quarta-feira, 31 de março de 2010

Literatura: Rodrigues dos Santos consegue primeiro top no estrangeiro ao conquistar 1º lugar na Bulgária

O escritor José Rodrigues dos Santos atingiu pela primeira vez o top de vendas num país estrangeiro ao colocar o romance "A fórmula de Deus" na liderança da tabela da principal rede livreira da Bulgária, informou hoje a editora.

O romance - editado pela Gradiva em 2006, ano em que foi o livro mais vendido em Portugal - intitula-se "Borjiata Formula" em búlgaro e lidera a tabela de vendas da rede de livrarias Helikon - www.helikon.bg.

Tomás Noronha, a personagem de quatro dos romances de José Rodrigues dos Santos, vive em "A fórmula de Deus", a sua segunda aventura.

Esta obra "aborda, com base numa profunda investigação do autor, a prova científica da existência de Deus", segundo nota da editora.

O livro está já traduzido em sete línguas, devendo ser editado ainda este ano nos Estados Unidos, Rússia e Hungria, adianta a Gradiva.

Rodrigues dos Santos, 45 anos, jornalista, é autor de quatro obras de ensaio e sete de ficção, a mais recente, "A fúria divina", editada o ano passado.

Desemprego na Zona Euro sobe para 10%, o valor mais alto desde 1998

A taxa de desemprego na Zona Euro atingiu os 10 por cento em Fevereiro, o valor mais alto desde Agosto de 1998 e 0,1 pontos percentuais acima do que se verificava em Janeiro, anunciou na quarta-feira passada o Eurostat.

Os dados do gabinete de estatística da União Europeia indicam ainda que na UE a 27 a taxa de desemprego atingiu no mês passado 9,6 por cento, também 0,1 pontos percentuais acima de Janeiro. Trata-se do valor mais alto desde Janeiro de 2000.

O Eurostat estima que mais de 23 milhões de pessoas na UE-27, dos quais 15,74 milhões na Zona Euro, estavam desempregados em Fevereiro.
Há um ano, em Fevereiro de 2009, a taxa de desemprego na UE-27 era de 8,3 por cento e na Zona Euro era de 8,8 por cento.

Homens temporariamente sós: "Foyers des Travailleurs" estão cheios de portugueses

Os portugueses chamam-lhes "Casas de Homens" ou "Foyers des Travailleurs". Construídos nos anos 70 para acolher a primeira vaga de imigração portuguesa, estes lares sociais continuam cheios. De operários portugueses.

" Levanto-me de manhã às 7h, apanho a carrinha da firma e vamos para o 'burô' [escritório]. O pessoal é dividido, fazemos as nossas oito horas e voltamos para casa. Uns vêm fazer o comer, outros vão comer ao café. Depois vê-se um bocadinho de televisão, e ao outro dia estamos lá outra vez" .

A vida de Aurélio no Foyer des Travailleurs é assim há 21 anos. Quando chegou ao Luxemburgo, este pedreiro da construção ainda não tinha feito 18 anos. "Ainda tive de trazer autorização do meu pai para vir para aqui" . Esteve "dois meses a viver com uns tios", à espera de vaga no lar da rue de Mühlenbach, uma residência social que acolhe trabalhadores estrangeiros. Hoje tem 39 anos e não conhece outra casa desde que atingiu a maioridade. "Era para vir dois anos, já lá vão vinte e tal, e uma pessoa cá está" .

No Foyer des Travailleurs, Aurélio partilha um quarto duplo, toma banho nos chuveiros colectivos e divide a máquina de lavar e a televisão da sala com os restantes inquilinos. A cozinha é que não: "Sou preguiçoso, vou comer ao café" . Por 300 euros por mês, almoça e janta num café próximo, gerido por portugueses, e "à semana" leva marmita para o trabalho. Pelo quarto, paga 200 euros.

Este é o maior dos três lares para trabalhadores imigrantes a funcionar no Luxemburgo. Aqui vivem 90 homens, "a grande maioria portugueses" , garante António Ribeiro, porteiro do Foyer há 30 anos. São pedreiros, carpinteiros, ladrilhadores, "maçons" . "Que é que eles ganham? Vá lá que ganhem com um bocado de sorte 1.500/1.800 euros... Temos aí pessoas casadas que têm de mandar dinheiro para Portugal. Se ganham 1.500 euros, como é que podem pagar um estúdio e ainda ficar com dinheiro?" , pergunta António Ribeiro.

