) e compridas eram como as garras de uma águia (Adler) .
Quando a mulher selvagem morreu, foi direitinha ao Inferno (Hell) , só que, ao chegar lá, não pôde entrar (eragoen) porque pensaram que se tratava de um animal e que ali não era sítio (Plaz) para ele. Assim, viu-se obrigada (gezwongen) a voltar para a Terra (Äerd) e os habitantes (Awunner) daquela região nunca mais (nie méi) encontraram sossego (Rou) porque o seu espírito (Geescht) errava por ali, noites inteiras, a gritar (jäitzen) desesperadamente.
Passaram uns anos até que um ermita, muito piedoso (fromm), que habitava no bosque (Bësch), conseguiu expulsar o espírito da mulher selvagem para muito longe, lá, para além dos mares. E fê-lo invocando S. Donato e Nossa Senhora do Luxemburgo (Muttergottes vu Lëtzebuerg) . A partir daí (vun do un) , instalou-se a paz (Fridden) naquele "vale da mulher selvagem" começando, a pouco e pouco (lues a lues) , a ser povoado. Ainda hoje (nach haut) se podem ver gravadas no penedo de "La Cronnière" as imagens de S. Donato e de N.S. do Luxemburgo, assinalando assim a "milagrosa invocação".
Foi em 1623 que, no local onde (wou) hoje (haut) se encontra o edifício da escola primária (Primärschoul) , um habitante de Longwy (Lonkesch) instalou um alto forno (héich Uewen) e uma forja (Schmëdd) . Mais tarde (méi spéit) , foram construídos dois outros (zwee aner) altos-fornos e Lasauvage é considerada como a primeira forja, ou a primeira fábrica de ferro do país. Funcionou durante (während) 250 anos, mas, em 1877, a concorrência de outros altos-fornos mais modernos construídos na região, e que utilizavam uma outra (eng aner) qualidade de minério, acabou pour ditar o fim (den Enn) da era industrial daquele vale.
O conde (de Grof) Saintignon, de origem francesa, proprietário da fábrica nos finais do século XIX, princípios do século XX, não querendo deixar morrer Lasauvage, continuou a extrair o minério e, pensando poder ali encontrar (fannen) minas de carvão (Kuel) , mandou fazer algumas (verschidden) foragens. Só que, o que encontrou, foi apenas (et wor nëmmen) água mineral. Não se querendo deixar dar por vencido, lançou um projecto de termas e iniciou a construção de um luxuoso hotel termal. Mas, esse sonho (Dram) não foi avante e as termas nunca chegaram a funcionar. No entanto, ainda hoje se pode ver o "esboço" do que deveria ter sido esse hotel, isto é (dat heescht) , o actual café "Balcon".
Mas a extracção do minério tornou-se rentável e, a tal ponto, que era Lasauvage que fornecia as fábricas de Differdange e de Saulnes (em França).
Durante a Primeira Guerra Mundial (den éischte Weltkrich), o conde de Saintignon recusando-se a fornecer minério à fábrica de Differdange, então ocupada pelos alemães, decidiu encerrar (zoumaachen) as minas e a despedir (entloossen) todos os operários. A partir daí, a localidade perdeu toda a actividade mineira. A sua situação geográfica e os caminhos (Weër) de acesso tornam-na mais próxima (méi no) do território francês do que da cidade vizinha de Differdange, razão pela qual os habitantes só falavam francês (e não luxemburguês) e iam à missa e ao mercado (Maart) , não a Differdange, mas a França.
Uma outra (eng aner) curiosidade é o facto de o cemitério (Kierfecht) se encontrar em território francês, o que, até 1980, impunha a presença de um funcionário (Beamten) francês nos funerais (Begriefnesser) dos habitantes desta pequena povoação luxemburguesa.
Foi igualmente em Lasauvage que o governo (Regierung) luxemburguês mandou reforçar a casa onde residia o responsável da mina, transformando-a em casemata para, em caso (am Fall) de ataque aéreo alemão, poder servir de refúgio à Grã-Duquesa.
A igreja (d’Kierch) , de estilo neogótico, foi mandada construir em 1893 pelo conde de Saintignon e tem por modelo a Santa Capela de Paris. A igreja, cujos materiais são da região (os blocos de pedra são os restos de um alto-forno que ali existia e a madeira provém das matas circundantes), foi consagrada a S. João Batista. Lasauvage pertence à comuna de Differdange, localidade que está geminada com a cidade portuguesa de Chaves.
O "vale da mulher selvagem" é um sítio a descobrir (eng Plaz fir ze entdecken) !
Maria Januário
Foto: Comuna de Differdange
(Rubrica de civilização, cultura e língua luxemburguesas, publicada na segunda e na quarta semana de cada mês; Próxima publicação: 23 de Dezembro)
sábado, 12 de dezembro de 2009
Crónica Atitudes & Latitudes: "Divagações" de uma viajante (I)
Quando eu tinha cerca de 20 anos, e me interessava por psicologia, parapsicologia e muitos outros temas, tive a sorte de dar com um livro que se intitulava "Técnicas avançadas de hipnoterapia", escrito por um psiquiatra americano chamado Milton Erickson. Este médico revolucionou o mundo da psiquiatria e da hipnoteria com os seus métodos, porque já então ele dizia "a solução está no problema", e foi ele que desenvolveu a ideia de "terapia breve", cujo intuito é ajudar o sujeito a atingir o seu objectivo, e não a refazer o mundo do sujeito a partir de um "preconceito" do terapeuta e da sua visão do mundo.
Impressionada por este homem que para mim era um génio, nos anos '70 e '80 (do século passado... assim pareço tão velha, não é?), ao fim de trinta e tal anos tenho a sorte e o privilégio de estar a estudar os seus métodos de hipnose clínica nos Estados Unidos.
Mas o que foi tão importante para mim neste homem? Não foram só técnicas que ele nos legou. É toda uma forma de ver o mundo, o mundo do sujeito, a maneira infinitamente mais humana, profunda e criativa de lidar com os problemas e as pessoas. Foi o seu carisma. Este homem tinha que lidar com muitas incapacidades, que segundo ele, o ajudaram a tornar-se mais eficiente a ajudar a resolver os problemas dos clientes. As suas incapacidades começaram muito cedo. Nasceu numa família numerosa e muito pobre. Só aos quatro anos começou a falar. Descobriu-se mais tarde que sofria de dislexia severa, que tinha problemas de audição e era daltónico. Aos 17 anos teve um ataque de poliomielite e ficou paralisado durante um ano. O ataque foi tão forte que o médico estava convencido de que ele ia morrer. Apesar das suas deficiências, ou talvez como resultado delas, Milton Erickson qualificou-se como médico e psiquiatra. Nos anos que se seguiram tornou-se no maior psiquiatra e hipnoterapeuta do seu tempo.
Para vos dar uma ideia da sua versatilidade, aconselho o livro "My voice will go with you" da S. Rosen, com histórias que Milton Erickson contava aos alunos. Aqui vai uma história autêntica, contada por Jeffrey Zeig, um desses alunos e mais tarde fundador e presidente da Fundação Milton Erickson – um dos treinadores do curso em que participei.
Uma senhora fez terapia com o Milton Erickson. Enquanto Jeffrey Zeig fazia a entrevista com ela, a filha entrou e disse: "Já lhe contaste a história do telefonema do Pai Natal?". Aconteceu que, uma vez pelo Natal, ele telefonou a dizer que era o Pai Natal e queria falar com a filha dela, que na altura tinha 10 anos. Ela depois perguntou à filha: "O que é que ele disse?". E ela respondeu: "Disse que era um segredo e eu não era obrigada a dizer". Durante a entrevista, quando elas contavam a história, a mãe perguntou: "Afinal, filha, o que é que ele disse, podes contar?". A filha respondeu: "Perguntou-me o que é que eu queria pelo Natal, e eu pedi-lhe um cavalo. A resposta dele foi: "Sabes, um cavalo no vosso apartamento, não é uma coisa muito sensata. Por isso proponho que peças outra coisa mais prática. Mas lembra-te sempre dos teus sonhos. Nunca os percas". Hoje esta rapariga, agora mulher, tem um rancho onde cria e treina cavalos.
Milton Erickson era assim. Durante anos, divertiu-se a fazer de Pai Natal e a telefonar para crianças com mensagens de esperança.
Porque é que vos conto isto? Pela importância da mensagem. Lembrem-se sempre dos vossos sonhos . Eu hoje estou aqui, porque há trinta anos atrás sonhei com a possibilidade de aprender com Milton Erickson. Ele morreu em 1980. Eu vim para a sua Fundação em 2009. Nem eu própria diria nessa altura que isto era possível.
E o leitor, ainda se lembra dos seus sonhos de criança? Tudo o que vemos à nossa volta é o resultado de um sonho aparentemente impossível: a cama, a mesa, luz eléctrica, o telefone, o telemóvel, os aviões, as viagens à Lua, a Marte e sabe Deus aonde mais... E tal como na história da jovem dos cavalos, todos temos sonhos – mesmo que estejam escondidos debaixo de uma "montanha" de dúvidas e de esquecimentos porque aparentemente impossíveis de concretizar.
Teresa Pignatelli
consultora em Programação neuro-linguística
(rubrica publicada no CONTACTO)
Impressionada por este homem que para mim era um génio, nos anos '70 e '80 (do século passado... assim pareço tão velha, não é?), ao fim de trinta e tal anos tenho a sorte e o privilégio de estar a estudar os seus métodos de hipnose clínica nos Estados Unidos.
Mas o que foi tão importante para mim neste homem? Não foram só técnicas que ele nos legou. É toda uma forma de ver o mundo, o mundo do sujeito, a maneira infinitamente mais humana, profunda e criativa de lidar com os problemas e as pessoas. Foi o seu carisma. Este homem tinha que lidar com muitas incapacidades, que segundo ele, o ajudaram a tornar-se mais eficiente a ajudar a resolver os problemas dos clientes. As suas incapacidades começaram muito cedo. Nasceu numa família numerosa e muito pobre. Só aos quatro anos começou a falar. Descobriu-se mais tarde que sofria de dislexia severa, que tinha problemas de audição e era daltónico. Aos 17 anos teve um ataque de poliomielite e ficou paralisado durante um ano. O ataque foi tão forte que o médico estava convencido de que ele ia morrer. Apesar das suas deficiências, ou talvez como resultado delas, Milton Erickson qualificou-se como médico e psiquiatra. Nos anos que se seguiram tornou-se no maior psiquiatra e hipnoterapeuta do seu tempo.
Para vos dar uma ideia da sua versatilidade, aconselho o livro "My voice will go with you" da S. Rosen, com histórias que Milton Erickson contava aos alunos. Aqui vai uma história autêntica, contada por Jeffrey Zeig, um desses alunos e mais tarde fundador e presidente da Fundação Milton Erickson – um dos treinadores do curso em que participei.
Uma senhora fez terapia com o Milton Erickson. Enquanto Jeffrey Zeig fazia a entrevista com ela, a filha entrou e disse: "Já lhe contaste a história do telefonema do Pai Natal?". Aconteceu que, uma vez pelo Natal, ele telefonou a dizer que era o Pai Natal e queria falar com a filha dela, que na altura tinha 10 anos. Ela depois perguntou à filha: "O que é que ele disse?". E ela respondeu: "Disse que era um segredo e eu não era obrigada a dizer". Durante a entrevista, quando elas contavam a história, a mãe perguntou: "Afinal, filha, o que é que ele disse, podes contar?". A filha respondeu: "Perguntou-me o que é que eu queria pelo Natal, e eu pedi-lhe um cavalo. A resposta dele foi: "Sabes, um cavalo no vosso apartamento, não é uma coisa muito sensata. Por isso proponho que peças outra coisa mais prática. Mas lembra-te sempre dos teus sonhos. Nunca os percas". Hoje esta rapariga, agora mulher, tem um rancho onde cria e treina cavalos.
Milton Erickson era assim. Durante anos, divertiu-se a fazer de Pai Natal e a telefonar para crianças com mensagens de esperança.
Porque é que vos conto isto? Pela importância da mensagem. Lembrem-se sempre dos vossos sonhos . Eu hoje estou aqui, porque há trinta anos atrás sonhei com a possibilidade de aprender com Milton Erickson. Ele morreu em 1980. Eu vim para a sua Fundação em 2009. Nem eu própria diria nessa altura que isto era possível.
E o leitor, ainda se lembra dos seus sonhos de criança? Tudo o que vemos à nossa volta é o resultado de um sonho aparentemente impossível: a cama, a mesa, luz eléctrica, o telefone, o telemóvel, os aviões, as viagens à Lua, a Marte e sabe Deus aonde mais... E tal como na história da jovem dos cavalos, todos temos sonhos – mesmo que estejam escondidos debaixo de uma "montanha" de dúvidas e de esquecimentos porque aparentemente impossíveis de concretizar.
Teresa Pignatelli
consultora em Programação neuro-linguística
(rubrica publicada no CONTACTO)
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Crónica: Um próximo ano cheio de dificuldades
O governo não confirmou, limitando-se a reafirmar a previsão oficial que se mantém nos 3,7 por cento. Como não há bela sem senão, a confirmação dos três por cento pode criar graves problemas ao Governo de José Sócrates.
