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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Portugal: Morreu historiador José Hermano Saraiva

O historiador José Hermano Saraiva morreu hoje de manhã, disse à agência Lusa o assistente do produtor do programa da Videofono feito pelo académico de 93 anos.

Carlos Manuel disse à Lusa que o produtor José Manuel Crespo foi hoje informado por um familiar de José Hermano Saraiva que o historiador tinha morrido hoje em casa, no distrito de Setúbal.

De ministro a grande divulgador da cultura portuguesa na televisãoJosé Hermano Saraiva foi jurista, ministro da Educação e autor da “História Concisa de Portugal”, mas tornou-se conhecido do grande público como apresentador de programas televisivos de divulgação cultural.

O historiador foi agraciado este ano, nas celebrações dos 10 de junho, pelo Presidente da República, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Em outubro de 2010, a Academia Portuguesa da História (APH) distinguiu José Hermano Saraiva como académico de mérito, salientando ser um “grande divulgador” da História de Portugal.

“A Academia achou que nesta sua idade, era bonito, agradável, marcar um momento de confraternização com um homem que fez muitos portugueses conhecer a História de Portugal”, explicou na altura à Lusa a presidente da APH, Manuela Mendonça. Manuela Mendonça sublinhou que José Hermano Saraiva “levou com simpatia e palavras de agrado os portugueses a interessarem-se mais pela sua própria História”.Membro “há muitos anos” da Academia, José Hermano Saraiva era também membro das academias das Ciências de Lisboa, da Marinha e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (Brasil).

Nascido em Leiria, no dia 3 de outubro de 1917, José Hermano Saraiva notabilizou-se nas quatro últimas décadas através de programas televisivos sobre História.Licenciado em Histórico-Filosóficas (1941) e em Ciências Jurídicas (1942), exerceu advocacia e foi professor do ensino secundário.

Em 1957 foi deputado à Assembleia Nacional e procurador às cortes. Entre outros cargos públicos que exerceu antes do 25 de abril de 1974, como o de diretor do Instituto de Assistência aos Menores, foi ministro da Educação Nacional entre 1968 e 1970, qualidade na qual inaugurou a Biblioteca Nacional de Portugal. Foi substituído por Veiga Simão, após a crise académica de 1969, tendo sido designado embaixador de Portugal em Brasília, em 1972.

A colaboração com a RTP começou em 1971 com o programa “Horizontes da Memória”, tendo nesse ano recebido o Prémio da Imprensa para o Melhor Programa do Ano. Foi ainda autor e apresentador de “Gente de Paz”, que assinalou o seu regresso à RTP em 1978, “O Tempo e a Alma”, “Histórias que o Tempo Apagou” e “A Alma e a Gente”.

Um dos seus livros mais conhecidos é a “História concisa de Portugal”, já na 25.ª edição, com um total de cerca de 180 mil exemplares vendidos. Editado pela primeira vez em 1978, este título foi já traduzido em espanhol, italiano, alemão, búlgaro e chinês. O livro foi escrito durante o exílio a que se impôs na Nazaré, a praia da sua infância, durante o PREC (Período Revolucionário em Curso), em 1974-75, a convite do editor livreiro Lyon de Castro. José Hermano Saraiva dirigiu também uma outra História de Portugal em seis volumes, publicada em 1981 pelas Edições Alfa. Na área da História, José Hermano Saraiva publicou cerca de 20 títulos, entre eles “Uma carta do Infante D. Henrique”, “O tempo e alma”, “Portugal – Os últimos 100 anos”, “Vida ignorada de Camões” ou “Ditos portugueses dignos de memória”. Na área da jurisprudência editou sete títulos, nomeadamente “A revisão constitucional e a eleição do Chefe do Estado”, “Non-self-governing territories and The United Nation Charter” e “Apostilha crítica ao projecto do Código Civil”, tendo ainda publicado cinco títulos na área da pedagogia.

José Hermano Saraiva apresentou à APH várias orações académicas, tendo sido publicadas sete, a mais recente em 1988, intitulada “A crise geral e a Aljubarrota de Froyssar”.O historiador foi distinguido com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, a Grã-Cruz da Ordem do Mérito do Trabalho, a Comenda da Ordem de N.da Conceição de Vila Viçosa e a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (Brasil).