À porta do Lar dos Trabalhadores bate cada vez mais gente, garante António, a viver no Luxemburgo desde 1973, a data em que o edifício foi construído. "Isto está sempre cheio e não chega, há sempre gente a bater à porta. A grande maioria que vem cá pedir alojamento são pessoas que vêm directamente de Portugal. Há um ou outro que vem dos cafés, por causa das condições, mas tirando isto não há mais nada. Para onde é que as pessoas hão-de ir, para os hotéis?" .

Construído no auge da imigração portuguesa, o Foyer da rue de Mühlenbach, na periferia da capital, é um dos três geridos pelo Gabinete Luxemburguês de Acolhimento e Integração (OLAI, na sigla em luxemburguês). O OLAI dispõe de 150 camas para trabalhadores imigrantes com dificuldades económicas, um número que não chega para a procura, garante António Ribeiro.

"Houve um período, aqui há coisa de dez, quinze anos, que a coisa abrandou muito. Mas ultimamente tem sido muita gente a pedir. Há coisa de quatro, cinco anos, a coisa tem aumentado. Eles batem à porta. Se houver lugar, ficam, se não houver, não ficam. Mas é difícil, porque isto está sempre cheio".

A culpa, para este porteiro a dois anos da reforma, é da crise em Portugal. "Os portugueses começaram a emigrar outra vez em massa, mas as condições são outras. Há menos trabalho e há mais problemas. Antigamente não havia 'interims' [empresas de trabalho temporário], hoje os patrões vão lá buscar as pessoas e não têm responsabilidades nenhumas. Depois vive-se num ambiente incerto, a pessoa nunca sabe se tem trabalho, não tem direitos nenhuns".

VISITA GUIADA

De fora, parece um vulgar prédio de apartamentos, com a arquitectura indistinta dos anos 70. Mas em vez de apartamentos, o Foyer está dividido em oito blocos, cada um com seis quartos – todos duplos, todos iguais.

"Reparou que é tudo a mesma coisa? Há hotéis piores, não há?" , pergunta António Ribeiro. São três da tarde, a hora da visita combinada por intermédio do OLAI, e vêem-se poucos trabalhadores, mas os que passam dizem "boa tarde". António Ribeiro é o único que tem acesso a todo o edifício: os inquilinos só dispõem da chave do bloco onde vivem, "para evitar problemas", mas quem vê um, viu todos. No bloco 1, no primeiro andar, as áreas comuns estão indicadas com letreiros. "Séjour", "Cuisine", "WC", "Buanderie", "Douches" ( abertos, "como nas piscinas" ), são partilhados por 12 homens. Na cozinha, há 12 fogões, um por inquilino.

Os quartos têm um lavatório, dois armários, duas camas de solteiro, duas prateleiras, uma mesa e duas cadeiras. Em alguns, vêem-se marcas de quem lá vive: aqui um cachecol do Benfica, ali um rádio que já viu melhores dias, noutro uma imagem de Santo António, maços de cigarros, fotos de família. António conhece toda a gente: "Este senhor é do Algarve" , diz, apontando para uma das camas, "este é de Leiria" . "Aqui vivem dois portugueses que estão em Portugal, também trabalham na construção. Um está de férias, o outro foi ver um familiar" . "Estes estão a dormir, trabalham por turnos" . António garante que o sistema funciona e que raramente há problemas. "Andam todos ao mesmo, aqui todos sentem a miséria nos ossos. Chove para uns, chove para os outros" .

Segundo Arthur Antony, responsável do alojamento no OLAI, em média os inquilinos dos foyers vivem ali três anos e meio, mas há quem fique dez, 15, 20 anos. "A lei diz que não podem estar mais de três anos, mas essa lei nunca foi cumprida. É que não há alternativas para quem vive sozinho" , explica António Ribeiro.

Como Aurélio, um dos veteranos. Nunca pensou sair daqui? "Pensar, já pensei, o pior é a carteira!", diz. "Ele é solteiro, ia daqui para onde?" , pergunta António. E depois "é quase uma família, aqui". A única que Aurélio conheceu nos últimos 21 anos.

