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quinta-feira, 7 de julho de 2011

OPINIÃO / "Passos apressados!"

As dúvidas eram poucas, mas permitiam alimentar alguma esperança. Mas agora, já há a certeza absoluta que o Natal dos portugueses está estragado, com o corte de 50 %, no 13o mês, deixando as famílias em desespero e o comércio a fazer contas de cabeça para perceber em que data vai colocar na montra o fatídico letreiro, "Liquidação Total".

O próprio governo tem noção do efeito altamente recessivo que esta medida terá na economia portuguesa. Victor Gaspar, ministro das Finanças, terá dito aos seus pares que ao fim de 37 meses, segundo os seus cálculos, a economia reanimaria. Pela minha parte, pergunto se, daqui a 37 meses, ainda haverá economia que resista.

Pedro Passos Coelho conta para já com o apoio dos comentadores mais conectados com a direita que defendem para Portugal um "choque liberal" que venha estimular o empreendedorismo. Eu pergunto se o "choque liberal" de José Sócrates já não foi suficiente para provar que essa não é a solução?

A 15 de Setembro de 2008, o mundo viu-se mergulhado na mais catastrófica crise financeira, com óbvios reflexos na economia. O neoliberalismo tinha falido e tinha levado toda a economia também à falência. A desgraça espalhou-se e só uma parte da Ásia e da América do Sul escaparam.

Pensava-se então que, após este desastre, as teorias de Milton Friedman e Allan Greenspear dariam lugar à moderação e a uma regulação dos mercados financeiros que evitasse nova hecatombe. Mas não, o neoliberalismo mantém-se tranquilamente a reunir condições para nova crise, mesmo depois dos avisos deixados por eloquentes economias como Paul Krugman e Joseph Stiglitz ambos Prémio Nobel da Economia ou ainda por Jacques Attali, tido como o fundador do pensamento económico liberal de Charles De Gaulle.

Em Portugal, o entusiasmo neoliberal está de regresso. Já se enganaram com José Sócrates, agora querem enganar-se com Pedro Passos Coelho e com o conjunto de ministros que se afirmam simpatizantes dessa escola. Parece até existir um concurso, para se apurar quem é o mais neoliberal dos membros do novo governo. Repito a metáfora que já aqui usei: quando há um incêndio, devia chamar-se os bombeiros e não os incendiários. Aqueles e as ideias que fizeram esta crise não têm soluções para ela. São o problema, não são a solução.

E até as promessas falhadas pelo primeiro-ministro, já são justificadas com a agilidade de que um poder neoliberal necessita. Vejamos: desde Abril que Passos Coelho tem dito e redito que a confiscação do subsídio de Natal era um "disparate" ou uma "crassa asneira" – as duas expressões são dele. Mal se apanhou no governo e com a desculpa de que a execução orçamental tinha entrado em derrapagem, adoptou essa medida que, jura ele, será temporária.

Também disse que jamais justificaria as suas medidas, com a herança socialista. Mas, no debate do programa de governo já o fez, no que foi copiado pelo ministro das Finanças. As poucas informações que têm saído do gabinete de Victor Gaspar trazem sempre, como pressuposto de partida, o mau estado em que o PS e José Sócrates deixaram as finanças e a economia.

Mas o governo tem a tarefa facilitada. Está a agir, praticamente, sem oposição. O PCP está igual a si próprio, marcou para este mês uma jornada de luta que não vai incomodar ninguém, porque cai em cima de um período de férias. Depois, comete o erro enorme de retirar espaço de manobra aos sindicatos, sobretudo à CGTP. O Bloco de Esquerda parece atravessar um processo de dissolvência, depois da derrota de 5 de Junho. E o PS, decapitado desde essa data, procura uma nova liderança. Na corrida estão dois candidatos que coincidem num ponto: nenhum deles agrada a ninguém. E a questão foi levantada com mestria por Mário Soares ao dizer que "não apoia nenhum, porque é amigo dos dois". Quem conhece Soares sabe o que isto quer dizer: não apoia nenhum, porque não acha nenhum com competência para liderar o partido que ele fundou. Já deu sinais inequívocos de preferir, apesar de tudo, António José Seguro, porque é o candidato que rompe com o socratismo e promete devolver o PS à esquerda. Pelo contrário, Francisco Assis apresenta-se como o candidato da continuidade e, por isso, os seus principais apoios vêm do núcleo duro de José Sócrates.

Seja qual for o vencedor, pode ser um líder a prazo, até que alguém convença, por exemplo, Eduardo Ferro Rodrigues a regressar à liderança do partido.