Vejamos: numa tal circunstância, podia concluir-se que a economia da zona euro estava a sair da recessão, logo, retomavam-se os pressupostos que tem orientado a política monetária do Banco Central Europeu e do seu presidente, Jean-Claude Trichet, interrompidos para acorrer aos efeitos da crise. Isso significa que as taxas de juro subiriam de imediato. O próprio Trichet já fez essa ameaça que considera indispensável para combater a tendência inflacionária e dificultar o acesso ao crédito.
Isto seria mais um travão no investimento privado em Portugal, e mesmo o público teria de baixar, porque Portugal vai apresentar um défice superior a oito por cento. Portanto, o Orçamento de Estado tem de recorrer a empréstimos internacionais, para cobrir o défice e, com um agravamento das taxas de juro, a despesa da dívida aumentaria substancialmente.
Com a quebra do investimento, aumenta o desemprego que, neste momento, já ultrapassa os 10 por cento. O FMI diz que o aumento do número de desempregados é inevitável e que, por essa razão, o governo não deve adiar medidas que, no entender dos técnicos do Fundo Monetário Internacional, são indispensáveis. Uma delas é o aumento dos impostos, com o IVA a regressar aos 20 por cento e cortes drásticos na despesa pública, começando pela Saúde e Educação e chegando às prestações sociais, se a situação o vier a exigir.
Tanto Sócrates como os partidos da oposição já rejeitaram essa possibilidade, mas a maioria dos analistas está a encostar-se às receitas do FMI, considerando até que, quanto mais cedo forem adoptadas, mais eficazes serão.
Isto quer dizer que 2010 será um ano ainda mais difícil. Todos os dias há mais 500 portugueses que perdem o emprego. E isto está a reflectir-se na vida económica, com o mercado interno em fase crescente de contracção e o número de famílias insolventes a aumentar, deixando, por exemplo de liquidar os empréstimos bancários, para a compra de casa. Em Novembro, subiu a venda de automóveis novos, mas as associações do sector não têm dúvidas: a melhoria foi provocada pelo conjunto de incentivos para o abate de carros em fim de vida e, portanto, a partir de Janeiro, a queda será bastante acentuada.
Há um ano, por esta altura, só os desempregados recorriam às instituições de solidariedade, como por exemplo, o Banco Alimentar. Mas este ano, começaram a aparecer famílias de empregados que sofreram redução de rendimentos – por exemplo, baixa de salários – e que estão submersas em dívidas.
O quadro político não é animador. A contestação dos partidos da oposição cresce constantemente. Parece claro que não vão inviabilizar o Orçamento de Estado, mas aparentemente, a colaboração com o governo, esgota-se aqui.
A solução seria, para muitos comentadores, a convocação de novas eleições, no início do próximo verão, esperando que o eleitorado tomasse uma opção mais clara. Mas as poucas sondagens feitas depois das eleições não deixam dúvidas. As quotas eleitorais dos partidos mantém-se, com o PS, PSD e PCP a sofrerem pequenas correcções em baixa e o Bloco de Esquerda e o CDS com pequenas melhorias. Portanto, se os portugueses fossem às urnas, deixavam tudo na mesma. São necessários outros factores que permitam novas opções eleitorais, concretamente, caras novas, que demonstrem competências. E sobretudo um outro Presidente da República, com mais e melhor influência sobre os partidos. A dupla Cavaco-Sócrates está cada vez mais disfuncional e politicamente esgotada. Neste quadro, as alternativas podem começar a aparecer apenas em 2011, com a escolha de um outro Presidente da República.
Sérgio Ferreira Borges,
analista político
(o autor assina semanalmente no jornal CONTACTO a coluna política "Avenida da Liberdade")
domingo, 29 de novembro de 2009
Crónica luxemburguesa: Há festa na aldeia! ('t ass Kiirmes am Duerf)
Vamos, pois, tentar perceber (probéieren ze verstoen) qual é a origem de todas (vun all) essas festas (deene Fester) pelo Luxemburgo fora, em que de Norte (Norden) a Sul (Süden) e de Este (Osten) a Oeste (Westen), as bandas de música percorrem as ruas (ginn duerch d’Stroossen) tocando a marcha dos carneiros (Hämmelsmarsch*) uma melodia tradicional e de circunstância e onde (a wou) no largo da igreja uns pequenos carrosséis e umas barraquinhas com jogos (mat Spiller) fazem (maachen) a alegria (d’Freed) das criancinhas (kleng Kanner; Kënnercher) . Outros stands com (mat) as típicas salsichas grelhadas (gegrillt) (que já não podem ser denominadas "Thüringer", porque (well) as "verdadeiras Thüringer" vêm da região (kommen aus der Regioun) alemã da Turingia e que só ali (an dat nëmmen do) é que esse nome lhes pode ser dado), são o petisco ideal para acompanhar a cervejinha (Béierchen) da praxe.
Pois bem, o termo "Kiirmes" tem origem nas palavras Kierch (igreja) e Mass (missa). Trata-se, pois, de uma tradição de cariz religioso que tem por origem o dia (den Dag) em que as igrejas foram consagradas e colocadas sob a protecção de um santo (helleg) . Obviamente (natiirlech) , esse acontecimento (Ereegnes) foi definido como dia de festa, tendo daí (vun do) surgido o costume de festejar essa consagração no Domingo (Sonndeg) a seguir (nom) ao dia do santo padroeiro. Assim, a localidade cuja igreja foi consagrada a S.João tem a sua festa no Domingo a seguir ao dia de S. João (Gehaansdag) e a aldeia cuja igreja está sob a protecção de S. Martinho, tem a sua "Kiirmes" no Domingo a seguir ao dia de S. Martinho (Mäertesdag) . No decorrer dos tempos (am Laf vun der Zäit) esta tradição religiosa foi-se perdendo a pouco e pouco (lues a lues) e o que, no início, era a festa da "Missa da Igreja" tornou-se numa festa que nada tem a ver (déi guer näischt ze dinn huet) com a sua origem religiosa.
Aliás (iwregens) , a nossa palavra "quermesse" tem exactamente (huet genau) a mesma origem, neste caso (an dësem Fall), vinda das palavras flamengas "Kerk" (igreja) e "Mis" (missa). Tal (esou) como a maior parte (ewéi déi meescht) das tradições que se confundem emocionalmente com as próprias pessoas, esta tradição da "Kiirmes" atravessou o Atlântico com (mat) os 70.000 luxemburgueses (Lëtzebuerger), (um quinto da população do Grão-Ducado !) que (déi) , entre (zwëschen) 1870 e 1930, rumaram em direcção aos Estados Unidos (Vereenegt Staaten) em busca de uma vida melhor – tal como nós (esou wéi mir) o fizemos até ao Luxemburgo há 40 anos atrás (viru véierzeg Joer) .
As dificuldades (d’Schwiergkeeten) de adaptação à vida num outro continente, as privações e as saudades do país (Land), fizeram, durante (während) dezenas de anos, renascer lá longe, em terras americanas, esta tão genuína "Kiirmes am Duerf" luxemburguesa. E foi assim que, durante duas ou três (zwou oder dräi) gerações, essas famílias se reuniram para festejar (fir ze feieren) as festas do seu torrão natal. E, até os Jhang (João) luxemburgueses terem passado a chamar-se "John" e os Wilhelm se terem transformado em "William" e que dos Jakob tenham surgido os "Jack", o dia das quermesses de Bascharage (Nidderkäerjeng) , de Wiltz (Woltz), de Koerich (Käerch) ou de Heffingen (Hiefenech) foram sempre celebrados com pompa e circunstância do outro lado (aner Säit) do Atlântico (vum Atlantik) .
Aos descendentes (Nokommen) desses pioneiros luxemburgueses que já não (net méi) falam (schwätzen) a língua (d’Sprooch) dos antepassados, nem conhecem (a net kennen) a maior parte das suas tradições, restam-lhes (bleift hinnen) apenas (nëmmen) as fotografias (d’Fotoen) "dessas festas antigas dos avós (Grousselteren) " e os arquivos históricos dessa imigração onde (wou) podem ler (kënne liesen) que, por exemplo (zum Beispiel) , em Adrian, no estado americano de Minesota, os luxemburgueses de Kehlen (Kielen) celebraram a "Kiirmes" a 24 de Novembro de 1903.
Mas, em Chicago, a "Schueberfouer" continua ainda (nach) a ser festejada pela "Confraria dos Luxemburgueses da América" cuja associação genealógica tem vindo a manter essa tradição que se impôs como uma festa local ligada à festa das colheitas.
(*) Não se sabe ao certo qual é a origem desta melodia, mas parece ser uma reminiscência da música dos carrilhões do palácio do Conde de Mansfeld, situado em Clausen. A história dos carneiros remonta ao século XVII quando, na Schueberfouer, os membros da Confraria de S. Sebastião ganharam um carneiro ao jogo das quilhas. Foi, pois, com alegria que, ao som da música, formaram um cortejo passeando o carneiro pelas ruas da cidade. Ainda hoje a abertura da "Schueberfouer" conta com a presença dos ditos bichinhos que trazem ao pescoço fitas azuis e vermelhas. Nas aldeias, a "Marcha dos carneiros" é simplesmente tocada pela fanfarra que, de porta em porta, vai fazer o peditório. Se o donativo atingir um certo montante, os músicos oferecem uma melodia suplementar, a chamada "Tusch".
Maria Januário
(Rubrica de civilização, cultura e língua luxemburguesas, publicada na segunda e na quarta semana de cada mês; Próxima publicação a 8 de Dezembro)
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Crónica luxemburguesa: A pedra do diabo e a donzela do Vale do Moleiro
Em tempos recuados, quando ainda (nach) não havia Internet, nem jogos (Spiller) electrónicos, nem sequer (mol net) electricidade, inventavam-se histórias (Geschichten) e lendas (Seechen) para (fir) alimentar a imaginação dos homens (Mënschen) e até mesmo para justificar certos "mistérios" sobre curiosidades da natureza (Natur) para as quais não havia explicação, nem conhecimentos apropriados que pudessem resolver tais questões (Froen) .
Assim (esou) , uma lenda do vale do Mosela atravessou os séculos e chegou até (bis) nós para percebermos (verstoen) o porquê (firwat) de umas pedras (Steng) enormes que se encontram espalhadas pela colina (Hiwwel) de Grevenmacher (Gréiwemaacher) ...
Já lá vai muito tempo que, entre (zwëschen) Grevenmacher e Manternach existiu um grande (grouss) bloco monolítico cuja origem, ali (do) , naquele (op däer) sítio (Plaz) , gerou muitas perguntas (Froen) . No decorrer dos anos (Joeren) essa pedra fragmentou-se em vários blocos e com o decorrer do tempo, o sol (d’Sonn) e a chuva (de Reen) , deixaram nelas marcas gravadas, tal como se fossem pegadas de animais (Déieren) . Assim começou a história da pedra do Diabo (Däiwel) ... Pois bem, o maligno ouviu dizer (soen) que em Trier iam construir (bauen) uma (eng) grande torre (Tuerm) , um miradouro, que lhe seria inteiramente (ganz) consagrado. É certo (secher) que, tal facto, só o podia enaltecer. Desejando contribuir pessoalmente (perséinlech) para a dita obra de arte (Konschtwierk) que lhe iam erigir, veio-lhe à ideia levar (matbréngen) para lá uma enorme pedra, que fosse muito bonita (ganz schéin) e que pudesse servir de pedra de fundação desse seu grandioso monumento. Não lhe foi difícil (et wor him net schwéier) encontrar (fannen) a pedra mais bonita que havia – ele sabe tudo (hie weess alles) – e, com ela às costas, lá foi a caminho de Trier (Tréier) . Ao chegar a Grevenmacher, um viajante perguntou-lhe porque transportava carregamento tão pesado. Ao ouvir (héieren) a razão (de Grond) o homem explicou-lhe que o tinham enganado, que o que estavam a começar (ufänken) a construir em Trier não era nenhum (keen) miradouro, nem monumento algum em sua honra, mas sim a catedral daquela cidade (Stad) . Calcule-se como o diabo ficou... Zangado, e cheio de raiva, subiu ao outeiro da cidade, deitou o bloco de pedra ao chão e com um ódio tremendo para com os humanos dançou a noite (d’Nuecht) inteira sobre aquelas "malditas" pedras (Steng) . Assim, eis a razão pela qual, ainda hoje (nach haut) se podem lá ver gravadas as pegadas do diabo...