Paula Telo Alves
Foto: Jêrome Melchior

Hoje no jornal CONTACTO


(clique na imagem para ampliar)

O destaque desta semana no jornal CONTACTO vai para a vitória do Sport Lisboa e Benfica contra o Braga, que abre caminho à obtenção do título. Este pode ser o ano do Benfica, a quem só faltam seis jogos para obter o título que nos últimos anos coube ao Futebol Clube do Porto.

A caça aos cafés que alugam quartos chegou finalmente à capital, e já fez estragos. Na semana passada, a autarquia fechou um café na rue de Rollingergrund, deixando 13 trabalhadores portugueses na rua. A ASTI está contra o encerramento compulsivo dos estabelecimentos sem alternativas para os inquilinos. A penúria do alojamento social continua, e para muitos os quartos nos cafés continuam a ser a única alternativa.

O Governo quer abrir o cargo de burgomestre aos estrangeiros. A promessa foi feita pelo primeiro-ministro esta segunda-feira, durante uma conferência organizada pela ASTI. A ser aprovado, o projecto-lei vai acabar com uma das formas de discriminação da lei eleitoral ainda em vigor, que não permite que os estrangeiros exerçam o cargo de vereador ou burgomestre, mesmo quando obtêm o maior número de votos.

Estas e outras notícias para ler no jornal CONTACTO, hoje na sua caixa do correio.

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terça-feira, 30 de março de 2010

Língua: Em dois anos todos os países da CPLP já terão aplicado o novo Acordo Ortográfico - Malaca Casteleir

No prazo máximo de dois anos todos os países de língua oficial portuguesa já terão aplicado o Acordo Ortográfico, disse à Lusa João Malaca Casteleiro, conhecido linguista português.

“Estou convicto que no prazo máximo de dois anos o Acordo estará implementado em todos os países”, garantiu o professor universitário e membro da Academia das Ciências de Lisboa (ACL).

Malaca Casteleiro participou na última semana da conferência internacional sobre o futuro da língua portuguesa, em Brasília, e esteve na segunda feira na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, para o Encontro da Lusofonia.

Em declarações à Lusa, o presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da ACL defendeu a criação de um alto comissariado junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesas (CPLP) para se ocupar dos “problemas comuns” da língua.

“Nós precisávamos ter um organismo que zelasse por uma política comum da língua portuguesa. O IILP (Instituto Internacional da Língua Portuguesa) não tem desenvolvido seu trabalho por falta de recursos e projetos”, criticou.

Para fortalecer a lusofonia e promover o idioma em todos os países e em organismos internacionais, Malaca Casteleiro considerou que é possível elaborar um vocabulário ortográfico comum.

“O vocabulário ortográfico deveria ter sido elaborado antes, estamos atrasados. Mas agora, como já surgiram vários, creio que seria até mais fácil unificar”, argumentou o gramático português.

Um vocabulário ortográfico comum, segundo ele, registaria as divergências existentes no domínio da lusofonia, como por exemplo palavras com acento agudo na norma luso-afro-asiática mas que são grafadas com circunflexo na norma brasileira. Assim, seria aceite a dupla grafia.

Na sua palestra, Malaca Casteleiro lembrou que o Acordo Ortográfico remonta a 1911, quando Portugal fez uma “reforma profunda com imensas substituições”.

“O facto de não ter feito uma reforma comum em 1911 com o Brasil, fez arrastar a questão pelo século 20”, disse.

No Brasil, as novas regras (novo Acordo Ortográfico) entraram em vigor a 01 de janeiro de 2009, enquanto em Portugal, as normas deverão vigorar no ano letivo de 2011/2012.

“Lamento que Portugal tenha perdido este barco e não tenha sido capaz, com o Brasil, (...) de fazer entrar em vigor o novo Acordo Ortográfico. Isso tinha sido prometido pelo nosso primeiro ministro numa cimeira em setembro de 2008, no Brasil. O Brasil cumpriu e Portugal não”, destacou.

Grande defensor da implantação da nova grafia, o linguista português admite que “não há nenhum acordo perfeito, e este não é perfeito”.

Contudo, Malaca Casteleiro ressalta a importância do bom senso numa negociação.

A implementação deste acordo é “inevitável”, acrescentou.“Mesmo com críticas não temos outra alternativa. Regredir é impossível, não se pode voltar atrás”, sublinhou.

Questionado sobre o futuro da língua portuguesa, Malaca Casteleiro afirmou ter uma perspetiva positiva e “muito otimista”.

“É uma língua de comunicação internacional, é uma língua pujante, riquíssima e está em progressão”, sintetizou.