Sérgio Ferreira Borges,
analista político

sábado, 23 de abril de 2011

Opinião: O princípio do fim do YouTube

A Rede Social conta a história, ou uma possível história, das origens do Facebook. Mas há outro sítio internet com origens romanceadas e um impacto social tremendo conseguido em apenas seis anos: o YouTube supostamente começou quando dois amigos de São Francisco fizeram um jantar em casa de um deles e queriam mostrar a um céptico terceiro amigo vídeos dessa festa. O resto é conhecido de nós todos que somos utilizadores, ainda que casuais, da internet: é difícil passar um dia sem dar de caras com pelo menos um vídeo alojado nos servidores da empresa da Califórnia – uma das mais lucrativas do mundo, e provavelmente também uma das mais poderosas. Um nome que será dentro de poucas décadas mais conhecido que a Coca-Cola ou os Beatles. Certo? Errado.

Os futurologistas (atenção: isto é profissão com muito futuro) que têm a audácia de se debruçar sobre como vai ser o panorama das tecnologias de informação daqui a 30 anos são unânimes em afirmá-lo: as maiores empresas tecnológicas dessa altura ainda nem sequer nasceram hoje, tal é o dinamismo do mercado. Tal aprendeu a Netscape, que em 1997 detinha com o seu Navigator 80 % do mercado mundial de browsers e cinco anos depois tinha virtualmente desaparecido... As actuais dominadoras têm poucas probabilidades de manter o seu estatuto de quase-monopólio por mais de alguns anos; por outras palavras, quase ninguém aposta que nomes como Google, Apple, Facebook ou Twitter tenham a relevância de que gozam agora nestes seus "15 minutos" de fama. O YouTube, então, está à bica para cair de maduro: com o seu visual datadíssimo, as suas regras por vezes arbitrárias (como suspender utilizadores sem aviso ou não os deixar recuperar a sua conta), a baixa qualidade – tanto técnica como conceptual – da esmagadora maioria dos seus vídeos e as batalhas legais em que se tem visto envolvida, a "velha senhora" dos vídeos pela internet pode já ter passado o seu apogeu. Até porque basta uma pequena pesquisa para descobrir concorrentes mais pequenos que são bem melhores a alojar vídeos: desde o Vimeo privilegiado por Obama até ao excelente Exposure Room, o meu favorito.

O próprio YouTube decidiu esta semana dar uma enorme machadada no seu interesse ao criar um sistema que elimina as contas dos utilizadores ao terceiro vídeo que eles coloquem em linha que "infrinja direitos de autor". Isto é: quase todos, com jeitinho. Desde imagens de futebol a videoclips de música, de sátiras a filmes ou vedetas até à utilização de uma música romântica como fundo para o filme do casamento, são poucos os que não cabem nessa categoria. E os que até o fazem (exemplos aleatórios retirados da página inicial do sítio: "Assaltando a geladeira" ou "Renove o seu guarda-roupa") podem divertir uma ou outra vez, mas não são a base para um fenómeno social. Sejamos mais claros: ninguém vai voltar ao sítio só para ver material deste estilo, nem os jornais e blogues vão embeber estes vídeos nas suas próprias páginas.

A ideia de base para este tipo de medidas é sempre a mesma: a suposta "luta anti-pirataria". A ganância das multinacionais dos "conteúdos artísticos" (eufemismo para quem prospera com a criatividade alheia) ainda não lhes permitiu ver para além da nuvem: a popularidade é o que interessa, o dinheiro só vem depois. A repressão online, essa, só vai apressar o início do fim.

Hugo Guedes

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Opinião: Passos Coelho une Partido Socialista

Como se previa, o congresso do Partido Socialista foi transformado num gigantesco comício de lançamento da campanha eleitoral, para as legislativas de 5 de Junho. José Sócrates tinha sido reeleito secretário-geral com uma votação superior a 90 por cento e seria de todo improvável que qualquer outra das moções de estratégia lhe fizesse o mais leve estorvo.