Foto: LUSA


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Versão portuguesa do livro "História do Luxemburgo", de Gilbert Trausch, é oficialmente lançado em Lisboa a 23 de Maio

O livro "História do Luxemburgo", do historiador luxemburguê^s Gilbert Trausch é oficialmente lançado em Lisboa a 23 de Maio, às 18h, na livraria "Ler Devagar" (rua Rodrigues Faria, n° 103, Ed. G-0.3).

O evento vai contar com a presença do embaixador do Luxemburgo em Portugal, Paul Schmit, que vai faazer uma apresentação, em português e em francês, sobre a história do Luxemburgo.

A versão portuguesa da obra de Gilbert Trausch, "História do Luxemburgo", agora publicada em edição portuguesa, resulta de um projecto do Ministério da Cultura luxemburguês, com a colaboração do Forum Portugal-Luxemburgo e o apoio da Embaixada do Luxemburgo em Portugal.

Trata-se de uma obra importante para o desenvolvimento das relações bilaterais entre os dois países, nomeadamente por razão da importante comunidade lusófona residente no Luxemburgo.

Apesar do seu tamanho – 2.586 km2 e 500 mil habitantes – o Grão-Ducado do Luxemburgo é um verdadeiro Estado, com uma história particularmente rica. Situado no coração da Europa, entre a França, a Bélgica e a Alemanha, o Luxemburgo participou nos grandes desenvolvimentos Europeus. O passado movimentado do Grão-Ducado é um verdadeiro resumo da história europeia. Na Idade Média, os seus principes usaram a coroa do Sacro Império Germânico e nos tempos modernos a sua fortaleza foi de uma importância fundamental na luta entre as grandes potências. Antes de se tornar independente, no Século XIX, o Luxemburgo viveu sucessivamente sob soberania bourgonha, espanhola, francesa, austriaca e holandesa. No Século XX, este país próspero e dinâmico desempenhou um papel decisivo na unificação da Europa.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

História do Grão-Ducado lançada em Portugal

Nasceu há 10 anos para manter os laços entre as pessoas que viveram, vivem e gostam do Grão-Ducado. Chama-se Associação Fórum Portugal-Luxemburgo. Para assinalar a década de existência, a entidade, com sede em Lisboa, lança em fins de Março a primeira História do Luxemburgo em língua portuguesa, da autoria do professor Gilbert Trausch. A obra inédita vai ser apresentada pelo director do Centro Robert Schuman no Luxemburgo.

Estatutariamente, o Fórum Portugal-Luxemburgo visa a promoção e o desenvolvimento das relações entre os dois países. Mas, na realidade, o que se pretende "é manter os laços entre pessoas", explicou ao CONTACTO Eugénia Malheiros, actual secretária da associação.

"É a realização de um desejo de um conjunto de pessoas que estiveram a trabalhar no Luxemburgo, umas oriundas da emigração tradicional, outras que passaram por instituições em resultado da adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia", especificou.

Foi a 11 de Abril de 2002 que se reuniu a assembleia constitutiva do Fórum Portugal-Luxemburgo. A comemoração da década está à porta.

Em sua casa, em Lisboa, mesmo ao lado do Parque das Nações, onde se exibiu a Expo 98, Eugénia Malheiros mostra-nos a primeira acta onde consta o nome dos pioneiros do Fórum.

Rute Costa, professora catedrática da Universidade Nova, foi a primeira presidente. Ainda criança emigrou para o Luxemburgo, onde frequentou todo o ensino secundário, regressando depois a Portugal para ingressar na Universidade. Foi vice-presidente Marie Jeanne dos Santos Salvestrin, que actualmente trabalha para o Governo do Luxemburgo. Como secretário, Manuel Malheiros, que passou pela chefia da divisão de tradução jurídica do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias e foi o último governador civil de Setúbal, cargo extinto pelo actual Governo de Portugal. Foram vogais Ana Paula Costa, Isaías Gomes dos Santos, José Carvalho Pires e Pol Bradtk.

São várias as actividades culturais a que os associados aderem para manterem vivos os laços. Por exemplo, todos anos se reúnem para comemorar o Dia Nacional do Luxemburgo.

