
Ao presente, o meu mundo confina às minhas raízes. Raízes? Raízes ou memória, aos que já partiram e aos que ainda estão presentes. O meu ser inscreve-se nestes 40 anos de referências. Mas se este não é o meu país, aquele deixou de o ser. O que muda na minha vida? O que em mim também permanece. O resto deito para a poubelle. Eu ainda vou fazendo o meu boulot. Na antiga empresa já não estão a embauchar, dizem. Outros trabalham ao Schwartz. Vivo, por vezes, uma espera indefinida, na incerteza, na dúvida, na angústia, também no medo.
Com efeito, assim é. São os novos males da alma, que não se diagnosticam em radiografias, nem em análises, no dizer da tua médica. Tu olhas atentamente para os outros. Consomes-te numa vida de trabalhos. Mas os outros nem se apercebem da tua existência e condição. Os outros ignoram-te, a começar pelos que tu julgavas próximos.
Impermanência. Transporto comigo o desassossego e a esperança. No lugar da pessoa, o número; no lugar dos afectos, o vazio. Quem, como eu, se fez peregrino, existe, por vezes, no limo da memória e da não-memória. Como e-/i/-migrante acolhem-te; como pessoa, não passas de um número. E se, por acaso, na tua aldeia, te perguntarem há quanto tempo vives e trabalhas là-bas, e lhes disseres, com números, por exemplo, há 40 anos..., então, concluem, que também és luxemburguês, ou mais luxemburguês do que português, visto que comigo partilhas esta experiência. Quem somos? Que me é dado ser, a não ser o outro, là-bas como ici? Por que persistem em não nos aceitar como pessoas? Acolhem-nos como e-/i/-migrantes, na melhor das hipóteses, mas não passamos de um número. E quem é o meu próximo, como nos sugere a passagem de Lucas (Lc. 10, 29)? Voltaremos, na próxima crónica.
António de Vasconelos Nogueira*
*O autor tem um doutoramento em Filosofia e um pós-doutoramento em História Económica pela Universidade de Aveiro; é especializado na vertente de Estudos Judaicos, diáspora e migração portuguesa. (Rubrica quinzenal; próxima publicação: 3 de Fevereiro).
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