Em (am) Müllerthal (Mëllerdall = vale do moleiro) a donzela Griselinde vivia no seu castelo (Schlass) em companhia da fada (Fee) "Harmónica" que lhe tinha ensinado não só (net nëmmen) a cantar (sangen) melodias maravilhosas (wonnerschéin) , mas (awer) que também (och) lhe tinha dado um poder mágico: a magia da sua voz (Stëmm) transformava em pedra todos aqueles (all déi) que ficassem indiferentes ao encanto das suas melopeias. Esta era a melhor maneira de encontrar o verdadeiro "príncipe encantado" que mereceria a sua beleza (Schéinheet) e os seus dons excepcionais. Foi assim (et wor esou) , que dezenas de nobres cavaleiros, indiferentes a uma voz tão bela, foram transformados em rochas e penedos, que hoje podemos (kënnen) ver (gesinn) espalhados pelo bosque (Bësch) de Müllerthal! Mas um dia, o cavaleiro de Folkendange ao passar por ali, ficou subjugado com um canto que provinha lá de cima do castelo. E (an) , não resistindo a tão lindo trinado, decidiu trepar por um rochedo para ir ver (fir kucken ze goen) quem entoava melodia tão bela. Só que, coitado (den aarmen) , com a sua armadura e a sua espada (Schwäert) tão pesada (schwéier) , não lhe foi possível (et wor him net méiglech) chegar lá acima – desiquilibrou-se e caiu numa falha profunda (déif) entre dois (zwee) enormes rochedos. Foi então que os gemidos do pobre cavaleiro, moribundo (am Stierwen) , no fundo do abismo, chegaram aos ouvidos da nobre donzela. Ela e os seus súbditos logo acorreram, tentando ver de onde vinham gemidos tão lancinantes. Chegando junto ao precipício e, ao ver o nobre cavaleiro, de quem logo se apaixonou, Grieselinde não conseguiu resistir a tão grande desgosto e sofrimento, vindo a falecer (stierwen) uns (e puer) dias (Deeg) depois (duerno) . E é assim que, desde (zënter) esse (deen) dia (Dag) , e logo que a Primavera (Fréijoer) chega, a donzela Grieselinde volta ao castelo onde (wou) não pôde ser feliz (glécklech) com o seu nobre cavaleiro (Ritter) para ali (do) entoar uma das suas sempre lindas melodias.
Maria Januário
(Rubrica de civilização, cultura e língua luxemburguesas, publicada na segunda e na quarta semana de cada mês na edição papel do jornal CONTACTO)
Assim (esou) , uma lenda do vale do Mosela atravessou os séculos e chegou até (bis) nós para percebermos (verstoen) o porquê (firwat) de umas pedras (Steng) enormes que se encontram espalhadas pela colina (Hiwwel) de Grevenmacher (Gréiwemaacher) ...
Já lá vai muito tempo que, entre (zwëschen) Grevenmacher e Manternach existiu um grande (grouss) bloco monolítico cuja origem, ali (do) , naquele (op däer) sítio (Plaz) , gerou muitas perguntas (Froen) . No decorrer dos anos (Joeren) essa pedra fragmentou-se em vários blocos e com o decorrer do tempo, o sol (d’Sonn) e a chuva (de Reen) , deixaram nelas marcas gravadas, tal como se fossem pegadas de animais (Déieren) . Assim começou a história da pedra do Diabo (Däiwel) ... Pois bem, o maligno ouviu dizer (soen) que em Trier iam construir (bauen) uma (eng) grande torre (Tuerm) , um miradouro, que lhe seria inteiramente (ganz) consagrado. É certo (secher) que, tal facto, só o podia enaltecer. Desejando contribuir pessoalmente (perséinlech) para a dita obra de arte (Konschtwierk) que lhe iam erigir, veio-lhe à ideia levar (matbréngen) para lá uma enorme pedra, que fosse muito bonita (ganz schéin) e que pudesse servir de pedra de fundação desse seu grandioso monumento. Não lhe foi difícil (et wor him net schwéier) encontrar (fannen) a pedra mais bonita que havia – ele sabe tudo (hie weess alles) – e, com ela às costas, lá foi a caminho de Trier (Tréier) . Ao chegar a Grevenmacher, um viajante perguntou-lhe porque transportava carregamento tão pesado. Ao ouvir (héieren) a razão (de Grond) o homem explicou-lhe que o tinham enganado, que o que estavam a começar (ufänken) a construir em Trier não era nenhum (keen) miradouro, nem monumento algum em sua honra, mas sim a catedral daquela cidade (Stad) . Calcule-se como o diabo ficou... Zangado, e cheio de raiva, subiu ao outeiro da cidade, deitou o bloco de pedra ao chão e com um ódio tremendo para com os humanos dançou a noite (d’Nuecht) inteira sobre aquelas "malditas" pedras (Steng) . Assim, eis a razão pela qual, ainda hoje (nach haut) se podem lá ver gravadas as pegadas do diabo...
Em (am) Müllerthal (Mëllerdall = vale do moleiro) a donzela Griselinde vivia no seu castelo (Schlass) em companhia da fada (Fee) "Harmónica" que lhe tinha ensinado não só (net nëmmen) a cantar (sangen) melodias maravilhosas (wonnerschéin) , mas (awer) que também (och) lhe tinha dado um poder mágico: a magia da sua voz (Stëmm) transformava em pedra todos aqueles (all déi) que ficassem indiferentes ao encanto das suas melopeias. Esta era a melhor maneira de encontrar o verdadeiro "príncipe encantado" que mereceria a sua beleza (Schéinheet) e os seus dons excepcionais. Foi assim (et wor esou) , que dezenas de nobres cavaleiros, indiferentes a uma voz tão bela, foram transformados em rochas e penedos, que hoje podemos (kënnen) ver (gesinn) espalhados pelo bosque (Bësch) de Müllerthal! Mas um dia, o cavaleiro de Folkendange ao passar por ali, ficou subjugado com um canto que provinha lá de cima do castelo. E (an) , não resistindo a tão lindo trinado, decidiu trepar por um rochedo para ir ver (fir kucken ze goen) quem entoava melodia tão bela. Só que, coitado (den aarmen) , com a sua armadura e a sua espada (Schwäert) tão pesada (schwéier) , não lhe foi possível (et wor him net méiglech) chegar lá acima – desiquilibrou-se e caiu numa falha profunda (déif) entre dois (zwee) enormes rochedos. Foi então que os gemidos do pobre cavaleiro, moribundo (am Stierwen) , no fundo do abismo, chegaram aos ouvidos da nobre donzela. Ela e os seus súbditos logo acorreram, tentando ver de onde vinham gemidos tão lancinantes. Chegando junto ao precipício e, ao ver o nobre cavaleiro, de quem logo se apaixonou, Grieselinde não conseguiu resistir a tão grande desgosto e sofrimento, vindo a falecer (stierwen) uns (e puer) dias (Deeg) depois (duerno) . E é assim que, desde (zënter) esse (deen) dia (Dag) , e logo que a Primavera (Fréijoer) chega, a donzela Grieselinde volta ao castelo onde (wou) não pôde ser feliz (glécklech) com o seu nobre cavaleiro (Ritter) para ali (do) entoar uma das suas sempre lindas melodias.
Maria Januário
(Rubrica de civilização, cultura e língua luxemburguesas, publicada na segunda e na quarta semana de cada mês na edição papel do jornal CONTACTO)
domingo, 22 de novembro de 2009
Crónica luxemburguesa: "Muhlenbach" - as sete fontes do moinho do riacho
Quando (Wann) hoje passamos por Muhlenbach (Millebach; Millen = moinho; Baach = riacho) é (ass) difícil (schwéier) imaginar o que foi aquele (deen) vale da capital em tempos mais recuados.
No local onde (wou) hoje se encontram as instalações da fábrica de faianças Villeroy & Boch existia um moinho (eng Millen) que acabou por dar (ginn) o nome (Numm) ao bairro que hoje conhecemos (kennen) .
Conta a lenda que a certa altura o caudal do riacho era tão fraco que o moinho estava parado uma grande parte do tempo, ocasionando assim grandes dificuldades ao pobre (aarm) moleiro que ali vivia com a mulher (Fra) , a filha (Duechter) e um aprendiz (Léierjong) .
Maria, filha única (eenzeg) do moleiro, bonita (schéin) e esperta, apaixonou-se pelo jovem moleirinho. Ele, rapaz inteligente e atractivo, a quem chamavam Blondin, concerteza (ganz bestëmmt) devido à sua cabeleira farta e loura, também (och) se apercebeu que a filha do seu mestre (Meeschter) não lhe era nada (guer net) indiferente... Assim, quando ela fez 18 anos (uechtzéng Joer) , Blondin pediu a mão da sua apaixonada ao moleiro. Só que, sem (ouni) outra (eng aner) explicação, o moleiro respondeu-lhe "sem (ouni) água (Wasser) e sem grão (Kär), o moinho pára". O pobre rapaz, embora esperto para o ofício (Beruff) , não entendeu o que o moleiro quis dizer e alguns tempos mais tarde voltou a pedir (froen) a menina (d’Meedchen) em casamento. Mas, a resposta (d’Äntwert) do moleiro de Millebach foi, mais uma vez (nach eng Kéier) , exactamente (genau), a mesma (d’selwecht) , e o pobre Blondin ficou sem saber o que o patrão queria (wollt) dizer (soen) com aquela frase (Saz) .
Se bem que a resposta não desse a entender uma aceitação do pedido de casamento, também não lhe parecia que se tratasse de uma recusa sem apelo. Aliás, como poderia tal acontecer? Era jovem (jonk) , belo, bem feito, honesto (éierlech) , não tinha defeitos de maior, tirando unicamente o facto de ser pobre, tão pobre como o pobre do seu patrão. Ora isso não podia ser uma razão para lhe recusar a mão (d’Hand) da filha. E, além do mais, o mestre-moleiro continuava a depositar-lhe inteira confiança, parecendo mesmo que tinha por ele uma certa afeição. Não encontrando explicação exacta para aquela recusa, decidiu ir consultar uma bruxa (Hex) contando-lhe o que pretendia e explicando a resposta que lhe tinha sido dada.
"Fácil (einfach) , respondeu a bruxa, o que o moleiro quer (wëllt) dizer é que sem água, não há hipótese de fazer mover o moinho nem de ganhar (verdéngen) dinheiro (Suen) para sustentar a família (d’Famill) e, não havendo água, os lavradores (d’Baueren) não trazem nem trigo (de Weess) nem milho (Mais) para moer (muelen) . Se (Wann) tu queres casar (bestueden) com Maria, tens de provar que a podes sustentar e que para isso és capaz de fazer chegar mais água ao riacho que faz funcionar o moinho". Como o rapaz (de Jong) não sabia (wousst net) muito bem (ganz gutt) como resolver a situação, logo a bruxa lhe propôs os serviços de um mágico que o podia (konnt) ajudar (hëllefen) – só era preciso que ele voltasse à meia-noite (Mëtternuecht) com um galo (en Hunn) preto (schwaarz) . E foi assim que o moleirinho lá foi ao encontro marcado. Só que logo se apercebeu que o dito mágico era, nem mais (net méi) nem menos (net manner) , que o diabo (den Däiwel) disfarçado. E, como em todas as histórias, o maligno quis fazer negócio em seu próprio (eegen) proveito. Ao princípio (am Ufank), o rapaz não quis ceder, mas, como estava tão apaixonado pela Maria Moleirinha, acabou por aceitar o que Satanás lhe propunha, isto é (dat heescht) , desviar para ali as águas que os ferreiros de Beaufort (Befert) utilizavam para fabricar as armas (Waffen) dos soldados (Zaldoten) . E (an) foi assim (et wor esou) que lhe prometeu reconhecimento eterno e a consagração do seu (vu sengem) primeiro (éischten) filho. No dia a seguir (duerno) , a água jorrou de sete (siwen) grandes tubos que apareceram a montante do moinho, ficando este logo prontinho a funcionar. A notícia (d’Neiegkeet) correu veloz (schnell) e de toda a parte veio gente carregada de sacos e sacos de cereais (Fruucht) para moer. Mais tarde (méi spéit) , soube-se que em Beaufort já não se faziam armas de qualquer espécie porque o riacho de lá tinha secado.
Quanto ao nosso moleirinho, inteligente como era, não quis de forma alguma manter a promessa feita ao diabo – o amor (d’Léift) que tinha por Maria, esse sim, era eternamente puro e não podia de forma alguma enviar os seus filhos para o Inferno (an d’Häll) . Deste modo, vendo assegurado o futuro (d’Zukunft) da sua amada, decidiu ficar solteiro (Jonggesell) e partiu, contente, para terras longínquas em busca de trabalho (Aarbecht) . E é assim que aquele sítio, ali (do) em Muhlenbach (op der Millebach) passou a chamar-se Sete Fontes (Septfontaines = Siwebueren) . Afinal, o moleirinho foi mais esperto do que o diabo!
Maria Januário
(Rubrica de civilização, cultura e língua luxemburguesas, publicada na segunda e na quarta semana de cada mês na edição papel do jornal CONTACTO)
No local onde (wou) hoje se encontram as instalações da fábrica de faianças Villeroy & Boch existia um moinho (eng Millen) que acabou por dar (ginn) o nome (Numm) ao bairro que hoje conhecemos (kennen) .
Conta a lenda que a certa altura o caudal do riacho era tão fraco que o moinho estava parado uma grande parte do tempo, ocasionando assim grandes dificuldades ao pobre (aarm) moleiro que ali vivia com a mulher (Fra) , a filha (Duechter) e um aprendiz (Léierjong) .