"Aproveita-se o convívio e matam-se saudades", observa Eugénia Malheiros, que recorda também a visita ao museu municipal de Loures, com o apoio da autarquia, o passeio de barco pelo Tejo, com o apoio da Câmara do Barreiro, ou a visita ao Museu de Cerâmica de Sacavém.

Em 2004 foi proposto ao embaixador Alain de Muyser que o dia de S. Nicolau fosse festejado na embaixada com a participação dos membros do Fórum. A ideia foi logo acolhida e agora todos os anos, a 6 de Dezembro, nos salões da Embaixada, a festa acontece com todas as crianças pertencentes às famílias dos membros do Fórum e da Embaixada. "É uma forma de manter vivas também as tradições do Luxemburgo".

Depois da festa recolhem-se donativos para serem doados à Associação Sol, uma instituição que acolhe crianças doentes de Sida. Nos últimos três anos, algumas crianças desta instituição participaram também na festa de S. Nicolau.

No âmbito cultural, um grande marco da associação foi a tradução para português do policial "Um porto para os advogados", de Josy Braun, um escritor luxemburguês. A obra foi inclusive referida pelo semanário Expresso nas suas páginas sobre o que de melhor se publica em Portugal. Todos os custos da tradução foram suportados pelo Fórum. O lançamento do livro, em Lisboa e Porto, teve o apoio da Embaixada. Várias personagens da história de ficção são cidadãos portugueses residentes no Grão Ducado, o que reflecte a influência lusa na sociedade luxemburguesa.

Neste momento, porém, a associação está a passar por algumas dificuldades. Uma delas tem a ver com a saúde da actual presidente, Viviane Salvestrin, que se encontra no Luxemburgo para receber tratamentos.

Por outro lado, vai ser necessário chamar mais gente para o Fórum, e incrementar as actividades, diz Eugénia Malheiros, esposa de Manuel Malheiros, que desempenhou as mesmas funções logo em 2002. Aquela dirigente permaneceu 14 anos no Grão-Ducado, ondeexerceu actividades docentes na área de Língua e Cultura Portuguesas. Em Portugal foi professora do ensino secundário, nas disciplinas de Português e Francês, durante 38 anos.

Neste momento, a associação conta cerca de 40 sócios, mas a professora quer mais gente para manter vivas as relações entre Portugal e o país que acolhe cerca de 100 mil portugueses. Neste sentido, a associação conta já com o apoio da Câmara do Comércio Luso-belga-luxemburguesa para a criação de um site na internet. "Vai ser uma forma de divulgar o Fórum", explicou.

Mas, apesar de se considerar uma fase menos boa esta pela qual a associação está a passar, nunca se poderá dizer que está parada. Bem pelo contrário.

A Embaixada do Luxemburgo vai nos dias 28, 29 e 30 de Março realizar três conferências, no Porto, em Lisboa e em Faro, respectivamente, para apresentar o livro "História do Luxemburgo" do Professor Gilbert Trausch. Trata-se de uma obra cuja tradução foi promovida pelo Fórum Portugal-Luxemburgo, com todo o apoio da Embaixada. É a primeira história do Luxemburgo publicada em língua portuguesa.

Ao celebrar dez anos, o Fórum continua a construir, e com toda a força, as pontes entre Portugal e o Grão-Ducado.

Texto: Licínio Lima

terça-feira, 5 de abril de 2011

Grécia: Descoberto texto mais antigo da Europa, segundo investigador

Uma placa de argila cozida com mais de 3.000 anos, considerada o mais velho texto escrito e decifrável da Europa, foi descoberta numa antiga “lixeira” do Peloponeso, indicou hoje um arqueólogo que leciona na Universidade norte-americana do Missouri.

Encontrada durante escavações numa colina de Iklena, uma pequena aldeia do departamento de Messene, a 300 quilómetros a sudoeste de Atenas, esta placa é aparentemente “um documento financeiro” proveniente de uma antiga cidade do período micênico, explicou o arqueólogo, Michael Cosmopoulos, citado pela agência de notícias francesa AFP.

