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terça-feira, 27 de julho de 2010

Portugal: Mulher de Saramago quer ser portuguesa e mudar-se para Lisboa

A jornalista espanhola Pilar del Rio, mulher do escritor José Saramago, pediu a nacionalidade portuguesa e espera mudar-se para Portugal depois do Verão, revelou a viúva do escritor segunda-feira à agência Lusa.

Pilar del Rio explicou à Lusa que requereu a nacionalidade há cerca de duas semanas e que tenciona mudar-se para Lisboa em Setembro, uma decisão que tinha sido bastas vezes conversada com José Saramago.

O Nobel da Literatura, que viveu desde os anos 1990 em Lanzarote, Espanha, morreu a 18 de Junho, aos 87 anos.

Quanto à casa que deixará em Lanzarote, assim como os objectos pessoais de Saramago, Pilar referiu que nada está ainda decidido quanto ao seu destino, mas a jornalista não descartou a hipótese da Casa dos Bicos, que vai ser a sede da Fundação Saramago, em Lisboa, acolher parte do espólio. É a essa mesma fundação que Pilar se quer dedicar no futuro, esperando que esteja "aberta à comunidade", como Saramago assim o desejou, em 2011.

Sobre a colocação das cinzas de Saramago perto da fundação, Pilar explicou que aguarda ainda autorização da parte da Câmara Municipal de Lisboa. As cinzas do escritor serão enterradas junto a uma oliveira que vai ser transplantada da terra natal de José Saramago, na Azinhaga do Ribatejo, para a frente da sede da instituição.

domingo, 20 de junho de 2010

Adeus Saramago: Cavaco Silva garante que cumpriu obrigações de Chefe de Estado

O Presidente da República desvalorizou hoje “alguma polémica estéril” gerada em torno da sua atuação em relação à morte de José Saramago, garantindo ter feito o que lhe competia como chefe de Estado.

Em declarações aos jornalistas na ilha de S. Miguel, onde hoje termina quatro dias de férias, Cavaco Silva sublinhou que aquilo que o chefe de Estado deve fazer é “diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos ou deve ser feito pelos conhecidos”.

“O que um chefe de Estado deve fazer é diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos ou deve ser feito pelos conhecidos. Devo dizer que nunca tive o privilégio na minha vida, se me recordo, de alguma vez conhecer ou encontrar José Saramago”, declarou o Presidente da República.

Cavaco Silva referiu que na sua qualidade de chefe de Estado emitiu uma “uma nota oficial prestando homenagem à obra literária de José Saramago e ao seu contributo para a projeção da cultura portuguesa no Mundo”, enviou uma coroa de flores e promulgou o decreto de declaração de dois dias de luto nacional.

“Hoje de manhã o meu chefe da Casa Civil e o meu chefe da Casa Militar apresentaram sentidas condolências aos familiares de José Saramago”, acrescentou.

Interrogado sobre se os restos mortais do Nobel Português devem ir para o Panteão Nacional, disse tratar-se de uma matéria da competência da Assembleia da República.

Recordou ter sido o Parlamento que decidiu a recente trasladação para o Panteão dos restos mortais de Aquilino Ribeiro, o que aconteceu décadas depois da sua morte.

O Presidente da República justificou ainda a sua permanência de férias em S. Miguel, apesar da morte de Saramago, com a importância que para ele tem a palavra dada.

“Todos os portugueses sabem que desde quinta feira à noite estou nos Açores, em S. Miguel, cumprindo uma promessa que fiz há muito tempo a toda a minha família, filhos e netos, de lhes mostrar as belezas desta região”, declarou.

Cavaco Silva recordou, também, o seu apelo recente para que os portugueses “não deixem de conhecer a riqueza paisagística, a riqueza cultural e histórica do nosso país até antes de conhecerem outras partes do mundo e os Açores tal como a Madeira têm algo que não deve deixar se ser conhecido”.

“Eu quis que desde o neto de mais tenra idade à neta mais com mais anos e os filhos também tivessem oportunidade”, acrescentou.

Adeus Saramago: Louçã apela ao Presidente da República para esquecer "mesquinhez do passado" e estar no funeral

O líder do Bloco de Esquerda (BE), Francisco Louçã, apelou hoje ao Presidente da República, Cavaco Silva, para que se faça representar no funeral de José Saramago, esquecendo a “perseguição política” contra o escritor protagonizada por um Governo seu.

Num jantar comício realizado hoje em Portimão, Louçã considerou que Saramago “foi um homem de convicções e de literatura”, que fez dele uma referência cultural “universal”, e, por isso, o chefe de Estado deve deixar para trás o passado e estar nas cerimónias fúnebres.

“Houve um Governo de Cavaco Silva e um secretário de Estado cujo nome o país não recorda que atacou a sua obra por perseguição política, e nessa altura, (Saramago) escolheu viver em Lanzarote (Espanha), mantendo as suas pontes com Portugal”, lembrou Louça.