As previsões demográficas, segundo o gramático, apontam para 350 milhões de falantes de português em meados deste século, devido sobretudo ao crescimento da população no Brasil e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

Luxemburgo: Encontrados dois cadáveres em Diekirch e Esch

A Polícia encontrou ontem duas pessoas sem vida em Diekirch e em Esch-sur-Alzette.

Às 11h30, as autoridades de Diekirch descobriram um homem morto no seu domicílio, na rue Dr Albert Mambourgt. O Ministério Público ordenou uma autópsia e por haver suspeitas de crime, o Serviço de Antropometria e a Polícia Juduciária dirigiram-se ao local.

Em relação ao cadáver de Esch-sur-Alzette, este foi descoberto, ontem pelas 14 horas, num apartamento situado na rue des Boers. Também aqui foi ordenada uma autópsia pelo Ministério Público.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Rússia/Atentados: PR Cavaco Silva condena e repudia ataques no metro de Moscovo

O presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, expressou a sua “profunda consternação” pelos atentados terroristas de hoje no metropolitano de Moscovo.

Numa mensagem ao presidente russo, Dmitri Medvedev, Cavaco Silva sublinha ter sido com “profunda consternação” que tomou “conhecimento dos trágicos atentados perpetrados esta manhã, em Moscovo, contra cidadãos indefesos” e manifesta a “mais enérgica condenação e repúdio pelos atos terroristas”.

“Nesta hora de sofrimento e de luto, quero expressar a Vossa Excelência e às famílias das vítimas, em nome do Povo Português e no meu próprio, os sentimentos do nosso profundo pesar e solidariedade”, conclui a mensagem do chefe de Estado.

Pelo menos 36 pessoas morreram num duplo atentado suicida hoje de manhã no metro de Moscovo, atribuído pelas autoridades russas a duas mulheres ligadas aos grupos rebeldes do norte do Cáucaso.

A primeira explosão ocorreu numa composição que estava na estação de Lubianka, situada a algumas centenas de metros do Kremlin e sob a sede dos serviços de segurança russos FSB (ex-KGB) à hora de ponta, cerca das 07:57 locais (04:57 em Lisboa).

A segunda explosão deu-se 45 minutos depois na estação de Park Kulturi às 08:36 locais (05:36 em Lisboa), igualmente no centro da cidade.

Rússia/Atentado: Trânsito caótico e "toda a gente agarrada ao telemóvel", descreve português em Moscovo

Trânsito caótico, as principais linhas de metro encerradas e "toda a gente agarrada" ao telemóvel é o retrato da capital russa, quatro horas após os atentados, traçado hoje à Lusa por João Mendonça, que reside em Moscovo.

Os dois atentados terroristas, ocorridos em duas estações de metro, foram realizados por duas mulheres suicidas, que carregavam cada uma carga explosiva de três quilos, anunciou o Serviço Federal de Segurança da Rússia.

O Ministério para Situações de Emergência da Rússia anunciou que a explosão na estação de Lubianka provocou 23 mortos e 18 feridos, enquanto o outro atentado do mesmo tipo, na estação de Park Kulturi, fez 12 mortos e 15 feridos.

O rumor sobre as duas suicidas corria já antes da confirmação oficial, adiantou o também leitor do Instituto Camões em Moscovo, acrescentando que se admitia ainda a possibilidade de as bombas terem sido acionadas por SMS.

"A linha de metro escolhida para as explosões é usada por cerca de um milhão de habitantes por dia", detalhou João Mendonça, adiantando que ao longo dela estão situadas a maior parte das universidades de Moscovo.

"A cidade está relativamente caótica porque a linha vermelha [a principal e que atravessa a cidade de norte a sul] e a linha circular foram canceladas, para [se] poderem encaminhar os socorros" e "já alguns acessos terrestres foram cancelados nesses sentidos", acrescentou o português, que habita perto da estação de metro Prospekt Mir, dada também como alvo do atentado, embora esta informação tenha já sido desmentida pela polícia.

O retrato de Moscovo é "trânsito a mais, pessoas à procura de acessos alternativos para poderem chegar ao trabalho e muitas pessoas ao telefone e a receberem SMS", relatou João Mendonça, acrescentando que "se fosse num país da Europa o pânico seria maior. Infelizmente, o país já está habituado a este tipo de situações", salientou o português.