A placa de argila cozida tem mais um século que as anteriores descobertas similares até agora feitas.

“Trata-se da mais antiga placa descoberta na Grécia, logo, a mais antiga da Europa”, declarou Cosmopoulos.

“Numa das faces da placa figuram nomes e números e na outra um verbo que remete para o verbo confecionar”, precisou o especialista.

A inscrição na placa é em Linear B, uma escrita utilizada pelos micênicos da Idade do Bronze (1600 a.C.), a época da guerra de Troia, descrita na “Ilíada”, de Homero.

As escavações, supervisionadas pela Escola de Arqueologia de Atenas e parcialmente financiadas pela National Geographic Society, começaram em 2006 e trouxeram à luz do dia as ruínas de uma grande estrutura com muralhas imensas, frescos e um sistema de drenagem avançado, datado de 1550-1440 antes da nossa era.

Segundo Cosmopoulos, que está a dirigir as investigações, o sítio foi provavelmente destruído por volta de 1400 a.C., antes de ser invadido pelo reino próximo de Pylos, cujo rei Nestor é mencionado na “Ilíada”.

“A descoberta da placa sugere que a escrita é bastante mais antiga do que pensávamos até agora”, considerou o académico.

A Escola de Arqueologia de Atenas deverá em breve dedicar uma publicação ao achado, que já saiu na National Geographic, ao passo que a placa será apresentada ao público por Cynthia Shelmerdine, uma especialista em escrita micênica da Universidade de Austin, no Estado norte-americano do Texas, que foi a primeira a decifrá-la, adiantou Cosmopoulos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

História: Zheng He contra Vasco da Gama - biografia agora editada contrapõe "cortesia chinesa" a "invasão colonial ocidental"

Dezenas de anos antes de Bartolomeu Dias ou Vasco da Gama (imagem à esquerda) nascerem, grandes frotas chinesas já tinham navegado até à costa oriental de África e com “objetivos pacíficos”, realça uma nova biografia do almirante Zheng He (imagem à direita), que viveu entre 1371-1433.

As sete viagens de Zheng He aos “Oceanos Ocidentais”, entre 1405 e 1433, são “um glorioso capítulo da diplomacia pacífica da China antiga” e da “história da navegação mundial”, afirma-se no livro, publicado em janeiro em Pequim, em edição bilingue (chinês e inglês).

A marinha chinesa “visitou então mais de trinta países e regiões” (da atual Indonésia até ao Quénia), percorrendo, no conjunto, “160 mil milhas marítimas” (cerca de 300 mil quilómetros).

Mas ao contrário do que aconteceria durante a “invasão colonial ocidental” - salienta a biografia, assinada por Wang Jienan - Zheng He atuava segundo “o sistema de cortesia do Império Celeste”.

Malaca, Ceilão, Calcutá, Ormuz e outros lugares que iriam entrar para a História dos Descobrimentos portugueses foram alguns dos portos onde atracaram as diferentes esquadras comandadas por Zheng He e que deverão ter impressionado as populações locais.

Desde a primeira missão, que zarpou da costa chinesa em 1405, com 62 navios, Zheng He navegava sempre com imponentes frotas.

O navio-almirante, por exemplo, tinha 119 metros de comprimento, nove mastros e 12 velas: “uma verdadeira obra-prima da construção naval chinesa”, diz Wang Jienan.

Recorrendo à linguagem diplomática atual, o autor da nova biografia afirma que as viagens de Zheng He “fortaleceram as amigáveis relações da China com as nações do Sueste Asiático, Ásia do Sul e Africa Oriental”.

“As viagens tinham como objetivos a abertura, o intercâmbio e o desenvolvimento” e proporcionaram “resultados mutuamente vantajosos”, afirma o historiador chinês.

Nascido no sul da China, ainda sob o domínio mongol, Zheng He era eunuco e “um devoto muçulmano e budista”.

Segundo a biografia, “contribuiu imenso para o desenvolvimento do Islão na Indonésia e Malásia” e “deu o pontapé de saída para a emigração chinesa em massa para o Sueste Asiático”.

Um autor japonês citado no livro, Terada Takanobu, afirma que “as viagens iniciadas na chamada Grande Era da Navegação perdem o brilho quando comparadas com as viagens de Zheng He”.

Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Fernão de Magalhães e Cristóvão Colombo são os únicos navegadores ocidentais mencionados na biografia: o primeiro dobrou o Cabo das Tormentas em 1488 e, dez anos mais tarde, o segundo descobriu o caminho marítimo (ocidental) para a Índia.

O livro não explica porquê, mas após a morte de Zheng He, a China virou as costas ao mar e isolou-se do mundo, que considerava “bárbaro” e “atrasado”.

E quase seis séculos mais tarde, quando a “ascensão pacífica” da China ao estatuto de grande potência está na ordem do dia, o “exemplo” do almirante Zheng He continua a ser uma boa história.

*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***

sábado, 8 de agosto de 2009

8 de Agosto/Efeméride: A invenção da passarola e o padre voador ou como Portugal quase conquistou os céus depois de dominar os mares


Depois de dominar os mares, Portugal esteve a um fio de conquistar os céus quando o jovem Bartolomeu de Gusmão fez voar, perante D. João V, o primeiro balão da história da humanidade, a famosa Passarola.

A oportunidade, porém, perdeu-se e a descoberta saída da cabeça do rapaz-fenómeno vindo do Brasil, capaz de decorar obras literárias inteiras e das invenções mais audazes, acabou por revelar a incapacidade do império de entender o alcance da descoberta.

Joaquim Fernandes, professor na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, recordou à Lusa que Bartolomeu de Gusmão tinha 16 anos quando fez a sua primeira incursão a Lisboa, ficando hospedado em casa do marquês de Fontes, contacto que seria da maior importância no futuro.

A fama do jovem Bartolomeu já vinha do Brasil, onde a sua memória prodigiosa e capacidade inventiva se notabilizaram. De apelido Lourenço, era um dos 12 filhos de um cirurgião do posto militar de Santos e, segundo Joaquim Fernandes, acolhe o nome de Gusmão do jesuíta Alexandre de Gusmão, reitor do Seminário de Belém, no estado da Baía, para onde foi estudar, juntamente com vários irmãos.

Ainda adolescente, ficou conhecido por ter construído uma bomba hidráulica para fazer subir a água do rio Paraguaçu até ao cimo do monte onde se situava o seminário brasileiro, o que terá beneficiado os padres aí estabelecidos.

Regressado ao Brasil, continua a estudar para padre, até viajar de novo para Portugal, em 1708, para ingressar na Universidade de Coimbra.

Alguns meses depois já o encontramos em Lisboa, onde fica de novo em casa do marquês de Fontes, que fará a ponte entre Bartolomeu e D. João V.

Autorizado pelo rei a construir a Passarola e a apresentá-la na corte, e garantindo os direitos de utilização futura caso funcionasse, o jovem brasileiro lançou-se ao trabalho num estaleiro cedido pelo seu anfitrião.

A Passarola nunca correspondeu ao desenho conhecido, capaz de acolher um homem no seu interior, com asas e bico: esse desenho é do filho do marquês, cúmplice de Bartolomeu, e pretendia fazer contra-espionagem junto dos curiosos que rondavam o estaleiro com o objectivo de informar as potências estrangeiras.

Até o mecanismo de voo foi falseado: em vez do princípio de Arquimedes seguido por Bartolomeu, o embuste deu a entender que se tratava de magnetismo, então tanto na moda.

Segundo Joaquim Fernandes, a verdadeira Passarola é desoladoramente diferente: um pequeno balão de ar quente, semelhante aos de S. João, com uma taça de combustível por baixo, que nas primeiras tentativas pegou fogo e chegou a incendiar os reposteiros reais.

El-rei não perdeu a curiosidade face aos primeiros falhanços e aceitou novas tentativas da estranha invenção, até que a 08 de Agosto finalmente o balão sobe até ao tecto da sala de audiências do rei, demora-se aí um bom pedaço e desce suavemente.

Apesar do encanto com que o invento foi recebido na corte, ninguém o levou propriamente a sério, mesmo com Bartolomeu a realçar as suas potencialidades militares.

Quatro anos depois das experiências na corte, o inventor fez uma digressão por Holanda e França, onde registou a patente de algumas ideias e trabalhou como ervanário.