Maria, filha única (eenzeg) do moleiro, bonita (schéin) e esperta, apaixonou-se pelo jovem moleirinho. Ele, rapaz inteligente e atractivo, a quem chamavam Blondin, concerteza (ganz bestëmmt) devido à sua cabeleira farta e loura, também (och) se apercebeu que a filha do seu mestre (Meeschter) não lhe era nada (guer net) indiferente... Assim, quando ela fez 18 anos (uechtzéng Joer) , Blondin pediu a mão da sua apaixonada ao moleiro. Só que, sem (ouni) outra (eng aner) explicação, o moleiro respondeu-lhe "sem (ouni) água (Wasser) e sem grão (Kär), o moinho pára". O pobre rapaz, embora esperto para o ofício (Beruff) , não entendeu o que o moleiro quis dizer e alguns tempos mais tarde voltou a pedir (froen) a menina (d’Meedchen) em casamento. Mas, a resposta (d’Äntwert) do moleiro de Millebach foi, mais uma vez (nach eng Kéier) , exactamente (genau), a mesma (d’selwecht) , e o pobre Blondin ficou sem saber o que o patrão queria (wollt) dizer (soen) com aquela frase (Saz) .
Se bem que a resposta não desse a entender uma aceitação do pedido de casamento, também não lhe parecia que se tratasse de uma recusa sem apelo. Aliás, como poderia tal acontecer? Era jovem (jonk) , belo, bem feito, honesto (éierlech) , não tinha defeitos de maior, tirando unicamente o facto de ser pobre, tão pobre como o pobre do seu patrão. Ora isso não podia ser uma razão para lhe recusar a mão (d’Hand) da filha. E, além do mais, o mestre-moleiro continuava a depositar-lhe inteira confiança, parecendo mesmo que tinha por ele uma certa afeição. Não encontrando explicação exacta para aquela recusa, decidiu ir consultar uma bruxa (Hex) contando-lhe o que pretendia e explicando a resposta que lhe tinha sido dada.
"Fácil (einfach) , respondeu a bruxa, o que o moleiro quer (wëllt) dizer é que sem água, não há hipótese de fazer mover o moinho nem de ganhar (verdéngen) dinheiro (Suen) para sustentar a família (d’Famill) e, não havendo água, os lavradores (d’Baueren) não trazem nem trigo (de Weess) nem milho (Mais) para moer (muelen) . Se (Wann) tu queres casar (bestueden) com Maria, tens de provar que a podes sustentar e que para isso és capaz de fazer chegar mais água ao riacho que faz funcionar o moinho". Como o rapaz (de Jong) não sabia (wousst net) muito bem (ganz gutt) como resolver a situação, logo a bruxa lhe propôs os serviços de um mágico que o podia (konnt) ajudar (hëllefen) – só era preciso que ele voltasse à meia-noite (Mëtternuecht) com um galo (en Hunn) preto (schwaarz) . E foi assim que o moleirinho lá foi ao encontro marcado. Só que logo se apercebeu que o dito mágico era, nem mais (net méi) nem menos (net manner) , que o diabo (den Däiwel) disfarçado. E, como em todas as histórias, o maligno quis fazer negócio em seu próprio (eegen) proveito. Ao princípio (am Ufank), o rapaz não quis ceder, mas, como estava tão apaixonado pela Maria Moleirinha, acabou por aceitar o que Satanás lhe propunha, isto é (dat heescht) , desviar para ali as águas que os ferreiros de Beaufort (Befert) utilizavam para fabricar as armas (Waffen) dos soldados (Zaldoten) . E (an) foi assim (et wor esou) que lhe prometeu reconhecimento eterno e a consagração do seu (vu sengem) primeiro (éischten) filho. No dia a seguir (duerno) , a água jorrou de sete (siwen) grandes tubos que apareceram a montante do moinho, ficando este logo prontinho a funcionar. A notícia (d’Neiegkeet) correu veloz (schnell) e de toda a parte veio gente carregada de sacos e sacos de cereais (Fruucht) para moer. Mais tarde (méi spéit) , soube-se que em Beaufort já não se faziam armas de qualquer espécie porque o riacho de lá tinha secado.
Quanto ao nosso moleirinho, inteligente como era, não quis de forma alguma manter a promessa feita ao diabo – o amor (d’Léift) que tinha por Maria, esse sim, era eternamente puro e não podia de forma alguma enviar os seus filhos para o Inferno (an d’Häll) . Deste modo, vendo assegurado o futuro (d’Zukunft) da sua amada, decidiu ficar solteiro (Jonggesell) e partiu, contente, para terras longínquas em busca de trabalho (Aarbecht) . E é assim que aquele sítio, ali (do) em Muhlenbach (op der Millebach) passou a chamar-se Sete Fontes (Septfontaines = Siwebueren) . Afinal, o moleirinho foi mais esperto do que o diabo!
Maria Januário
(Rubrica de civilização, cultura e língua luxemburguesas, publicada na segunda e na quarta semana de cada mês na edição papel do jornal CONTACTO)
Crónica: Tharasia de Leão, uma mulher moderna
Corria o ano de 1108 quando Henrique de Borgonha, senhor do Condado Portucalense, referindo-se a sua esposa, D. Teresa de Leão, mandou escrever ao seu secretário, num muito oficial documento administrativo, as palavras "formosíssima e dulcíssima Tharasia". Os adjectivos que aqui foram utilizados eram raros para aquela época, pois que na Idade Média, a redacção de documentos oficiais com referências às nobres esposas, apenas fazia menção à expressão "minha ilustre esposa". Com esta frase, alguns historiadores apontam para uma mensagem de amor que se cristaliza nestes superlativos ditados pelo conde D. Henrique.
Tharasia, ou Teresa de Leão, era, como sabemos, filha ilegítima do rei D. Afonso VI de Leão e da sua amada Ximena, e quinta neta da primeira condessa da Terra Portucalis, D. Mumadona Dias. O rei de Leão tinha enviuvado da primeira esposa, D. Inês e ainda não havia contratado segundas núpcias com aquela que viria a ser a nova rainha de Leão, D. Constança de Borgonha, quando terá tido "uma aventura amorosa" com D. Ximena Muñiz ou Gimena Muñoz ou Ximena Nunes. Filha dos condes de Bierzo, rica de grandes propriedades, a família Muñiz frequentava assiduamente a ilustre corte de Toledo. No entanto, e embora de tão ilustre linhagem, o papa não autorizou este casamento alegando que D. Ximena ainda era parente da rainha defunta, facto que obrigou a jovem condessa a afastar-se do rei e a retomar a sua vida nos territórios de sua pertença. No entanto, jamais esquecerá aquele amor ao pai desta sua filha Teresa e fará saber que, quando morrer, deseja ser sepultada no Mosteiro de Santo André de Espinareda, devendo sua lápide ser gravada com as seguintes palavras "Que Deus a livre do castigo, do viúvo rei Afonso foi amiga". A mãe do primeiro rei de Portugal, será pois educada como menina nobre que era e com as honras da corte, como filha de rei. Aquela que "substitui" sua mãe ao lado do rei, virá a ser sua tia por aliança já que D. Henrique, com quem se casou por volta dos dezassete anos, era sobrinho da dita D. Constança. A sua história e os seus ascendentes tê-la-ão dotado de uma forte personalidade e de uma alma guerreira, mas também se afirmará como amante do poder e de homens. Foi assim que, aos cinquenta anos, pouco terá hesitado em trocar o condado pela sua última paixão...
Tendo em conta que, muitas vezes, a História foi escrita no masculino, só nos chegaram registos negativos da personalidade de D. Teresa que se intitulou rainha já por volta do ano de 1117. Não dizia um provérbio da Idade Média que "melhor é a maldade do homem do que a bondade da mulher"?...
Recentemente, o historiador argentino Marsilio Cassotti, autor da primeira biografia de D. Teresa, afirma que esta foi uma personalidade resolutamente moderna e uma das figuras mais interessantes da Idade Média. A sua personalidade forte e afirmada e a sua liberdade de pensamento levaram-na a decidir sobre as suas próprias acções, sem que tenha minimamente levado em conta a opinião dos bispos, da Igreja ou mesmo da família. Embora algumas das suas decisões tenham sido erradas, sempre seguiu as suas próprias ideias – e muitas foram acertadas. Dentro desta perspectiva, terá sido ela quem estabeleceu relações diplomáticas com a Santa Sé no intuito de alicerçar a existência de um reino independente. E, é deste modo, que os documentos oficiais provenientes de Roma lhe são endereçados com o título de "Rainha Dona Teresa". Entre História e lenda, o que ainda nos resta são algumas certezas da influência que terá exercido junto do seu marido, ou das negociações que levou a cabo, já viúva, junto do arcebispo de Compostela para que este se tornasse seu aliado nas lutas que então travava contra o exército de sua irmã. A sua força de vontade para prosseguir a luta do falecido marido e para não ter que abdicar das terras herdadas do pai, tentando, pelo contrário, conquistar ainda novos territórios, foi o marco da sua vida no grande desafio da sua regência. A ideia de independência terá surgido quando, após várias malogradas tentativas, se deu conta que não conseguiria nunca conquistar os cobiçados domínios em terras de Leão e de Castela. Assim, afirmou desde logo a vontade de incorporar ao reino as terras galegas com as quais existia uma tradição comum, não só ao nível cultural como ao nível linguístico. Contrariamente a alguns dos nossos historiadores "que a maltratam", este especialista argentino afirma que D. Teresa foi uma mulher fulcral para a História de Portugal e quem sempre movimentou o jogo do poder naquele jovem condado, berço da nossa identidade nacional.
Embora estes jogos de poder, ou de infidelidade, tenham feito de D. Teresa uma mulher de várias paixões, será ao lado do seu primeiro marido, o conde D. Henrique de Borgonha, que na Sé de Braga, irá, para sempre, repousar.
Mafalda Lapa
(rubrica mensal, próxima publicação: 16 de Dezembro)
Tharasia, ou Teresa de Leão, era, como sabemos, filha ilegítima do rei D. Afonso VI de Leão e da sua amada Ximena, e quinta neta da primeira condessa da Terra Portucalis, D. Mumadona Dias. O rei de Leão tinha enviuvado da primeira esposa, D. Inês e ainda não havia contratado segundas núpcias com aquela que viria a ser a nova rainha de Leão, D. Constança de Borgonha, quando terá tido "uma aventura amorosa" com D. Ximena Muñiz ou Gimena Muñoz ou Ximena Nunes. Filha dos condes de Bierzo, rica de grandes propriedades, a família Muñiz frequentava assiduamente a ilustre corte de Toledo. No entanto, e embora de tão ilustre linhagem, o papa não autorizou este casamento alegando que D. Ximena ainda era parente da rainha defunta, facto que obrigou a jovem condessa a afastar-se do rei e a retomar a sua vida nos territórios de sua pertença. No entanto, jamais esquecerá aquele amor ao pai desta sua filha Teresa e fará saber que, quando morrer, deseja ser sepultada no Mosteiro de Santo André de Espinareda, devendo sua lápide ser gravada com as seguintes palavras "Que Deus a livre do castigo, do viúvo rei Afonso foi amiga". A mãe do primeiro rei de Portugal, será pois educada como menina nobre que era e com as honras da corte, como filha de rei. Aquela que "substitui" sua mãe ao lado do rei, virá a ser sua tia por aliança já que D. Henrique, com quem se casou por volta dos dezassete anos, era sobrinho da dita D. Constança. A sua história e os seus ascendentes tê-la-ão dotado de uma forte personalidade e de uma alma guerreira, mas também se afirmará como amante do poder e de homens. Foi assim que, aos cinquenta anos, pouco terá hesitado em trocar o condado pela sua última paixão...
Tendo em conta que, muitas vezes, a História foi escrita no masculino, só nos chegaram registos negativos da personalidade de D. Teresa que se intitulou rainha já por volta do ano de 1117. Não dizia um provérbio da Idade Média que "melhor é a maldade do homem do que a bondade da mulher"?...
Recentemente, o historiador argentino Marsilio Cassotti, autor da primeira biografia de D. Teresa, afirma que esta foi uma personalidade resolutamente moderna e uma das figuras mais interessantes da Idade Média. A sua personalidade forte e afirmada e a sua liberdade de pensamento levaram-na a decidir sobre as suas próprias acções, sem que tenha minimamente levado em conta a opinião dos bispos, da Igreja ou mesmo da família. Embora algumas das suas decisões tenham sido erradas, sempre seguiu as suas próprias ideias – e muitas foram acertadas. Dentro desta perspectiva, terá sido ela quem estabeleceu relações diplomáticas com a Santa Sé no intuito de alicerçar a existência de um reino independente. E, é deste modo, que os documentos oficiais provenientes de Roma lhe são endereçados com o título de "Rainha Dona Teresa". Entre História e lenda, o que ainda nos resta são algumas certezas da influência que terá exercido junto do seu marido, ou das negociações que levou a cabo, já viúva, junto do arcebispo de Compostela para que este se tornasse seu aliado nas lutas que então travava contra o exército de sua irmã. A sua força de vontade para prosseguir a luta do falecido marido e para não ter que abdicar das terras herdadas do pai, tentando, pelo contrário, conquistar ainda novos territórios, foi o marco da sua vida no grande desafio da sua regência. A ideia de independência terá surgido quando, após várias malogradas tentativas, se deu conta que não conseguiria nunca conquistar os cobiçados domínios em terras de Leão e de Castela. Assim, afirmou desde logo a vontade de incorporar ao reino as terras galegas com as quais existia uma tradição comum, não só ao nível cultural como ao nível linguístico. Contrariamente a alguns dos nossos historiadores "que a maltratam", este especialista argentino afirma que D. Teresa foi uma mulher fulcral para a História de Portugal e quem sempre movimentou o jogo do poder naquele jovem condado, berço da nossa identidade nacional.