João Mendonça, que esta manhã se deslocou da sua residência para a Universidade Estatal de Relações Internacionais de Moscovo, adiantou que entrou em contacto apenas com um amigo português, residente noutra cidade russa, e que, maioritariamente, os habitantes da capital russa estão a tentar chegar aos seus locais de trabalho.

"Há uma colega que ligou a cancelar a aula ao fim da tarde, em outra universidade, e aconselhou os estudantes a ficarem em casa" mas esta, frisou, "será uma medida de caráter excecional".

As autoridades russas abriram uma investigação sobre possíveis atentados terroristas e corrigiram as informações iniciais sobre as explosões de hoje de manhã no metro de Moscovo.

domingo, 28 de março de 2010

Benfica vence Braga por 1-0 e fica mais perto do título


Um tento solitário de Luisão permitiu hoje ao Benfica vencer o Sporting de Braga por 1-0, resultado que coloca os "encarnados" cada vez mais perto do título nacional de futebol.

Os "encarnados" entraram na ronda com uma vantagem de três pontos e, até por contarem na teoria com alguns jogos difíceis, necessitavam de vencer o Braga para ganharem algum conforto pontual, algo que o tento de Luisão, no segundo minuto de descontos da primeira parte, veio conferir.

Jorge Jesus considerou o Sporting de Braga um "digno vencido" e mostrou-se satisfeito com a exibição da sua equipa.
"Os jogadores estiveram muito bem na estrutura e estratégia que montámos para o jogo", disse.
Para Domingo Paciência, apesar dos seis pontos de desvantagem para o Benfica, a formação bracarense "vai lutar até ao fim" e lembrou ainda há "muito campeonato pela frente".
"Vamos continuar a trabalhar e, depois da demonstração que tivemos hoje aqui neste estádio contra esta equipa, mostrámos porque somos segundos classificados e porque andámos tanto tempo na liderança", afirmou o treinador português.
O antigo avançado considerou que a sua equipa mostrou "muita personalidade" frente ao Benfica e lamentou o "golo fortuito" de Luisão, que acabou por decidir a partida.
"Temos todas as condições para pensar que nesta altura podemos lugar pelo título. Vamos lutar até ao fim", afirmou.

Domingo Paciência revelou-se ainda triste pela lesão grave que o brasileiro Mossoró sofreu durante a partida e "atirou-se" a Jorge Jesus, demonstrando que algumas declarações do técnico "encarnado", que na temporada passada comandou o Sporting de Braga, "não caíram bem".
"É uma falta de consideração para os jogadores. Todas as semanas lá aparece o pretenso pai desta equipa, mas há um ano andava a lutar pelo sexto/sétimo lugar e hoje o Braga está a lutar pelo título", concluiu o técnico.

sábado, 27 de março de 2010

Língua: Governo promove ensino para 60 mil portugueses no estrangeiro, mas só na Europa e África

Mais de 60 mil estudantes portugueses e luso-descendentes têm aulas de português no estrangeiro promovidas pelo Governo, que apenas assegura o ensino da língua portuguesa na Europa, África do Sul, Namíbia e Suazilândia.

No resto do mundo, o ensino do português é garantido por associações portuguesas e pelos pais dos alunos, mas o secretário de Estado das Comunidades, António Braga, prometeu que vai alargar a rede do Ensino do Português no Estrangeiro (EPE) aos EUA, ao Canadá e à Venezuela.

Na Europa, existem atualmente 58.306 crianças e jovens a frequentar o EPE, enquanto na África do Sul, Namíbia e Suazilândia o número de alunos é de 3.600, segundo dados oficiais.

Cabe ao Governo português assegurar nesses países a contratação dos professores, fornecer material didático e tratar dos locais onde as crianças e os jovens têm aulas de português enquanto língua materna.

Na maioria dos casos, são os próprios países de acolhimento que disponibilizam salas de aulas.

A organização do EPE difere de país para país, respeitando as normas de cada um, havendo algumas especificidades como, na Alemanha, onde a maior parte dos estados assumiu a responsabilidade pelo ensino do português, enquanto outros atribuem subsídios ou cedem espaços para as aulas de português.

Países como a França, o Luxemburgo ou a Alemanha têm ainda o português integrado no seu sistema curricular como língua de opção.

A falta de professores e de apoio do Governo são as principais queixas quanto ao EPE.