Regressa a Portugal e inicia um período decadente, em que é acusado de simpatias com o judaísmo. A Inquisição aperta o cerco em torno de Bartolomeu, que acaba por fugir para Espanha em 1724. Esta é uma das histórias contadas no livro que Joaquim Fernandes lançará ainda este ano - "Mitos, mundos e medos - O céu na poesia portuguesa".

Lusa





Para ludibriar os espiões, Bartolomeu de Gusmão fez circular um desenho, que seriam os supostos planos da sua "passarola" que dava a entender que a "máquina" recorria ao magnetismo, então tanto na moda, quando na verdade apenas aplicava o princípio de Arquimedes ("Qualquer corpo mergulhado num fluído em repouso sofre, por parte do fluído, uma força vertical para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluído deslocado pelo corpo." Na realidade, a verdadeira Passarola seria desoladoramente diferente: um pequeno balão de ar quente com uma taça de combustível por baixo, que nas primeiras tentativas pegou fogo e chegou a incendiar os reposteiros reais (ver primeira imagem).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Guimarães e Viseu disputam-se berço de D. Afonso Henriques

A atribuição da Medalha de Ouro da Cidade a D. Afonso Henriques, no próximo dia 24 de Junho (Dia de S. João Baptista), vem reacender a discussão sobre o local de nascimento do primeiro rei de Portugal, em Guimarães ou Viseu.

Sem dados históricos absolutamente fiáveis, Guimarães fundamenta-se na “tradição”, disse hoje à Lusa o presidente da autarquia.

“Não é nosso propósito que o programa comemorativo venha responder a qualquer questão, nem, tão pouco, é nossa intenção aclarar dúvidas históricas que, de quando em vez se animam, e que apenas encontrarão resposta no labor de investigadores e medievalistas”, acrescentou António Magalhães.

O autarca socialista assina o documento de apresentação das comemorações dos 900 anos de nascimento de D. Afonso Henriques.

A par com Viseu, a cidade minhota, que a tradição considera berço da nacionalidade, comemora o aniversário do fundador de Portugal.

As duas cidades apresentam "pareceres" históricos e documentos que tentam provar o local onde, efectivamente, nasceu o primeiro rei de Portugal.

“Não há nenhum tipo de dúvida de que D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães”, disse à Lusa o historiador Barroso da Fonte que, sexta-feira, apresenta o livro ‘Afonso Henriques - um Rei Polémico”.

Em 300 páginas, o antigo vereador da cultura na câmara vimaranense e ex-director do Paço dos Duques de Bragança e do Castelo de Guimarães, tenta provar que filho do Conde D. Henrique e de D. Teresa, nasceu em 1111, na cidade-berço.

“A Câmara de Guimarães antecipou, em dois anos, as comemorações dos 900 anos, talvez para mostrar a Viseu que está atenta”, frisou Barroso da Fonte.

Batalha de S. Mamede - O Dia em que nasceu Portugal

Para comemorar a Batalha de S. Mamede, a 24 de Junho, o "Dia Um de Portugal", como referem os vimaranenses, a autarquia iniciou uma festa que vai durar 900 horas.

Hoje à tarde, três centenas de crianças, vestidas com roupas semelhantes às usadas no tempo de D. Afonso Henriques, elaboraram um cortejo pelas ruas do centro histórico.

No Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, foi inaugurada a exposição “Afonso Henriques: o ‘Dux’ que se fez Rei”.

Na discussão sobre qual terá sido a cidade-berço de Portugal, entrou também a Sociedade Martins Sarmento (SMS), em Guimarães.

“Não há documento algum que esclareça com exactidão o dia e o local de nascimento do primeiro rei de Portugal e, sendo assim, ganha a força da tradição”, salientou hoje Amaro das Neves, presidente da Sociedade.

No entanto, segundo Barroso da Fonte “todos aprendemos na escola que D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães, em 1111. Só porque um historiador vem questionar essa data, não se pode mudar a história”.

Também Diogo Freitas do Amaral, natural de Guimarães, escreveu um romance histórico sobre D. Afonso Henriques e aponta a cidade minhota como o berço da nacionalidade.