Com estas questões resolvidas, a reunião de Matosinhos estava destinada à grande encenação que projectasse o PS para uma campanha eleitoral que vai ser dura e, como já afirmei noutras alturas, não resolverá nenhum problema do país, independentemente dos seus próprios resultados. Mas, Sócrates conseguiu transmitir uma imagem ao país de força e de unidade, juntando à sua volta muitos dos que o criticaram, ao longo dos últimos anos. Os casos mais notórios foram os de Manuel Alegre e Eduardo Ferro Rodrigues. No primeiro, só o facto de ele ter ido a um congresso já foi relevante, porque isso não acontecia desde 2005 e, nessa altura, foi pela estrita obrigação de ser ele próprio também candidato à liderança. O caso de Ferro Rodrigues é diferente. Ele vai regressar de Paris, onde tem sido embaixador de Portugal na OCDE, para agora encabeçar a lista socialista por Lisboa, o mais importante círculo eleitoral do país. Trata-se de um homem competentíssimo, economista de formação, que já liderou o partido em condições de extrema dificuldade e que conseguiu recuperá-lo nas sondagens, acabando por perder as eleições legislativas, pela margem mínima, para Durão Barroso. É quase certo que se a campanha tivesse durado mais uma semana, Ferro Rodrigues teria vencido.

E porquê esta unidade, quando dias antes o cepticismo interno em relação a Sócrates era enorme? Essa desconfiança mantém-se, ninguém acredita que Sócrates possa ser a solução do problema. Mas acredita-se menos ainda que Passos Coelho possa fazer alguma coisa, que tenha alguma ideia para retirar Portugal do atoleiro em que está metido. E sobretudo, as figuras que se escondem atrás de Passos Coelho causam ainda mais insegurança aos portugueses, como são os casos dos ultraliberais Nogueira Leite ou António Carrapatoso. Portanto, é fácil concluir que Passos Coelho contribuiu mais para a unidade do PS que o próprio José Sócrates. O que se viu este fim-de-semana, em Matosinhos, foi uma unidade anti-neoliberal. E bastará para isso ouvir o discurso de Eduardo Ferro Rodrigues, um homem que conhece os meandros da economia internacional como poucos.

A resposta do PSD, de certo modo esperada, foi o anúncio da candidatura à Assembleia da República de Fernando Nobre, ex-candidato à Presidência da República. E o PSD promete ainda, em caso de vitória eleitoral, levar Nobre à presidência da Assembleia da República. Isto demonstra muita irresponsabilidade política, porque os barões do PSD não vão admitir facilmente que um homem que, nem sequer é militante, ocupe o lugar que, por via de regra, estaria destinado a um deles. Além disso, a inexperiência política de Fernando Nobre não o recomenda para tais funções. Como se viu na recente campanha, tem um discurso politicamente vácuo, trouxe para a campanha apenas o chavão da "cidadania" que nunca conseguiu explicar a ninguém.

Se este homem for colocado no segundo lugar da hierarquia do Estado, Portugal fica com o grave problema de ter, no topo, duas figuras sem bagagem, o que é grave.

As reacções foram imediatas e basta ver as redes sociais para se perceber que Fernando Nobre não vai acrescentar ao PSD os votos de esquerda que conseguiu na campanha presidencial. Ele teve 14 por cento dos sufrágios, mas trata-se de uma quota eleitoral que hoje está desfeita.

Mais surpreendente foi a notícia de que o padre franciscano Victor Melícias, na sua qualidade de membro do Conselho Económico e Social, declarou ao Tribunal Constitucional uma pensão mensal de 7.450 euros, o que, na antiga moeda, ronda os 1.500 contos. Trata-se de um homem que fez voto de pobreza, que vive num convento, portanto, existe em tudo isto uma aparente e flagrante incongruência, tanto mais que Victor Melícias conhece as dificuldades financeiras do sistema.

Espera-se a todo o momento um esclarecimento do próprio que eu acho que ele vai dar, mas que não aconteceu até à hora a que escrevo. Mas eu quero continuar a pensar de Victor Melícias o que sempre pensei.

Sérgio Ferreira Borges

quinta-feira, 17 de março de 2011

Opinião: O Zé Povinho nos castelos burgueses?

No dia 9 de Março participei num debate sobre política comunal. Entre o ministro do Interior, Jean-Marie Halsdorf (CSV), Claude Meisch (DP), burgomestre de Differdange, Marc Baum (Déi Lénk), conselheiro comunal de Esch/Alzette, Camille Gira (Déi Greng), burgomestre de Beckerich, e Laura Zuccoli, presidente da ASTI, estava eu, jovem mulher estrangeira a debater sobre a representatividade dos conselhos comunais. Será que estão exclusivamente reservados a uma elite de senhores luxemburgueses de uma certa idade e oriundos da classe social privilegiada dos funcionários públicos? Tal foi a pergunta à qual tentamos responder.

As estatísticas (quase) nunca mentem e mostram claramente a falta de mulheres, jovens e estrangeiros na vida política. Os partidos não têm a mesma resposta quanto à solução. Uns querem quotas, outros preferem que sejam os partidos a dar o exemplo. Se os métodos são diferentes, o objectivo é o mesmo: incentivar a participação política das mulheres, dos jovens, dos estrangeiros e dos trabalhadores. Fomos tentando perceber porque é que essas subcategorias continuam à margem da política deste país.