Embora estes jogos de poder, ou de infidelidade, tenham feito de D. Teresa uma mulher de várias paixões, será ao lado do seu primeiro marido, o conde D. Henrique de Borgonha, que na Sé de Braga, irá, para sempre, repousar.
Mafalda Lapa
(rubrica mensal, próxima publicação: 16 de Dezembro)
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Crónica: Amanhã há eleições presidenciais
O problema é que a parte mais afastada da realidade na frase "A Europa elege o seu primeiro presidente" é mesmo o início. Não serão os cidadãos europeus a eleger o "seu" presidente.
Na verdade, é difícil até identificar quem o faz; em teoria, são os 27 governos dos Estados-membros, mas na verdade apenas uma ou duas pessoas influenciam a escolha dentro de cada governo, e o peso de cada um dos 27 também é muito diferente...
Olhando de perto, o futuro mandatário por dois anos e meio (renováveis uma vez) será escolhido por 10 ou 20 europeus entre os cerca de 500 milhões que habitam esta "casa comum". Para a causa do envolvimento dos cidadãos no grande projecto europeu, a conclusão não é brilhante.
Porque não, por exemplo, eleger um certo número de candidatos, digamos 12, em eleições verdadeiramente pan-europeias, sendo posteriormente um desses 12 magníficos escolhido numa cimeira extraordinária como aquela que decorre amanhã em Bruxelas?
A força e legitimidade da Europa sairiam reforçadas e essa grande invenção europeia denominada "democracia" seria mais honrada do que na situação actual, com nomes cozinhados atrás de portas fechadas e nos quais os media vão tentando acertar (ou criar), enquanto a maioria da população passa tranquilamente ao lado de mais uma decisão com impacto real na sua vida.
Quanto impacto? Depende de quem for eleito. Os jornais apontam o primeiro-ministro belga, Van Rompuy, como grande favorito – e o que não deixa de ser interessante, desde domingo que nos famosos bookmakers ingleses já não é possível apostar no próximo presidente, o que indica que o favorito é mais do que isso.
Van Rompuy, que tem "Aquiles" no seu nome completo, tem o calcanhar de ser um perfeito desconhecido até há um ano atrás, quando foi designado para pacificar o seu difícil país. A sua eleição significará uma Europa introvertida e um cargo desenhado essencialmente como facilitador de consensos.
Juncker, outro candidato, vem de um país que é mal visto devido ao segredo bancário, e detém uma característica que deveria ser uma vantagem, mas infelizmente não é: a imagem "demasiado europeísta".
Para os resultados de corridas tão incertas e em que muitas vezes surge um nome inédito à última hora (que o diga Barroso) aos dois postos – também o de Alto-Representante da União Europeia para a Política Externa –, eu arriscaria apenas dois prognósticos: o presidente virá de um pequeno país da Europa do Norte; e um dos dois cargos será entregue a uma mulher.
Hugo Guedes*
*As crónicas de Hugo Guedes podem ser lidas no blogue associado do CONTACTO: www.naruadagrandecidade.blogspot.com (Próxima publicação: 2 de Dezembro)
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Luxemburgo: Se Juncker for nomeado para presidente da UE, quem o deverá substituir como primeiro-ministro - Luc Frieden ou François Biltgen?
O assunto vai ser decidido em Bruxelas esta quinta-feira pelos chefes de Estado e de Governo dos 27 Estados-membros da UE. O presidente da UE pode assumir funções em Janeiro de 2010, caso assim os líderes europeus o decidam.
Se Juncker for o escolhido pelos 27 - e o chefe de Governo luxemburguês já disse que aceitaria o convite se este lhe fosse dirigido - o Luxemburgo fica sem o seu carismático primeiro-ministro dentro de mês e meio, já a partir de Janeiro.
Outros analistas consideram a nomeação de François Biltgen (à direita, na imagem) para chefe do Governo luxemburguês pouco provável e vêem Luc Frieden (à esquerda) como o favorito da população e de Juncker.
Biltgen, de 51 anos, assume de momento pastas tão importantes como a Justiça, as Comunicações, o Ensino Superior e Investigação, e a Função Pública. Com pastas que são verdadeiros estaleiros de obras, Biltgen é um super-ministro difícil de substituir. Fosse ele nomeado para chefiar o Executivo, isso implicaria uma remodelação no Governo, uma redistribuição das pastas ou mesmo novas nomeações.
Biltgen entrou um ano depois de Frieden no Governo, em 1999, e tem sido um ministro com uma carreira linear e autor de políticas mais ou menos consensuais. Um dos seus (únicos) sucessos políticos foi, enquanto ministro do Trabalho, decidir tornar a ADEM – claramente ultrapassada pelo número crescente de desempregados –, numa agência com mais meios e outro tipo de gestão. Mas essa agência só será uma realidade, na melhor das hipóteses, no Verão de 2010, e o sucesso desta restruturação ainda está para provar.
Outro sucesso seu foi conseguir renovar a lei da imprensa em 2004 (datava de 1869!), enquanto ministro das Comunicações. Mas, em contrapartida, com o caso das buscas no CONTACTO que a Justiça luxemburguesa não considerou ilegais, é de questionar a sua autoridade como ministro da Tutela, na aplicação dessa mesma lei.
Biltgen é um ministro bem visto pelos estrangeiros e sobretudo pelos portugueses, simpatia granjeada durante o tempo em que foi presidente da associação Amizade Portugal-Luxemburgo (APL).
Mas junto dos luxemburgueses, Luc Frieden é bem mais popular. Cinco anos mais novo do que Biltgen, Frieden, a quem Juncker atribuiu apenas dois ministérios, mas dos mais importantes, o do Tesouro e o das Finanças, pode vir perfeitamente a cumular essas pastas com o cargo de chefe do Governo, sem que seja necessária uma remodelação governamental. O que seria do agrado dos eleitores luxemburgueses, diz quem conhece as idiossincrasias deste povo.
A seu favor, Frieden tem o facto de a opinião pública luxemburguesa o ver como um bom governante e um gestor sábio das contas públicas. Foi alvo de duras críticas por cumular, na última legislatura (2004-2009), a pasta da Justiça e a tutela da Polícia. Sobretudo quando se tratou de lidar com o famoso "Caso Boomeleeër" (bombista que assolou o Luxemburgo nos anos 80), em que polícias eram suspeitos de estar directamente envolvidos nos atentados bombistas.
Mesmo assim, a sua popularidade não baixou. No último inquérito sobre o político mais popular do país ("Politmonitor", publicado no "Luxemburger Wort", em Maio), Frieden foi o terceiro preferido dos luxemburgueses e o segundo do seu partido, logo depois de Juncker. Biltgen era sétimo na sondagem.
Outro dos sinais de que Frieden pode ser o "delfim" de Juncker é o facto de as carreiras políticas dos dois homens serem muito semelhantes. Frieden foi nomeado ministro muito cedo, aos 34 anos (Juncker aos 30 e Biltgen aos 40), e viu-se logo confiar uma pasta tão importante como a do Tesouro, pasta que Juncker também ocupou. Daí foi para as Finanças, seguindo as pisadas de Juncker. E como Juncker o fora antes (1989-1995), Frieden assume desde 1998 o cargo de governador do Banco Mundial.
Juncker e Biltgen têm em comum o facto de terem sido ministros do Trabalho, presidentes do CSV e de terem um temperamento popular e comunicativo. Frieden é um político mais reservado e grave.
Mas parece muito mais óbvio que a carreira de Frieden foi de certa forma "pilotada" por Juncker, numa intenção nada dissimulada de o preparar para a sucessão.
Sábado, o presidente cessante do CSV, Biltgen, disse apenas que, como a questão da sucessão de Juncker ainda não se coloca, não deve ser discutida. "Mas o partido dispõe de candidatos suficientes", ironizou.
José Luís Correia
domingo, 15 de novembro de 2009
Crónica: A "Calçada do Papel" – Pabeierbierg
Corria o ano (d'Joer) de 1689, quando, em Mühlenbach (op der Millebach), foi fundada a primeira (déi éischt) fábrica de papel (Pabeier) . Hoje em dia (hautesdaags) , a rua (d’Strooss) íngreme que vai da rua de Muhlenbach para (op) Limpertsberg (Lamperstbierg) ainda (och) é conhecida (as bekannt) pelos nossos (eis) amigos (Frënn) luxemburgueses como a "calçada do papel" – expressão alusiva à existência dessa fábrica (Fabrik) no vale (Dall) onde (wou) agora (elo) se encontra a fábrica de faianças Villeroy e Boch que, infelizmente, também (och) já (schon) tem os seus dias (Deeg) contados...
O fundador desta fábrica de papel foi um tal Pierre Garnier que, dez (zéng) anos mais tarde (méi spéit) , a vendeu a Joseph Buisson, um outro (en aneren) francês (Fransous) oriundo da Sabóia e cuja filha (Duechter) irá casar com Jules-Joseph-Antoine Pescatore, família fulcral da história industrial do Luxemburgo. Em 1815, a dita fábrica passará a ser propriedade da família (Famill) Lamort, tipógrafos (Drécker) , editores e livreiros (Bicherhändler) de Metz (vu Metz) cujo nome (Numm) será dado ao moinho (Millen) de Muhlenbach que produzia a força motriz para a fábrica – o moinho Lamort (Lamoueschmillen) , hoje também já desaparecido.
Mais tarde, a Villeroy & Boch compra (keeft) a unidade de fabricação de papel mas, sessenta (sechzeg) anos depois (duerno) , em 1898, a fábrica será vendida mais uma vez (nach eng Kéier) . Em 1925, as instalações desta fábrica de papel servirão para (fir) uma nova unidade fabril, isto é, para a produção de sabão (Seef) e de gorduras industriais. Finalmente (schliisslech) , e após (no) 230 anos de grande (grouss) actividade industrial, face à concorrência e ultrapassada por maiores (méi grouss) tecnologias, fechou uma (eng) das grandes fábricas do Luxemburgo que forneceu durante muitos anos o papel à Bélgica (Belgien) e aos Países-Baixos (Holland) , tendo a sua demolição ocorrido no ano (am Joer) de 1930.
No entanto (awer) , Muhlenbach não detinha o monopólio do fabrico do papel no Luxemburgo (zu Lëtzebuerg) . Em 1712, um dos moinhos que existiam em Senningen foi também comprado por um francês que ali instalou uma outra unidade de produção que, cem anos (honnert Joer) mais tarde, contava com (mat) 18 (uechtzéng) operários (Aarbechter) . A mesma (d’selwecht) família Lamort que em 1815 havia comprado a fábrica de Muhlenbach, fundou em Clausen uma outra (eng aner) fábrica de papel para paredes que, em 1835, será transferida para Senningen. Dois anos depois, a mesma família irá abrir (opman) uma outra fábrica de pasta de papel entre (zwëschen) Manternach e Wecker e, nos finais de 1840, esta unidade funcionará com cerca de 200 (zweehonnert) operários. Serão igualmente os sucessores de Jacques Lamort quem (wien) retomará a produção das faianças opacas produzidas por volta de 1845 em Echternach (Iechternach) , a fábrica de faianças Dondelinger, e quem vai criar em França (a Frankräich) , exactamente (ganz genau) em Sierck-les-Bains, a importante (faméis) fábrica de "porcelana opaca" e de faiança inglesa, ou feldspática. Entretanto, em 1860, um dos filhos Lamort instala em Senningen a primeira máquina de vapor (Dampf) que vai servir ao processo de fabrico "moderno" do papel. E (an) é nesse mesmo ano que (dass) um dos membros da mesmíssima família Lamort compra a fábrica de tecelagem de algodão que existia então em Pulvermuhlen (o moinho da pólvora = Polfermillen ) e que, no decorrer dos anos, se tornará igualmente uma unidade importante de fabrico de meias (Strëmp) e de roupa interior de senhora, não só (net nëmmen) de algodão (Kotteng) , como também de lã (Woll) e de seda (Seid) . A importância desta produção de artigos de roupa era tal que, em 1936, foi criada uma marca nacional específica a estes produtos, denominada "Luxe-Lux". O número de operários que ali (do) então (deemols) trabalhava os 10.000 kg de lã, de seda e de algodão era de 35 (fënnefandrësseg) homens (Männer) , 260 (zweehonnertsechzeg) mulheres (Fraen) e seis (sechs) meninas (Meedercher) com idade inferior a 16 anos.
Uma época bem longe (ganz Wäit ewech) da actividade financeira e bancária do Luxemburgo que hoje conhecemos (déi mir haut kennen) .
Maria Januário
(Rubrica de civilização, cultura e língua luxemburguesas, publicada na segunda e na quarta semana de cada mês na edição papel do jornal Contacto; Próxima publicação: 25 de Novembro)
O fundador desta fábrica de papel foi um tal Pierre Garnier que, dez (zéng) anos mais tarde (méi spéit) , a vendeu a Joseph Buisson, um outro (en aneren) francês (Fransous) oriundo da Sabóia e cuja filha (Duechter) irá casar com Jules-Joseph-Antoine Pescatore, família fulcral da história industrial do Luxemburgo. Em 1815, a dita fábrica passará a ser propriedade da família (Famill) Lamort, tipógrafos (Drécker) , editores e livreiros (Bicherhändler) de Metz (vu Metz) cujo nome (Numm) será dado ao moinho (Millen) de Muhlenbach que produzia a força motriz para a fábrica – o moinho Lamort (Lamoueschmillen) , hoje também já desaparecido.