A tese de que o primeiro rei terá nascido em Viseu foi sustentada, em livro, pelo medievalista Almeida Fernandes e é também defendida pelo historiador José Mattoso.

Aos argumentos históricos, a Câmara de Guimarães responde: “Aqui Nasceu Portugal”, “Cidade-Berço”, “Capital Histórica de Portugal” são alguns dos rótulos que se colaram à cidade “em resultado da epopeia fundadora que em Guimarães teve inicio. Um olhar um pouco mais atento descobrirá muitas outras formas como a figura do nosso primeiro rei faz parte do nosso quotidiano, ainda hoje”.

A tese de Viseu incontestada há 19 anos

A Fundação Mariana Seixas está convencida de que, 19 anos após o historiador Almeida Fernandes ter avançado a tese do nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu, não será a obra de Barroso da Fonte a enfraquecê-la.

A polémica tese "Viseu, Agosto de 1109, nasce D. Afonso Henriques", do medievalista Armando de Almeida Fernandes, foi publicada pela primeira vez na revista Beira Alta, depois em livro pelo Governo Civil de Viseu (1993), tendo este sido reeditado em 2007 pela Fundação Mariana Seixas, da mesma cidade.

"Durante estes 19 anos nunca ninguém contestou a tese com bases científicas. E não será com certeza um publicista (pessoa que divulga ideias) a contestar a tese de um historiador", afirmou hoje à Agência Lusa António José Coelho, editor da Fundação Mariana Seixas, que criou em 2004 um prémio de História Medieval Portuguesa com o nome de Almeida Fernandes.

No entanto, considera que o livro "Afonso Henriques: um Rei Polémico", do investigador Barroso da Fonte - a apresentar sexta-feira, em Guimarães - poderá ser "um contributo interessante para fazer os historiadores virem à liça debater o assunto".

No ano em que, quer em Viseu, quer em Guimarães, se comemoram os 900 anos do nascimento do primeiro rei de Portugal, António José Coelho congratula-se por a tese de Almeida Fernandes ter "cada vez mais ecos favoráveis e apoios entre os investigadores de História Medieval".

"A partir da reedição do livro em 2007 voltou a surgir o debate e, desta vez, no meio académico. Hoje existe um conjunto de medievalistas reputadíssimos a subscrever a tese", frisou.

Destacou a posição de Bernardo Vasconcellos e Sousa, professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, que considerou que "com base em informações indirectas sobre o paradeiro dos pais do monarca, creio que a hipótese de Viseu é a mais provável".

"Viseu é, quase, com muita probabilidade a terra de nascimento de D. Afonso Henriques", defendeu em Março passado António Borges Coelho, professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Numa carta enviada a Almeida Fernandes, em 1992, e que só recentemente foi descoberta, o cónego Avelino de Jesus da Costa, que era professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra escreveu: "Quanto ao nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu, os documentos apresentados por V.ª Ex.ª não permitem outra conclusão".

António José Coelho admitiu que a biografia sobre D. Afonso Henriques do Círculo de Leitores (2006), escrita pelo historiador José Mattoso, "foi um contributo importante" para que outros lhe seguissem o exemplo, até porque ele manteve, durante mais de duas décadas, um diferendo com Almeida Fernandes devido a diferentes perspectivas históricas.

"A demonstração feita por Almeida Fernandes alcança verosimilhança suficiente para se admitir como possível, ou mesmo a mais provável. É de facto admissível, com base nos documentos por ele invocados, que D. Afonso Henriques tivesse nascido em Viseu por meados do mês de Agosto de 1109", escreveu José Mattoso.

A tese de Almeida Fernandes surgiu, curiosamente, depois de, em 1990, ter sido posta em causa a "tradição" de que Guimarães foi o "berço" do fundador da nacionalidade, com o aparecimento da hipótese de Coimbra.

Almeida Fernandes explica na sua obra que esta resulta de uma encomenda feita pela Unidade Vimaranense - Associação para o Desenvolvimento de Guimarães e sua Região, que lhe pediu para "averiguar, se possível, onde nasceu D. Afonso Henriques".