As mulheres são pouco incentivadas a participar, talvez pela difícil conciliação da vida privada e profissional, muitas porque não se sentem capazes quando afinal são elas que acompanham de perto o percurso e a educação dos filhos na escola e que, muitas vezes, são responsáveis pelo orçamento familiar.

Os jovens, que não deixam de ser a geração que mais tem a perder com esta crise, também têm dificuldades em mobilizar-se e unir-se em prol de um futuro mais justo e solidário. Muitas vezes não dispõem dos conhecimentos necessários, até porque a educação cívica só consta nos programas escolares do penúltimo ano de liceu. Demasiado tarde para incutir a importância do processo democrático.

Quanto a nós, não-luxemburgueses que escolhemos este país como residência, não podemos continuar a ignorar que temos uma voz, uma voz que se for unida pode pesar nas decisões políticas. E até 14 de Julho temos a possibilidade de fazer ouvir a nossa voz. Cerca de um mês depois da promulgação do diploma que permite a não-luxemburgueses serem burgomestres e vereadores é importante termos em mente o que significa esta mudança de paradigma que permite a participação política por residência e já não por nacionalidade. Mas nem tudo é um mar de rosas. Nesse debate sublinhei as incoerências do sistema de inscrição nos cadernos eleitorais: o obstáculo burocrático dos documentos a fornecer, a falta de incentivos por parte das comunas (com algumas excepções), as dúvidas de muitos estrangeiros. A inscrição nas listas eleitorais faz-se uma única vez (para as autárquicas e para as europeias), mas infelizmente em algumas comunas assistiu-se a uma série de "esquecimentos" em que pessoas são retiradas das listas e ficam à espera das suas convocações em vão. São estes "desvios" que por quaisquer que sejam as razões nos têm de incentivar a dizer basta!, pois somos cidadãos deste país e não queremos mais pertencer a uma qualquer "subcategoria". Continuarmos minoritários significa também que as políticas não serão dirigidas para nós, mas para aqueles que votam (o voto é obrigatório) ou seja, sobretudo os luxemburgueses. Não nos esqueçamos também que somos cidadãos e que para políticas equilibradas precisamos de uma representação fiel, precisamos de nos identificar com esses conselheiros comunais que tomam decisões directas sobre a maneira como vivemos.

Que falemos ou não luxemburguês, essa é uma falsa questão. O mais importante é que encontremos força e coragem para exprimir o que sentimos, e apoiemos ideias e pessoas que defendam os nossos interesses. Em ano de eleições, em que há um apelo às comunidades estrangeiras para que se exprimam, temos de ser responsáveis, até porque, como diz o "homem da luta" Jel, "é responsabilidade de todos participar na vida democrática".

O debate pode ser visto na íntegra (em luxemburguês) no site www.woxx.lu , jornal que organizou o encontro.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Opinião

Cuidado com as prepotências

Sabia que a companhia aérea Ryanair lhe cobra taxas ridículas? Claro, provavelmente já sabia. As notícias são outras, e até são boas: o ponto de revolta chegou. Este é o sinal dado pela "rua". E, tal como todos os líderes dos países árabes, desde Mubarak a Khadafi, estão neste momento a perceber, é importante sentir os sinais enviados pela "rua", caso contrário, podem explodir de repente na nossa cara.

A história tem contornos simples, até porque (lamentavelmente) tantas vezes vistos. No sábado, um passageiro dirigiu-se ao aeroporto de Lanzarote, Canárias, para apanhar o avião para regressar a Charleroi, Bélgica. Trazia consigo a mesma bagagem que no voo de ida, mas, desta feita e arbitrariamente, um zeloso funcionário do aeroporto espanhol, devidamente instruído pela Ryanair ou simplesmente mais mesquinho e zangado com a vida, decidiu que a mala era demasiado grande ou pesada e exigiu-lhe uma dessas multas traiçoeiras: 40 euros. O funcionário, atrás do seu mais que provável bigodinho aparado, esperaria a reacção do costume, ou seja alguns resmungos seguidos do sacar do cartão de crédito e do aumento da conta bancária da empresa aérea. Só que desta vez "o copo transbordou". O homem recusou-se a pagar. Talvez se tenha lembrado que, afinal, um homem não é um rato; que existe o direito à indignação; que temos sempre o poder de dizer "não". Ou talvez, simplesmente, não tivesse 40 euros consigo. O que é certo é que a revolta do passageiro serviu como a proverbial faísca – a "Revolução de Jasmim" na Tunísia começou com uma banca ilegal de venda de legumes confiscada prepotentemente pela polícia. Em minutos, 104 estudantes universitários belgas sentados no mesmo avião à espera de regressar a casa, todos com aquela idade utópica, quando ainda acreditamos poder mudar o mundo, amotinaram-se, em protesto. 104 pessoas é muita gente – o avião só transportava 168 no total – mas, do alto da sua infalibilidade, a companhia de baixo custo e serviço preferiu resolver as coisas da forma mais "mubarakiana" possível: chamou a Guardia Civil espanhola e evacuou o avião, negando o transporte aos indignados. Na altura em que escrevo estas linhas, e mesmo após a intervenção da diplomacia belga, os estudantes estão ainda bloqueados nas Canárias.

