A Rádio Amizade foi para o ar pela última
vez no sábado, 31 de Dezembro. A emitir desde Novembro de 1992, a
direccção da rádio portuguesa decidiu cessar a actividade devido a
constrangimentos orçamentais, falta de pessoal e ao cansaço dos membros
da direcção.
"Decidimos
fechar a rádio há cerca de seis meses. Perguntávamo-nos se a rádio ainda
fazia falta à comunidade portuguesa e infelizmente chegámos à conclusão
que não, que não faz falta", diz Frederic Correia,
director de antena da Rádio Amizade desde 1993, sobre a decisão de
encerrar a estação.
A Rádio Amizade foi para o ar pela última
vez no sábado, 31 de Dezembro, e emitiu entre as 7h e as 9h e as 17h e
as 20h, desde os estúdios para onde se mudou há cerca de dois anos em
Schifflange. A falta de pessoal, os constrangimentos orçamentais e o
cansaço dos membros da direcção levaram à tomada de decisão.
Num comunicado oficial, a direcção afirma que "os mais jovens não estão
motivados para assumir a direcção de uma associação como a rádio, e a
actual [direcção] também considera que os motivos iniciais estão de
certo modo ultrapassados pela evolução" dos media.
A rádio
emitiu a sua primeira emissão em 29 de Novembro de 1992, um domingo,
desde os seus primeiros estúdios, situados no Centro Cultural Português,
na rue des Boers, em Esch/Alzette. Em 1997 mudou-se para a rue du
Canal, e em 2003 para a rue de l'Eau, sempre em Esch. Há cerca de dois
anos, devido a dificuldades financeiras em pagar o aluguer em Esch,
mudou-se para Schifflange, num prédio onde partilhou a renda com a Radio
Gudd Laun (RGL). Fundada por Armindo Pereira, Manuel da Cunha e Manuel
Soares, a Rádio Amizade partilhava inicialmente a emissão na frequência
106 FM (chamada a "Frequência Entente") com outras três rádios: RGL,
Radio Schifflange e Radio Classique de Bergem. Começou por ter três
horas diárias, mas desde 1997 emitia durante 54 horas semanais.
"Se olharmos de fora, nunca fomos uma rádio portuguesa, emitíamos umas
horas em português. A diferença em relação a outras rádios com a emissão
partilhada é que sempre tivemos instalações próprias", conta o director
de antena da Rádio Amizade, que começou naquela emissora aos 15 anos e
hoje tem 33.
Dos tempos de ouro da Rádio Amizade, que para
Frederic Correia foram "os primeiros dois,
três anos", em que a estação "chegou a ter 25 colaboradores", a Rádio
Amizade foi perdendo terreno: "Em 1994 ou 1995, se a memória não me
falha, a RTP Internacional começou a chegar a cada vez mais portugueses e
sentimos um pequeno impacto. Depois veio a transmissão por satélite,
também havia a Rádio Latina [
que começou a emitir a 5 de Outubro de
1992, n.d.R. ], e aí sim, sentimos a concorrência", recorda
Frederic Correia.
"Atingimos um
grande nível de saturação. Comuniquei ao Armindo [
n.d.R.: Armindo
Pereira, presidente da rádio ] que apresentava a minha demissão em
Dezembro de 2011 e pedi-lhe para decidir se a rádio continuava activa",
conta o director de antena. "Éramos 20, depois 18 e por aí fora, até que
um dia me apercebi que isto estava complicado porque me vi sozinho.”
"Sendo uma associação sem fins lucrativos [asbl], o plafond
financeiro imposto por lei por este estatuto também nunca chegou para
que a rádio pudesse ter meios financeiros suficientes para se
desenvolver, investir em mais material técnico e locutores", desabafa um
dos membros da direcção.
"Havia ouvintes que traziam croissants"
Quando
lhe perguntamos quais foram os tempos aúreos da Rádio Amizade, Frederic Correia não hesita em responder que "foram os
dois, três primeiros anos".
Nos pergaminhos da Amizade fica o
registo que foi a primeira rádio portuguesa do Luxemburgo a emitir em
streaming e
online os seus programas a partir de 2003,
com direito a inauguração na presença do então cônsul português Miguel
Faria de Carvalho. Foi igualmente a fundadora, com o Rancho Províncias
de Portugal, das famosas Marchas de São João, em 1993, que ainda hoje
têm lugar anualmente em Esch, e às quais acorrem milhares de pessoas. A
rádio chegou igualmente a organizar um torneio de futebol, o
FootAmizade, entre 2000 e 2006, e excursões aos quatro cantos da Europa,
projectos que foram sempre muito acarinhados pelos ouvintes.
"Sei de histórias como a de animadores que faziam emissões durante o dia
e pediam aos ouvintes para levarem croissants e as pessoas faziam-no!",
conta Frederic Correia entre gargalhadas.
"Obviamente que isso agora não existe. Hoje em dia nem que se
ofereça um automóvel, as pessoas fazem o mesmo! Na altura havia um
grande envolvimento", tanto dos locutores como dos ouvintes, conclui o
director de antena da Rádio Amizade.
Um envolvimento que se
foi degradando com o passar dos anos. Sozinhos, a manter a rádio a
trabalhar, ficaram Frederic e Armindo Pereira. "O Armindo reformou-se há
uns 5, 6 anos e começou a ter mais tempo para a rádio. Éramos só nós os
dois a olhar para as máquinas", recorda.
"Hoje talvez
arranjasse animadores para a rádio mas seriam sempre pessoas para quem a
rádio se faz se não tiverem que lavar o cabelo!", remata Frederic Correia, entre um sorriso irónico e uma
gargalhada.
Texto e foto:
Irina Ferreira