"A doutrina encontrou silêncios, mais sintomáticos em quem pedira o estudo; mas não suscitou polémica à altura, muito menos capaz de a infirmar, por um argumento que fosse. Passado o tempo, verifica-se que, ao contrário, a hipótese colheu ecos, favoráveis", refere Maria Alegria Marques, da Universidade de Coimbra, no prefácio da obra reeditada em 2007.


Imagens: D. Afonso Henriques e a sua bandeira quando se declarou rei de Portugal

terça-feira, 16 de junho de 2009

Madrid: Museu do Prado foi fundado por infanta portuguesa

No mundo e mesmo em Portugal poucos o sabem, mas é português o nome de quem, nos primeiros anos do século XIX, quis e conseguiu que se construísse em Madrid aquele que é hoje um dos mais importantes museus de Espanha e do mundo, o Museu do Prado.

Maria Isabel de Bragança era o seu nome. Nasceu em Queluz em 1797, filha do rei João V e de Carlota Joaquina, com eles esteve no Brasil e, quando voltou, casou-se com um tio, irmão da mãe e rei de Espanha, Fernando VII.

Rezam as crónicas que amava as artes e que por assim ser pressionou e convenceu o rei, seu tio e marido, a mandar erguer em Madrid um museu real consagrado às Belas Artes.

Não chegou a vê-lo concluído. Morreu aos 21 anos, de parto.

Lima de Carvalho era até há pouco - confessou-o à Lusa - um dos que, deste lado da fronteira, desconheciam ser portuguesa e de sangue real a fundadora do Museu do Prado. No seu caso, a revelação veio através de um neto que, um dia, há dois anos, lhe trouxe o catálogo de uma exposição realizada em Madrid com retratos do Museu do Prado.

"A nossa vida é feita de coisas muito simples", filosofa. E foi muito simples a forma como ficou a saber que Maria Isabel de Bragança tinha sido a fundadora do Museu do Prado: bastou-lhe abrir o catálogo trazido pelo neto e ver, na página 88, o retrato da princesa portuguesa, rainha em Espanha.

O título do retrato, pintado 11 anos depois da morte da princesa por Bernardo López Piquer, anunciava: "La reina Maria Isabel de Braganza como fundadora del Museo del Prado".

Tão singular lhe pareceu a revelação que decidiu fazer um teste. "Comecei então - contou - a perguntar a pessoas importantes, desde embaixadores a ex-presidentes da República, a pessoas cultas, a artistas, se sabiam que ela tinha sido a fundadora do Museu do Prado. A grande maioria não sabia".

Tudo isto somado à juventude da princesa, ao confesso amor desta às artes e ao facto de o Salão da Primavera se destinar a jovens - finalistas e recém-licenciados em Belas Artes - o decidiu: iria prestar-lhe uma homenagem. E em várias frentes, se possível.

Começou pelo que conhece melhor, o seu meio de acção, a galeria de Arte. Reuniu os apoios necessários e aumentou - para cinco mil euros - o valor do Prémio (de Aquisição) que anualmente o Salão da Primavera atribui. O vencedor, este ano, XXII edição, foi Gil Maia, com "Caja Real".

A seguir, enviou a "todas as câmaras municipais que têm mulheres como presidentes" e às câmaras cujos presidentes são seus amigos - no total, 50 - cartas com uma desafiante sugestão: que fossem pensando em fazer entrar na toponímia local o nome da princesa e rainha.

As cartas foram enviadas há apenas 15 dias, vai ter de esperar mais tempo. Mas já lhe chegaram às mãos quatro respostas positivas. As duas primeiras, de Guimarães e de Vila Franca de Xira.

A terceira parte da homenagem está ainda em fase muito embrionária. A sua ideia é fazer chegar o rosto e o nome da princesa ao selo e, nesse sentido, desenvolveu já uma primeira série de diligências.

A última, mas não a menos importante das ideias de Lima de Carvalho, passa por uma espécie de «mobilização» das agências de viagens e de instituições como o INATEL, através das quais todos os anos milhares de portugueses vão a Espanha. Por que não «desviar» toda ou parte dessa massa de visitantes para uma visita ao Prado, ao museu que uma princesa portuguesa amante das artes quis que fosse construído?

Lusa

Imagem: Wikipédia