Mais tarde, a Villeroy & Boch compra (keeft) a unidade de fabricação de papel mas, sessenta (sechzeg) anos depois (duerno) , em 1898, a fábrica será vendida mais uma vez (nach eng Kéier) . Em 1925, as instalações desta fábrica de papel servirão para (fir) uma nova unidade fabril, isto é, para a produção de sabão (Seef) e de gorduras industriais. Finalmente (schliisslech) , e após (no) 230 anos de grande (grouss) actividade industrial, face à concorrência e ultrapassada por maiores (méi grouss) tecnologias, fechou uma (eng) das grandes fábricas do Luxemburgo que forneceu durante muitos anos o papel à Bélgica (Belgien) e aos Países-Baixos (Holland) , tendo a sua demolição ocorrido no ano (am Joer) de 1930.
No entanto (awer) , Muhlenbach não detinha o monopólio do fabrico do papel no Luxemburgo (zu Lëtzebuerg) . Em 1712, um dos moinhos que existiam em Senningen foi também comprado por um francês que ali instalou uma outra unidade de produção que, cem anos (honnert Joer) mais tarde, contava com (mat) 18 (uechtzéng) operários (Aarbechter) . A mesma (d’selwecht) família Lamort que em 1815 havia comprado a fábrica de Muhlenbach, fundou em Clausen uma outra (eng aner) fábrica de papel para paredes que, em 1835, será transferida para Senningen. Dois anos depois, a mesma família irá abrir (opman) uma outra fábrica de pasta de papel entre (zwëschen) Manternach e Wecker e, nos finais de 1840, esta unidade funcionará com cerca de 200 (zweehonnert) operários. Serão igualmente os sucessores de Jacques Lamort quem (wien) retomará a produção das faianças opacas produzidas por volta de 1845 em Echternach (Iechternach) , a fábrica de faianças Dondelinger, e quem vai criar em França (a Frankräich) , exactamente (ganz genau) em Sierck-les-Bains, a importante (faméis) fábrica de "porcelana opaca" e de faiança inglesa, ou feldspática. Entretanto, em 1860, um dos filhos Lamort instala em Senningen a primeira máquina de vapor (Dampf) que vai servir ao processo de fabrico "moderno" do papel. E (an) é nesse mesmo ano que (dass) um dos membros da mesmíssima família Lamort compra a fábrica de tecelagem de algodão que existia então em Pulvermuhlen (o moinho da pólvora = Polfermillen ) e que, no decorrer dos anos, se tornará igualmente uma unidade importante de fabrico de meias (Strëmp) e de roupa interior de senhora, não só (net nëmmen) de algodão (Kotteng) , como também de lã (Woll) e de seda (Seid) . A importância desta produção de artigos de roupa era tal que, em 1936, foi criada uma marca nacional específica a estes produtos, denominada "Luxe-Lux". O número de operários que ali (do) então (deemols) trabalhava os 10.000 kg de lã, de seda e de algodão era de 35 (fënnefandrësseg) homens (Männer) , 260 (zweehonnertsechzeg) mulheres (Fraen) e seis (sechs) meninas (Meedercher) com idade inferior a 16 anos.
Uma época bem longe (ganz Wäit ewech) da actividade financeira e bancária do Luxemburgo que hoje conhecemos (déi mir haut kennen) .
Maria Januário
(Rubrica de civilização, cultura e língua luxemburguesas, publicada na segunda e na quarta semana de cada mês na edição papel do jornal Contacto; Próxima publicação: 25 de Novembro)
terça-feira, 10 de novembro de 2009
A lenda de S. Martinho comemora-se a 11 de Novembro
Martinho não hesitou: parou o cavalo, poisou a sua mão carinhosamente na do pobre e, em seguida, com a espada cortou ao meio a sua capa de militar, dando metade ao mendigo. Sob chuva intensa, preparava-se para continuar o seu caminho. Subitamente, a tempestade desfez-se, o céu ficou límpido e um sol de estio inundou a terra de luz e calor. Diz-se que Deus, para que não se apagasse da memória dos homens o acto de bondade praticado pelo bom soldado, futuro santo da Igreja, todos os anos, nessa mesma época, cessa por alguns dias o tempo frio, e o céu e a terra sorriem com a bênção de um sol quente e miraculoso". É o chamado Verão de São Martinho.
Segundo Sulpício Severo, historiador e eclesiástico do séc. IV, nascido na Aquitaine (França), que escreveu a "Vida de São Martinho", este terá nascido em 316 em Sabaria (actualmente Szombathely), na Hungria. Martinho era filho de uma alta patente do exército imperial de Roma, originário de Pavia (Norte de Itália). Martinho, cujo nome significa "dedicado a Marte", deus romano da Guerra, segue os passos do pai e alista-se aos 15 anos no exército. Mais tarde, repudiando a vida militar, torna-se bispo de Tours, em 370. Martinho morre em Candes (perto de Tours) aos 81 anos, a 8 de Novembro de 397, sendo enterrado três dias mais tarde, dia 11.
O São Martinho comemora-se a 11 de Novembro, próximo da época natalícia. Mais uma vez, a sabedoria popular é esclarecedora: "Dos Santos até ao Natal, é um saltinho de pardal!"
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Crónica: Berlim, 20 anos depois
Em Novembro de 1989, a situação na Alemanha de Leste era de turbilhão. O velho líder Erich Honecker, o mesmo que tinha em Janeiro desse ano afirmado que "o Muro durará mais cem anos”, tinha sido forçado a demitir-se havia duas semanas e a nova direcção do Partido Comunista, pressionada pela abertura das fronteiras nas vizinhas Hungria e Checoslováquia e por uma manifestação gigantesca no Alexanderplatz no dia 4, reúne na manhã do dia 9 e decide abrandar as restrições às visitas ao Ocidente, prevendo mesmo a concessão de vistos temporários a cidadãos comuns. É o porta-voz do Governo, Günther Schabowski, detentor no regime do cargo de secretário-geral da Propaganda, quem tem a incumbência de anunciar a medida à população. Schabowski senta-se para a conferência de imprensa, acabado de regressar de uns diazinhos de férias e desconhecedor dos últimos desenvolvimentos; nas mãos tem apenas uma pequena e incompleta nota do Politburo. Quando os jornalistas lhe perguntam a partir de quando é que as restrições começarão a abrandar, o titubeante Schabowski afirma: "Tanto quanto sei, imediatamente!”. Num primeiro momento, os jornalistas nem podem acreditar no alcance daquelas palavras. Segundos depois, a História começa a sua marcha inexorável: milhares de berlinenses inundam as cercanias do Muro e exigem aos atónitos guardas, os mesmos que atiraram para matar centenas de vezes ao longo de 28 anos de existência do Muro, entrar em Berlim Oeste. Depois de desesperados telefonemas sem sucesso para um poder que já não existia, os guardas acedem. A euforia é indescritível e os chamados "pica-paus” (pessoas que com picaretas ou guindastes deitaram abaixo o cimento grafitado) começariam no próprio dia o trabalho de demolição dos 156 km do Muro.
A data de 9 de Novembro é hoje um dos símbolos da reunificação europeia e, passados 20 anos, a grande cidade que é Berlim tenciona festejá-la condignamente. No fim-de-semana que passou foram os envelhecidos líderes políticos daquele tempo, Helmut Kohl, Mikhail Gorbatchov e George Bush pai (Mitterrand morreu e Thatcher tem Alzheimer em estado avançado), que posaram para uma fotografia de grupo. No dia 9 são os seus respectivos sucessores a fazê-lo. Mas a festa vem também para a rua: no dia 5, os U2 – cuja carreira é indissociável de Berlim – tocam na Porta de Brandenburgo. Depois, há exposições, desfiles, fogos-de-artifício, concertos, tudo inserido num tão relaxado quanto ambicioso "Festival da Liberdade” que vai transportar os presentes de volta àqueles dias em que a História andou muito depressa, quando Berlim voltou a ser o centro do Mundo.
Hugo Guedes*
*As crónicas quinzenais de Hugo Guedes podem ser lidas no blogue associado do CONTACTO: www.naruadagrandecidade.blogspot.com / Próxima crónica: 18 de Novembro
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Crónica Política: O candidato da Europa, pela Europa
Na realidade, percebia-se mal que um político que sempre se manifestou um inimigo visceral das políticas comuns viesse a presidir à União.
Tal como Thatcher, Blair sempre foi contra a moeda única, contra a Carta Social Europeia, contra a Política Agrícola Comum, contra o Espaço Schengen e contra a Política Externa e de Segurança Comum e ninguém percebia como poderia defender estes valores estruturantes da União no exercício da Presidência.
Acresce que a sua eventual candidatura nunca foi assumida pelos Estados-membros, mas antes, por um pequeno grupo que incluía Durão Barroso e que fez um escandaloso projecto de distribuição de cadeiras que, só por si, punha em causa a democraticidade da União e a intolerável promiscuidade com a NATO. O primeiro a resolver a sua vida foi o dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, que assumiu já o cargo de secretário-geral da NATO. Foi substituir o holandês Jaap de Joop Scheffer que, nos termos deste acordo conspirativo, seria o novo responsável pela Política Externa e de Segurança Comum e ainda alimenta essa esperança.
Durão Barroso não ficou de fora e foi reconduzido na Presidência da Comissão, com as dificuldades que se viram.
A França não obtinha qualquer lugar, mas ficava com a garantia de que Jean-Claude Trichet se manteria na presidência do Banco Central Europeu (BCE) e outro francês, Dominique Strauss-Khan teria o apoio europeu para continuar à frente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Apesar destas garantias, a França aceitou esse acordo de bastidores com alguma relutância.
O entusiasmo desta solução era visível, sobretudo nos jornais do grupo britânico Times que há mais de um ano tem andado a cozinhar estas alterações em lume brando. Por essa razão, estão agora a tratar Jean-Claude Juncker, com uma contrastante discrição. Mas a propaganda negra está eminente. Vão dizer que Juncker é um adepto dos paraísos fiscais e que atrasou as medidas de combate à crise. Estamos cá para ver quem são os jornais que se vão empenhar nesta campanha negativa.
Todos aqueles que têm assistido com indignação a este arranjo, vêem agora a candidatura de Juncker como uma janela de esperança, moralizadora da democraticidade europeia. Afinal, o rei ainda não vai completamente nu e há homens com força bastante para se oporem aos conluios e ao secretismo.
Juncker tem todas as condições para assumir uma candidatura vitoriosa e, sobretudo, uma grande presidência, ao nível dos grandes europeístas, como Helmut Kohl, François Miterrand, Felipe Gonzalez ou Jacques Delors. É uma personalidade respeitada em toda a Europa que, pela sua estatura moral e cívica, pode muito bem cativar apoios à esquerda e à direita, sobretudo entre as duas grandes famílias políticas europeias, o Partido Popular (PPE) e o Partido Socialista (PSE).
Além disso, o seu desempenho na presidência do Eurogrupo é unanimemente elogiado e, num momento de crise tão grave, a União só teria a ganhar se tivesse na presidência do Conselho uma figura com competência na área financeira. Nota-se-lhe também um espírito aberto e tolerante que o distingue das lógicas imperantes na Comissão que a conduzem a uma fúria regulamentadora, por absoluta incapacidade de resolver os grandes problemas da Europa. Sem ser um argumento a levar muito a sério, chega-se a dizer que neste momento de luta segregacionista contra os fumadores a presença de Jean-Claude Juncker, fumador inveterado, no topo da União Europeia seria uma corrente de ar fresco.
No plano nacional, há que referir a recondução de António Braga, como secretário de Estado das Comunidades. A decisão foi tomada, conjuntamente, por José Sócrates e Luís Amado e obedeceu à lógica do mal menor. O nome que estava na calha era o de Pedro Lourtie, a que se veio juntar depois o de Paulo Pisco, proposto por José Lello. Sócrates propôs então a Amado que mantivesse António Braga, deslocando Lourtie para os Assuntos Europeus, desejo que o próprio já tinha manifestado.
Sérgio Ferreira Borges*,
analista político
(o autor assina semanalmente a coluna política "Avenida da Liberdade" no jornal CONTACTO)
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Crónica: Domingo se saberá... ou não!
Isto quer dizer que, no próximo domingo, a vitória pode ser determinada pelo sistema de fotofinish, o que equivale a dizer que será preciso contar o último voto, para saber quem de facto venceu.
Depois do fracasso das sondagens nas últimas eleições europeias, existe em Portugal, um clima generalizado de desconfianças, em relação aos estudos de opinião. Mas os técnicos eleitorais apontam para a possibilidade de surgirem resultados pouco esclarecidos e pouco esclarecedores. Por exemplo, dependendo a concentração de voto por círculos eleitorais, pode acontecer que o partido mais votado eleja um número de deputados inferior ao do segundo partido.
Outra possibilidade que está a ser considerada, esta muito mais real, pode passar por uma vitória do PSD, por maioria simples que deixava o sistema bloqueado. Explicando, o PSD, mesmo com uma coligação com o CDS, podia ficar muito longe dos 50 por cento de mandatos. Logo, a "maioria absoluta" do parlamento ficaria dividida pelos três partidos de esquerda, PS, Bloco de Esquerda e PCP, um cenário que tornaria a governação social-democrata, praticamente impossível, apesar de os socialistas, com toda a certeza, fazerem tudo para, no plano formal, não inviabilizarem o governo de Manuela Ferreira Leite. Mas o dia-a-dia político seria insustentável.