O líder do Bloco afirmou que, “passado esse passado, o presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, não deve deixar nenhuma névoa que permita qualquer confusão com aquilo que foi a mesquinhez de atitudes do passado”, quando o seu Governo censurou um dos livros do prémio Nobel, o Evangelho Segundo Jesus Cristo.

“É preciso generosidade e o reconhecimento de que José Saramago, por cima de todas as diferenças, é uma figura para a cultura nacional, europeia e universal e por isso deve ser respeitado e homenageado no dia do seu enterro, em que nos despedimos dele, que é o dia amanhã (domingo)”, acrescentou Francisco Louça.

O líder do BE disse não querer crer que “a névoa do passado possa ainda marcar a posição de qualquer responsável político”, apesar do “percurso que foi a luta de José Saramago pelas suas convicções e pela literatura” que deixou.

“Por isso deixo aqui um apelo ao Presidente da República para que faça sentir a sua presença no respeito que o último dia de José Saramago merece entre nós e em que nós todos lá nos sentiremos representados”, apelou Louçã, sublinhando a importância literária e política do escritor.

Na segunda parte do seu discurso, o dirigente do Bloco de Esquerda criticou “as políticas de austeridade do Bloco Central”, considerando que têm por objetivo “acabar com os direitos sociais, promover o desemprego e atacar os mais pobres e desfavorecidos”.

Louça prometeu que o Bloco será “mais partido” e terá “mais organização” como forma de cativar mais pessoas para a luta contra as políticas de austeridade, cujas consequências são “o aumento de impostos e do desemprego”.

“Este verão, todos os dias de julho e agosto, o Bloco vai realizar comícios por todo o Portugal para puxar pessoas para esta luta”, afirmou o dirigente, criticando ainda o seguimento por parte dos governos europeus, nomeadamente o de José Sócrates, “das políticas decretadas pela (chanceler alemã Ângela) Merkl e por (Nicolas) Sarkozy”, presidente francês.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago 1922-2010

Saramago foi Prémio Nobel da Literarura em 1998

O prémio Nobel da Literatura português, José Saramago, morreu hoje aos 87 anos na Ilha de Lanzarote, em Espanha.

A Fundação José Saramago confirmou em comunicado que o escritor morreu às 12h30 na sua residência de Lanzarote "em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila".

domingo, 1 de novembro de 2009

Portugal: Saramago está a escrever novo livro sobre ausência de greves em fábricas de armas

O escritor José Saramago revelou sexta-feira que já está a escrever um novo romance, que tem como ponto de partida a seguinte pergunta: “Porque é que nunca houve uma greve numa fábrica de armas?”.

O Prémio Nobel da Literatura 1998 falava na sessão de apresentação do seu mais recente romance, “Caim” na Culturgest, em Lisboa.

“Todos aqueles que me conhecem bem sabem que sempre me tenho interrogado: porque é que nunca houve uma greve numa fábrica de armas? Nunca… Serão aqueles operários menos conscientes?”, inquiriu.

Procurou durante algum tempo, sem êxito, um episódio que pensava ter lido em “L’Espoir”, de Malraux, ou em “Por Quem os Sinos Dobram”, de Hemingway, passado na Guerra Civil de Espanha, sobre “um morteiro que não rebentou e que tinha um papel dentro, escrito, em português, que dizia: ‘Esta bomba não rebentará’”.

É esse o impulso inicial da história do seu próximo livro: “que uma classe operária tão capaz de lutas não tenha conseguido entrar nos portões de uma fábrica de armas”.

“Faz-se o que se pode contra a droga, faz-se o que se pode contra a gripe A… e o que é que se faz contra o comércio de armas? Nada”, observou.

Saramago admitiu que gostaria de ter escrito “um livro a que pudesse chamar ‘O Livro do Desassossego’ mas já está, o Fernando Pessoa antecipou-se”.

Mas – prosseguiu – “o meu desassossego não é exactamente o dele: como eu não vivo desassossegado, quero desassossegar”.

Depois, citou um verso de Camões, que diz “Estavas linda, Inês, posta em sossego” e interrogou-se: “O que é isso de ‘posta em sossego’? Quer dizer, cortaram-lhe o pescoço, ficou ‘posta em sossego’!” - a plateia deu gargalhadas e aplaudiu de pé, novamente.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Portugal/Literatura: Saramago escolheu Caim, a Bíblia prefere Abel

O director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa comentou segunda-feira que “seria espantoso” que José Saramago encontrasse algo divino na Bíblia e sublinhou que o escritor escolheu o fratricida Caim e não Abel, a vítima.

“Seria espantoso que um escritor como José Saramago, ateu professo, encontrasse algo de divino na Bíblia ou no Corão. Mas esperar-se-ia que reconhecesse, abertamente, o valor de obras que estão entre os grandes textos do património literário da humanidade”, comentou à Lusa o padre Peter Stilwell.

O teólogo e responsável pelo Departamento das Relações Ecuménicas no Patriarcado de Lisboa reagia às declarações de José Saramago sobre a Bíblia a propósito do lançamento de “Caim”, último livro do Nobel português da Literatura.