Lanzarote contava até há pouco tempo com um ilustre habitante, de seu nome José Saramago. O escritor, que tanto explorou a temática da resistência dos seres humanos contra a tirania das massas, estaria, se ainda vivo, orgulhoso.

A Ryanair, por seu lado, agradece-lhes secretamente mais este golpe publicitário de grandes repercussões, na linha do anterior "vamos começar a cobrar pela utilização das casas de banho". Mas atenção, a análise da companhia pode pecar por simplista; este pode muito bem ser o ponto de viragem em que a má propaganda se torna apenas isso mesmo, levando a que os consumidores se comecem a fartar da prepotência da transportadora. Olhos abertos, os dias não correm de feição para os prepotentes.

Hugo Guedes

(as crónicas do autor podem ser lidas no blogue associado do CONTACTO, www.naruada grandecidade.blogspot.com: rubrica semanal)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Opinião

Hieróglifos

Os acontecimentos na cidade dos mil minaretes pontificam, desde há mais de uma semana, nos inúmeros serviços noticiosos, mas raro é o analista que se atreve a delinear uma entre várias prováveis origens ou uma entre várias possíveis evoluções, reduzindo-se à evidente correlação (pelo menos temporal) com a insurreição tunisina. Os analistas andam perdidos nos anais.

Terá a quase aceite evidência de que o filhote mais novo de Mubarak se prepara, com o apoio da finança internacional, a suceder ao pai e assegurar essa dinastia faraónica numa república multipartidária em estado de sítio desde há décadas, forçando eventuais pretendentes a inflamar as massas? Algo já velho de dez anos mas que ganha amplitude com o aproximar de eleições presidenciais, as quais, desde o golpe de 1952, são de candidato único, não obstante as promessas de reforma.

Ou será que a instabilidade no mundo árabe, do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico, e mais além, cuja emergência é facilitada pela presença ou de autocracias e similares ou de religiosos intolerantes, com as consequentes rivalidades internas e o afadigar diplomático, cai que nem sopa no mel nos esforços do povo escolhido para aligeirar o cerco e a pressão, após o relativo esquecimento da ameaça iraniana?

Parece, pois, inútil resumir o que todos leram, ouviram e viram, tanto como é despropositado, ou extemporâneo, teorizar sobre bases incertas ou não comprovadas. Porém, o repentino abalo num país que nos habituaram a ver estável obriga a deixar elementos de reflexão.

Que aqueles que tradicionalmente se tomam por donos do mundo, polícias, julgadores e correctores de tudo o que nele se passa, não se levantem contra os perturbadores da ordem estabelecida, antes com eles façam coro contra um seu amigo e aliado – é suspeito. Que um gasoduto expluda e arda, em acto de sabotagem, mas não aquele que se liga a um determinado país vizinho (Israel) – é suspeito. Que as forças do Bem reclamem, de repente, eleições, sabendo que recentemente dois processos desses deram a vitória ao Mal e que é grande a probabilidade de tal se repetir – é suspeito. De resto, o atraso evidente, e a timidez, com que os fazedores de chuva e os fabricantes de guarda-chuvas mencionaram as virtudes dos valores democráticos, também isso é suspeito. Que os serviços secretos egípcios sejam os principais parceiros da Grande Agência em todo o espaço muçulmano (contrariamente ao suposto) e não tenham pressentido a avalancha e prevenido que o ressentimento popular se faça contra o líder, directamente, mas contra a situação económica em geral – é suspeito.

Todos estes "laissez-faire" são motivo de interrogação. Uns suspeitos de directores do circo, outros de bobos da corte.

O actual nome do Egipto (Misr) significa "a terra" ou "fortificação". Bem... é verdade que os hieróglifos são difíceis de ler, mas mais ainda de decifrar.

Carlos Roso