A verificar-se uma tal situação, o Presidente da República será fundamental. Por exemplo, insistirá com Manuela Ferreira Leite para ela formar governo? Ou dará a possibilidade ao PS de liderar uma maioria de esquerda que, formalmente, não ganhou as eleições? A Constituição permite as duas possibilidades e não só. Cavaco Silva tem a capacidade constitucional de sujeitar ao parlamento um governo de iniciativa presidencial, coisa em que ninguém acredita. E pode também dissolver o parlamento de imediato e convocar novas eleições, correndo aqui o risco de se repetirem resultados equívocos.
Há semanas escrevi aqui que estas eleições podem produzir resultados que serão um bom tema de estudo, para a ciência política. E esta é uma questão que põe, desde logo em causa, o sistema eleitoral. É uma reforma urgente, mas que vem sendo constantemente adiada, nos últimos 25 anos. A tal ponto que os partidos, que mantêm o monopólio da intervenção eleitoral para a Assembleia da República, deixaram de falar no assunto.
Neste clima, os partidos mais pequenos, à esquerda e à direita, parecem conformados com as conquistas de votantes conseguidas, mas preocupados com outra questão – a do voto útil. A bipolarização inevitável desta última semana de campanha pode provocar pequenas deslocações de voto dos mais pequenos, para os dois partidos do centrão, PS e PSD. No CDS, nota-se alguma instabilidade das intenções de voto, o que pode significar que eleitores inseguros, com a crescente dramatização da campanha, possam acabar por votar no PSD. À esquerda, o fenómeno é semelhante. O Partido Comunista tem baixado ligeiramente nas intenções de voto e o Bloco de Esquerda, sempre com boas quotas, tem sondagens que o colocam entre os 17 e os 12 por cento, portanto, com uma margem de flutuação muito grande, pode mesmo dizer-se enorme e só vista em forças que geralmente se cotam acima dos 30 por cento.
Do lado esquerdo do espectro, apareceram, no último fim de semana, declarações que podem indiciar uma possibilidade de entendimento, entre o PS e o Bloco de Esquerda. Mário Soares esteve num comício socialista em Matosinhos e, à margem, disse aos jornalistas que não se escandalizaria, com um entendimento entre socialistas e bloquistas. Francisco Loução foi confrontado com esta declaração e disse que não havia qualquer possibilidade de entendimento, sobretudo, depois de o PS ter feito o Código de Trabalho que está hoje em vigor. Mas no seu discurso, introduziu uma nuance, mal explicada: "a esquerda possível". A expressão é suficientemente ambígua, podendo por isso evoluir para um conceito de convergência parlamentar que permita um governo de "esquerda possível", isto é, um governo do PS, com o apoio parlamentar pontual, do Bloco de Esquerda.
Sérgio Ferreira Borges,
analista político
(o autor assina semanalmente a crónica política "Avenida da Liberdade" no jornal CONTACTO)
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Crónica: Eleonora Fonseca Pimentel, "a portuguesinha de Nápoles"
Leonor da Fonseca Pimentel, embora muito pouco conhecida pela maioria dos historiadores (na França, por exemplo, são poucos os especialistas que se debruçaram sobre a suas história) é um dos grandes vultos da aventura da breve República Napoletana de 1799. Filha de pais portugueses, originários de Beja, nasceu em Roma em 1752 mas os pais mudaram-se para Nápoles em 1760 quando as relações diplomáticas se tornaram tensas entre o Estado do Vaticano e o reino de Portugal devido à expulsão dos jesuítas ordenada pelo Marquês de Pombal.A inteligência e a grande sensibilidade poética da jovem Leonor espelharam-se muito cedo na sua criação literária, o que lhe abriu as portas dos meios académicos e intelectuais daquela época. Correspondeu com grandes poetas e científicos italianos, mas também com Voltaire, o grande filósofo e homem de letras, que marcou o "Século das Luzes".
Os seus escritos poéticos não eram somente uma criação puramente académica pois que, para ela, se tratava de uma forma de comunicação do pensamento e um dos principais meios para a tomada de palavra em público. Esta era uma das razões pela qual Leonor acreditava que a literatura tinha um papel determinante na vida civil e na vida política.
Em 1777, publicou "O triunfo da virtude" uma cantata inspirada no atentado perpetrado contra o Marquês de Pombal e cuja publicação foi precedida de uma dedicatória ao ministro português. Este texto era uma espécie de manifesto do modelo do príncipe iluminado que se tinha lançado em múltiplas reformas no intuito de "proporcionar a felicidade a todos". Assim, exaltou essa acção pela justiça e contra a escravatura e defendeu a promoção das ciências, da educação e da cultura.
Afirmava que os povos não devem serem tratados como mera pertença dos nobres e fazer parte de uma herança material que deixam de geração para geração tal como se se tratasse de um simples direito privado – para ela, o direito público só poderia ser baseado na natureza e nos direitos do homem. Chegou mesmo a sugerir uma teoria de imposto baseada na soberania popular.
Esta linha de pensamento ilustra bem a constância das suas profundas convicções: a exaltação da liberdade e de um modelo monárquico de despotismo esclarecido, a defesa da jurisdição do Estado contra o da Igreja, e, sobretudo a independência da "Nação napolitana".
Tornou-se íntima da rainha de Nápoles (a arquiduquesa austríaca Maria Carolina de Habsburgo-Lorena, irmã de Maria Antonieta, rainha da França)(*) a sua bibliotecária pessoal, amiga e confidente. Esta era uma rainha com visões progressistas que partilhava alguns conceitos de monarquia moderna com Leonor. O sentimento desta amizade “atraiçoada” irá, alguns anos mais tarde, contribuir para a perca da nossa heroína.
Embora brilhante e inteligente, Leonor não conseguiu nunca ter uma vida feliz. Casou aos 25 anos com Pasquale Tria de Solis, um militar pouco dado às meiguices e aos pensamentos intelectuais. Não só fez dela a criada das irmãs, obrigando-a a ocupar-se delas, como também, sem vergonha e sem repúgnio, lhe impôs as amantes na sua própria casa.
E, como a morte de um primeiro filho não fosse o suficiente, ainda teve o desgosto da experiência dramática de um aborto causado pela brutalidade do marido. No entanto, soube impor-se a essa autoridade descabida e, com a ajuda do pai, intentou um processo para se libertar do jugo conjugal. As suas dificuldades financeiras tornaram-se enormes, mas a sua coragem superou esses golpes do Destino e, numa altura em que os seus recursos financeiros não lhe permitiam a compra de livros (a sua fonte do saber e de inspiração permanente), tentou a sorte no loto napolitano, tendo utilizado a quantia ganha para subscrever uma assinatura da Enciclopédia.
No decorrer dos anos, e embora apologista do modelo monárquico iluminado, as ideias proclamadas pela Revolução francesa vieram sobrepor-lhe um outro modelo político e uma outra forma de acção. Se em 1789 (ano da Revolução Francesa), Eleonora Pimentel Fonseca publicou, juntamente com outros poetas, uma série de odes dedicadas ao rei de Nápoles enaltecendo a sua acção pela criação de uma manufactura de sedas, para a qual instituiu uma legislação social em prol dos operários, oito anos depois irá participar, com as tropas francesas de Napoleão, à tomada do castelo de Santo Elmo (situado numa das colinas de Nápoles) onde, a 21 de Janeiro de 1798, será proclamada a "malograda" República Napoletana.
Vive-se então um período de difusão das ideias republicanas que ela defende e pela quais luta. Assim, é logo em Fevereiro que esse punhado de republicanos napolitanos publica o jornal "Il Monitore", o mais importante daquela época, e do qual Leonor é a alma e a redactora. Ela será, por assim dizer, uma das primeiras jornalistas políticas europeias e defenderá, até ao fim, o seu conceito de liberdade, de fraternidade e de igualdade entre todos os cidadãos.
Mas, poucos meses depois (em Junho do mesmo ano) a monarquia é restaurada, os reis voltam do exílio na Sicília e muitos dos republicanos são condenados à morte. A rainha, que não lhe perdoa a "traição" (a própria irmã, a rainha Maria Antonieta havia sido decapitada em Paris pelos revolucionários jacobinos) vai acelerar o processo da sua condenação e Leonor será executada a 20 de Agosto de 1799 com outros patriotas napolitanos (dois banqueiros, um bispo, um advogado, um padre e três nobres).
As suas última palavras são uma frase pronunciada em latim e tirada de um poema do poeta Virgílio ("talvez um dia estas recordações vos tragam algum reconforto"). Embora Leonor fosse uma patriota napolitana, considerava-se "filha de Portugal", tendo assim cultivado a nossa língua e mantido correspondência com vários intelectuais portugueses daquela época. O seu nome foi dado a uma Escola do Magistério Primário de Nápoles em homenagem à maneira como sempre defendeu o primado da educação. Está sepultada no Panteão dos Mártires da Liberdade em Roma.
Mafalda Lapa
(*) Filhas da imperatriz da Áustria, Maria Teresa de Habsburgo. O Luxemburgo fazia parte dos seus domínios – a "Avenue Marie Thérèse" na cidade do Luxemburgo assinala essa regência. A Imperatriz casou aos 18 anos com D. Francisco, (sobrinho-neto do rei Luís XIV) e duque da Lorena, grão-duque da Toscana e vice-rei da Hungria - um casamento de amor com 16 filhos. O Marquês de Pombal foi embaixador de Portugal na Áustria durante uma parte do seu reinado (1745).
(rubrica mensal "Folhas Soltas", próxima publicação a 21 de Outubro)
domingo, 13 de setembro de 2009
Crónica: "Avenida da Liberdade"
A pré-campanha eleitoral está a ser animada essencialmente pela suspensão de um programa de televisão que provocou mais polémica e interesse popular que qualquer um dos debates bilaterais entre os lideres dos principais partidos. Uma questão colateral que tem enchido páginas de jornais, com opiniões divididas sobre o benefício ou o prejuízo que pode acarretar para José Sócrates e o Partido Socialista.
O conflito entre José Sócrates e a produção do "Jornal Nacional" de sexta-feira começou há praticamente um ano. Aquele programa televisivo, apresentado por Manuela Moura Guedes, vinha dedicando especial atenção ao caso Freeport, o que irritava sobremaneira o primeiro-ministro, o principal visado. Na Primavera, houve uma tentativa de compra de uma posição dominante na empresa proprietária da TVI por parte da Portugal Telecom. Isso foi visto como uma jogada para o Estado aumentar a sua influência naquela estação televisiva e assim acabar com o programa e afastar as pessoas mais incómodas, como o director-geral, José Eduardo Moniz, e a sua mulher, Manuela Moura Guedes. Perante esta denúncia e debaixo de muitas críticas, a PT acabou por desistir do negócio. O controlo manteve-se assim no grupo espanhol Prisa, geralmente tido como afecto ao Partido Socialista Operário Espanhol.
Agora, de acordo com algumas notícias, a decisão de acabar com o "Jornal Nacional" das sextas-feiras terá vindo de Madrid, de Juan Luis Cebrian, fundador e primeiro director do jornal "El Pais" e actual administrador-delegado do grupo Prisa.
Quando a notícia foi conhecida, na tarde de quinta-feira, não faltou quem dissesse que a decisão fora tomada por pressão governamental. Mas há análises que vêem nesta decisão um factor que vai prejudicar eleitoralmente o Partido Socialista e o primeiro-ministro. Embora retoricamente, o Presidente da República já se manifestou sobre o assunto, considerando a liberdade de imprensa um bem fundamental conquistado com o 25 de Abril.
Há também quem se tenha regozijado com o fim do programa, que vinha recebendo acesas críticas pela sua falta de ética e deontologia no tratamento noticioso. E há um aspecto que tem sido valorizado. O facto de dois comentadores da TVI, Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente, se terem referido ao assunto nas colunas que assinam no "Expresso" e no "Público", respectivamente, em termos muito ligeiros, sem criticarem a decisão. O primeiro é comentador no "Jornal Nacional" à quinta-feira e Pulido Valente era comentador à sexta-feira.
O PS pode perder com a questão, porque muita gente acha que aqui andou mão socialista e isso é capaz de se traduzir numa penalização eleitoral. A direcção do partido e o Governo têm dito insistentemente que a decisão não lhes traz quaisquer benefícios.
Mas há outra análise que coloca os termos da discussão de forma inversa. Com o fim do programa, acabam as reportagens que estavam preparadas sobre o Freeport e o escândalo é mesmo subalternizado pela polémica gerada pela suspensão do "Jornal Nacional". Por exemplo, o jornal "Público", um dos mais activos na investigação do caso do outlet de Alcochete, até agora, não se referiu ao assunto.
Só o semanário "Sol" o fez, dizendo que a Polícia Judiciária tem um novo suspeito. Trata-se de Bernardo Pinto de Sousa, primo de José Sócrates e que ainda não foi interrogado por se encontrar em Benguela, Angola. Recorde-se que outro suspeito é também primo do primeiro-ministro e está neste momento a residir na China, onde frequenta um curso de artes marciais.