Saramago afirmara em entrevista à Lusa que "a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana", acrescentando que não existe nada de divino na Bíblia nem no Corão.

“Se a ideologia não o permite [reconhecer o valor literário daquelas obras], pelo menos na prática, acaba por reconhecê-lo, ao elegê-los como alvo privilegiado do seu combate”, acrescentou.

O padre Peter Stilwell considerou ainda “curioso” que Saramago tenha confessado, “com a maior candura, o fascínio que nele exerceu a narrativa bíblica do fratricida Caim”, isto depois de ter disparado “uma salva defensiva contra tudo quanto seja religião”.

“Porque prefere a Bíblia a vítima, Abel?”, interrogou.


Escrever "Caim" foi "um exercício de liberdade", diz Saramago

José Saramago afirmou já por diversas vezes que escrever "Caim" foi para si "um exercício de liberdade".

"Não é que este livro seja mal comportado, mas é, sem dúvida uma insurreição, um apelo a que todos se animem a procurar ver o que está do outro lado das coisas", disse.

O Prémio Nobel da Literatura de 1998, com 86 anos, regressa neste seu último livro à questão religiosa, contando, em tom irónico e jocoso, a história de Caim.

Segundo o Velho Testamento, Caim terá sido o filho primogénito de Adão e Eva, que matou Abel, seu irmão mais novo, num acesso de ciúmes, após verificar que Deus mostrara preferência por este.

"Nada disto existiu, está claro, são mitos inventados pelos homens, tal como Deus é uma criação dos homens. Eu limito-me a levantar as pedras e a mostrar esta realidade escondida atrás delas", afirma o escritor.

Saramago invectiva Bíblia e Corão


"A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!", afirma Saramago, para quem não existe nada de divino na Bíblia, nem no Corão.

"O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!" afirmou.

Saramago sublinhou que "as guerras de religião estão na História, sabemos a tragédia que foram".

Considerou que as Cruzadas são um crime do Cristianismo, morreram milhares e milhares de pessoas, culpados e inocentes, ao abrigo da palavra de ordem "Deus o quer", tal como acontece hoje com a Jihad (Guerra Santa).

Saramago lamenta que todo esse "horror" tenha feito em nome de "um Deus que não existe, nunca ninguém o viu".

"O teólogo Hans Kung disse sobre isto uma frase que considero definitiva, que as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros. Só isto basta para acabar com isso de Deus", afirmou.

Salientou ainda que "no Catolicismo os pecados são castigados com o Inferno eterno. Isto é completamente idiota!".

"Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos. Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer", disse.

"Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?", perguntou.

Para José Saramago, "Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca".

sábado, 29 de agosto de 2009

Portugal: Deus é uma das personagens principais de novo romance de Saramago

O novo romance de José Saramago chama-se "Caim" e tem como personagens principais aquela figura bíblica, Deus e a Humanidade "nas suas diferentes expressões", segundo a descrição de Pilar del Río no blogue do Nobel da Literatura.

"Saramago escreveu outro livro", anuncia a mulher do escritor e presidente da Fundação José Saramago num texto colocado no blogue "O Caderno de Saramago", recordando que surge um ano depois do lançamento do anterior, "A Viagem do Elefante".

A nova obra literária "não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra", descreve Pilar del Río.

Assinala ainda que em "Caim", tal como nos anteriores livros - e dá o exemplo de "O Evangelho segundo Jesus Cristo" - "o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável".

Esse objecto de análise no romance é "a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos - ou talvez seria melhor dizer para exigir a outros - uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus", aponta.

Em 1991, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" causou acesa polémica em Portugal, e viria a ser vetado pelo governo à época para concorrer ao Prémio Europeu de Literatura, iniciativa que pesou na decisão do escritor para abandonar o país e passar a residir em Lanzarote, Espanha.

Pilar del Río sublinha ainda no blogue: "com a cabeça alta, que é como há que enfrentar o poder, sem medos nem respeitos excessivos, José Saramago escreveu um livro que não nos vai deixar indiferentes, que provocará nos leitores desconcerto e talvez alguma angústia, porém, amigos, a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia".

"Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar: aposto que quando o terminardes, quando fizerdes o gesto de o fechar sobre os joelhos, olhareis o infinito, ou cada qual o seu próprio interior, soltareis um uff que vos sairá da alma, e então uma boa reflexão pessoal começará, a que mais tarde se seguirão conversas, discussões, posicionamentos", escreve ainda a presidente da Fundação Saramago no texto.

Quase a concluir, Pilar del Río classifica o romance de José Saramago, 86 anos, como "literatura em estado puro".

Filho primogénito de Adão e Eva segundo o Antigo Testamento da Bíblia, Caim sentiu ciúmes por Deus ter preferido as ofertas feitas pelo irmão mais novo, Abel, e matou-o, cometendo o primeiro homicídio na história da Humanidade.

"Caim" vai ser lançado em Outubro pela Editorial Caminho na Feira do Livro de Frankfurt e no final do mês estará à venda nas livrarias em Portugal, Espanha e América Latina.