De acordo com o jornal, Bernardo Pinto de Sousa foi referenciado em escutas telefónicas e numa troca de e-mails entre os dois principais suspeitos, Charles Smith e Manuel Pedro. Nesses e-mails, ainda segundo o jornal, uma das entregas de dinheiro terá sido feita por combinação com Bernardo. Existe também uma gravação em DVD de uma conversa, entregue pela polícia britânica, na qual o mesmo nome é referido.
Tudo parece agora suspenso do debate entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite, marcado para o dia 12, na SIC. Claro que o caso Freeport não estará presente, porque a corrupção é um assunto desconfortável para os dois maiores partidos. Pode ser que isso ajude os dois candidatos a primeiro-ministro a concentrarem-se, nos temas mais importantes da governação.
Sérgio Ferreira Borges*,
analista político
(*o autor assina semanalmente a crónica política "Avenida da Liberdade" no jornal CONTACTO)
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Crónica: "Avenida da Liberdade"
Manuela Ferreira Leite apresentou o programa eleitoral do PSD que só não foi desilusão, porque já tinha sido antecipado, como coisa simples e sem novidade. Mas trás uma marca – um estilo em tudo oposto ao exibido, ao longo de quatro anos, por José Sócrates.
Tal como tem vindo a anunciar, a líder do PSD deixa de lado as grandes obras estruturais, por entender que o país não tem saúde financeira, para construir uma rede de TGV, uma terceira ponte sobre o Tejo e um novo aeroporto. Isto, para não falar na terceira auto-estrada, a ligar o Porto e Lisboa, com um traçado mais interior.
Enquanto o PS pensa que estas obras iriam introduzir solvência, na economia, e contribuir para a criação de emprego e a recuperação económica, Manuela Ferreira Leite pensa que tudo isso se pode conseguir de forma mais rápida, ajudando as pequenas e médias empresas, o que significa também uma transferência de dinheiros para as regiões. Mas o programa do PSD não especifica, como será feito esse apoio.
A cerimónia de apresentação do programa contrastou, desde logo, com o que se passou com o PS. Tudo aconteceu em ambiente muito mais discreto, sem a exuberância usada pelo Primeiro-Ministro. Mas Manuela Ferreira Leite, apesar de ter estado, nas últimas semanas, debaixo de um coro de críticas, conseguiu encher a sala do Museu das Comunicações, com uma plateia que contou com muitos ilustres social-democratas. A tanto interesse, não será alheio o facto de as sondagens continuarem a colocar o PSD muito perto do PS, geralmente em situação de empate técnico e, portanto, com reais possibilidades de vitória, a 27 de Setembro.
As empresas de sondagens valorizam o que se vai passar a partir de agora. Até aqui, o país esteve de férias e muita gente se alheou da política que, aliás, tem produzido escasso noticiário. Com o regresso ao trabalho, muita gente vai começar a tomar opções de voto mais firmes. Mas isso não vai reflectir, nas sondagens, tendências muito claras. Os dois maiores partidos vão continuar separados por margens inferiores aos intervalos de confiança, esperando pelos anunciados debates televisivos.
Esses confrontos de opinião – serão 10 no seu total – poderão ser difíceis para Manuela Ferreira Leite, porque o seu programa eleitoral defende medidas absolutamente opostas às que ela tomou quando foi secretária de Estado do Orçamento ou ministra da Educação, nos governos de Cavaco Silva, ou ministra das Finanças, com Durão Barroso. A questão, como se tem visto por estes dias, é apetecível para os opositores que a vão usar, à exaustão. Deverá ainda ser confrontada com o défice público que, no tempo em foi secretária de Estado, superou os 10 por cento.
Uma das medidas mais glosadas pelos comentadores está na aposta no investimento privado, nacional e estrangeiro, que, no entender de Manuela Ferreira Leite, deve substituir aquilo que ela chama de "investimentos públicos faraónicos". Ninguém percebe onde vai a líder social-democrata buscar dinheiro privado para a economia, com o actual cenário de crise. Promete também abolir o pagamento especial por conta dos impostos das empresas, medida que ela própria criou, quando foi ministra das Finanças. Os adversários esperam pelo momento de a confrontarem com estas contradições e outras, como a promessa de valorização do estatuto dos trabalhadores da administração pública, quando foi ela que congelou os salários dos trabalhadores do Estado.
Escondido, no meio das palavras, está a defesa clara do modelo económico neo-liberal, com a consequente desregulamentação. Manuela Ferreira Leite critica o excesso de intervencionismo do Estado actual e promete mais roda livre, para o grande capital financeiro.
José Sócrates anseia pelo confronto com a rival social-democrata, consciente de que ele pode ser decisivo. Os argumentos que ambos – Sócrates e Ferreira Leite – vão esgrimir já são conhecidos, ficando a vitória dependente da habilidade intelectual de cada um, para convencer as audiências. O mais persuasivo será, com toda a certeza, o vencedor. Nas margens deste centrão político, ficam três partidos mais pequenos, PCP, BE e CDS, todos em fase de crescimento, à custa dos descontentes. As eleições podem não ser decisivas, mas vão deixar muita matéria de estudo para a ciência política.
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Sérgio Ferreira Borges,
analista político
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*o autor publica semanalmente a crónica "Avenida da Liberdade", no CONTACTO
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Crónica/Avenida da Liberdade: "Espionagem numa noite de Verão"
Tudo terá começado com a alegada colaboração, prestada por um assessor da Presidência da República, à elaboração do programa de governo do PSD. Dois dirigentes do PS, José Junqueiro e Vitalino Canas, reagiram insinuando que a Presidência da República estava a colaborar com uma força partidária, pondo em causa o princípio de isenção a que está obrigada.
Na réplica, um assessor da Presidência disse que o pessoal da Casa Civil estava a ser vigiado pelo PS ou pelo governo e que tudo não tinha passado de um encontro de amigos entre um assessor de Cavaco Silva e dirigentes do PSD.
José Sócrates foi o último a pronunciar-se, mas foi incapaz de mandar calar o seu pessoal. Considerou o caso um assunto de Verão, insinuando que os jornais se dedicaram ao tema, por manifesta falta de assunto.
O caso levanta algumas questões de solução difícil. Em primeiro lugar, para uma análise cuidada devia conhecer-se, com rigor, o tipo de colaboração que existiu. Por uma razão, qualquer assessor do Presidente da República tem o direito de se encontrar com quem quiser, sendo a conversa de tipo rigorosamente privado, não merecendo, por isso, qualquer comentário. Resta acrescentar que os assessores da Presidência da República podem manter vínculo partidário, ainda que, eticamente, devam abster-se de qualquer actividade partidária.
Donde, uma conversa entre um assessor da Presidência e dirigentes partidários é absolutamente curial.
Pelo contrário, se essa colaboração se revestiu de um carácter mais formal e continuado, tudo muda de figura e o Presidente da República devia ter intervindo, demitindo até o assessor. Mas nada indica que tenha sido este o caso.
A intervenção da Presidência da República em questões partidárias não aconteceu agora pela primeira vez. Quando António Guterres se candidatou à liderança do PS foi recebido pelo então chefe da Casa Civil do Presidente da República, Alfredo Barroso. Os dois foram fotografados à entrada do Palácio de Belém e isso foi visto como um apoio expresso de Mário Soares à candidatura de Guterres, contra Jorge Sampaio. Na altura, o assunto foi comentado em vários tons, mas sem criar uma polémica, como a que agora se verificou.
O aspecto mais grave, desta vez, refere-se à possibilidade, aventada por fontes anónimas de Belém, de o governo e o PS estarem a vigiar os assessores de Belém. Se isso de facto se comprovasse, seria extremamente grave. Seria mesmo necessário apurar quem se ocuparia dessa tarefa. Mas não há indicadores seguros de que isso aconteça. Embora o assunto continue envolto em mistério, os factos devem ser menores e mesmo banais. Alguém terá visto um assessor de Belém em conversa com dirigentes partidários e daí tirou conclusões, provavelmente, precipitadas. Ou decidiu explorar o assunto, no quadro da tensão crescente entre Belém e S. Bento.
A circunstância de tudo isto estar a acontecer em Agosto, mês geralmente parco em notícias, e a proximidade de duas campanhas eleitorais tem multiplicado os seus efeitos. Mas não há dúvida de que está a perturbar as relações difíceis, entre o Presidente da República e o primeiro-ministro.
Cavaco Silva promulgou esta semana, o diploma que mantém, para o próximo ano lectivo, o sistema de avaliação simplificada dos professores. Gorou, com isso, algumas expectativas que esperavam mais um "chumbo" de Cavaco Silva.
Apesar disso, as relações institucionais não melhoraram, tanto mais que o PS continua convencido que o Presidente da República tem a esperança de salvar a sua amiga de sempre, Manuela Ferreira Leite. E a salvação da líder social-democrata passa, inevitavelmente, pela vitória nas eleições legislativas de 27 de Setembro.
E Cavaco Silva parece ser uma das personalidades que acredita na vitória do PSD e na consequente saída de cena de José Sócrates. Por isso, já não teme o confronto, sabendo que, dentro de algumas semanas, terá, em nome do PS, um outro interlocutor, com quem então evitará todo o tipo de conflitos, de modo a não sofrer desgaste político e assim não prejudicar as suas possibilidades de reeleição, em 2011.
Sérgio Ferreira Borges
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Crónica: "Vê-se o fumo, falta o fogo!"
O Bloco de Esquerda animou a actualidade política do último fim-de-semana, ao acusar José Sócrates da prática de tráfico de influências, usando para isso o aparelho de Estado.
De acordo com Francisco Louçã, tudo terá começado com um convite do primeiro-ministro à militante e antiga deputada do Bloco de Esquerda para integrar as listas do PS, em segundo lugar, pelo círculo de Coimbra. Joana Amaral Dias terá recusado e, na recarga, Sócrates ter-lhe-á prometido um lugar na direcção de um instituto público da área da saúde, em troca do apoio de Joana Amaral Dias à lista do PS. Este segundo convite terá sido também recusado.
José Sócrates negou os dois episódios, mas Louçã manteve a acusação. Para a opinião pública, "este mato deve ter algum coelho", porque Joana Amaral Dias, além de nascida em Coimbra, provém de uma família de prestígio na cidade. Os pais são médicos conhecidos e o avó era o catedrático da Faculdade de Medicina Nunes Vicente, apelidado por muitos sectores como o fundador da psiquiatria portuguesa.
Já se percebeu que o assunto comporta algum melindre para os socialistas que pretendem silenciá-lo. Pelo contrário, o Bloco de Esquerda está a usá-lo como arma de campanha e é bem possível que a líder do PSD, no regresso à actividade, venha também falar no assunto.
Manuel Ferreira Leite cancelou todos os compromissos, desde sexta-feira, por se encontrar retida em casa, com gripe. Mas muita gente duvida da desculpa, que parece forjada para evitar Alberto João Jardim, por dois motivos, qual deles o mais incómodo. A líder estava convidada para participar na festa anual do PSD/Madeira e, se fosse à ilha, seria com toda a certeza confrontada com o desejo expresso, há dias, por Alberto João Jardim, para que, no futuro, a Constituição da República proibisse o comunismo.
Mas há um segundo factor de desconforto que os jornalistas não deixariam passar em claro. Há um ano, o irrequieto Alberto João Jardim não convidou a líder do partido para esta festa, argumentando que Manuela Ferreira Leite seria incapaz de ganhar umas eleições. Por essa incapacidade, não seria convidada. Este ano, mudou de ideias, mas a presidente do partido, afectada por uma gripe, preferiu ficar em casa.
O Presidente da República, de visita à Áustria, voltou a falar da possibilidade de um futuro governo PS/PSD, facto que desencadeou muitas críticas em círculos partidários e entre os analistas. Desde logo porque, ao admitir a possibilidade de um novo bloco central, Cavaco Silva está implicitamente a reconhecer que o partido vencedor das próximas eleições não terá maioria absoluta. Tratando-se de um sentimento geral, a verdade é que o Presidente da República não deve deixar escapar os seus vaticínios, sob pena de vir a ser acusado de estar a pressionar o eleitorado.
Curioso é também o facto de a investigação ao caso do Banco Português de Negócios estar a produzir noticiário abundante que ainda não foi tema da campanha eleitoral. Depois de Dias Loureiro e Oliveira e Costa, outra figura do cavaquismo, o antigo ministro da Saúde, Arlindo de Carvalho, foi constituído arguido. A Polícia Judiciária está interessada em apurar a origem da fortuna que construiu, ele que começou a sua vida como técnico de som da Emissora Nacional, licenciando-se já em idade madura, como trabalhador-estudante.
Ao fim de oito meses de prisão preventiva, Oliveira e Costa foi colocado em prisão domiciliária, com pulseira electrónica. De acordo com relatos da imprensa, foram colocados em sua casa alguns equipamentos de detecção para lhe controlar os movimentos. Esta medida de benevolência está a ser interpretada como o largar de uma batata quente, porque as investigações têm apurado responsabilidades de outras pessoas semelhantes às que são imputadas a Oliveira e Costa. Logo, se fossem todos avaliados pela mesma bitola, mais gente iria parar à prisão.
Sérgio Ferreira Borges,
analista político
(o autor publica semanalmente a coluna de política "Avenida da Liberdade" no CONTACTO)
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