Este ano letivo foi marcado pela transferência de tutela do EPE do Ministério da Educação para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, através do Instituto Camões, que tem uma verba de cerca de 33 milhões de euros para o gerir.

No resto do mundo, nomeadamente nos EUA, Canadá, Venezuela e Argentina, são as escolas comunitárias, propriedade de clubes, igrejas e associações que organizam o ano letivo e contratam os professores.

Professores nesses países lamentam o "abandono" do Governo português, sublinhando que só nos Estados Unidos existem cerca de 17 mil alunos de português.

Na Venezuela, a polémica instalou-se em março de 2008 quando o Governo de Hugo Chavez anunciou que queria incluir a língua portuguesa como disciplina opcional no currículo oficial, mas debatia-se com o problema da falta de professores de português.

Na altura, o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, João Gomes Cravinho, fez saber que Portugal não tinha dinheiro disponível para apoiar essa iniciativa.

Dias depois, o secretário de Estado das Comunidades disse à Lusa que a solução poderia passar por uma reorganização do ensino da língua no estrangeiro.

Numa tentativa de fazer chegar o ensino de português a todos os países do mundo, o Governo criou em outubro de 2005 a "Escola Virtual", onde os alunos transformam o computador numa sala de aulas.

No entanto, este projeto ficou aquém das expetativas, tendo tido a adesão de 3.311 alunos no primeiro ano, quando eram esperados 11 mil.

Além dos alunos provenientes sobretudo das comunidades portuguesas que frequentam o EPE, o Governo tem ainda registos de mais 82 mil alunos de estudos da língua portuguesa, na maioria estrangeiros que querem aprender português.

PSD: Passos Coelho eleito líder de forma inequívoca, vencedor e derrotados apelam à unidade

Pedro Passos Coelho é o novo líder do PSD, eleito com mais de 60 por cento dos votos dos militantes, a quem fez um apelo à unidade do partido, tom que marcou também as intervenções dos candidatos derrotados.

Com resultados quase finais (apenas 30 secções por apurar), o Conselho de Jurisdição do PSD anunciou cerca da 01:00 que Pedro Passos Coelho tinha vencido as eleições diretas do partido com 61,06 por cento dos votos.

Paulo Rangel, o segundo candidato mais votado, contou com o voto de 15248 militantes (34,47 por cento), José Pedro Aguiar Branco recolheu 1598 votos, traduzidos em 3,61 por cento, enquanto Castanheira Barros contabilizou 103 votos (0,23 por cento).

"A minha primeira preocupação vai ser a de unir o PSD e estou convencido de que os resultados inequívocos que estão patentes permitirão com certeza - de acordo, de resto, com as declarações que fizeram quer o doutor Paulo Rangel, quer o doutor José Pedro Aguiar-Branco - fazer um caminho de unidade e de coesão interna no PSD", afirmou Pedro Passos Coelho, na sua declaração de vitória.

Dizendo que conta com os seus adversários nas diretas "na primeira linha da intervenção política no PSD", Passos Coelho sublinhou ainda que espera "um papel muito cooperante" do ainda líder parlamentar Aguiar-Branco na condução da bancada, até que seja escolhida a nova direção.

Já num recado para fora, Passos Coelho avisou os socialistas que não pretende abrir crises políticas desnecessárias mas garantiu que não andará com o Governo ao colo nem votará contra as suas ideias.

O eurodeputado e candidato derrotado Paulo Rangel prometeu uma "atitude de lealdade" e de colaboração com o "grande projeto social democrata", felicitando Pedro Passos Coelho pela vitória "clara e expressiva" nestas diretas.

Sublinhando ter sido um "privilégio" como experiência política e pessoal ter sido candidato à liderança do PSD, Rangel prometeu colaborar com a nova direção social democrata.

No mesmo tom, Aguiar-Branco apelou à união em torno do partido e do seu novo líder, garantindo que "a campanha acaba aqui, a campanha acaba hoje".

Também o quarto candidato, Castanheira Barros, felicitou Passos Coelho pela sua vitória, sublinhando que este será "o seu presidente".

A vitória de Pedro Passos Coelho verificou-se em todas as distritais e na Região Autónoma dos Açores, tendo a Madeira sido a única exceção: aqui ganhou Paulo Rangel, o candidato apoiado pelo líder do PSD-Madeira, Alberto João Jardim.

Numa primeira reação à vitória de Passos Coelho - que criticou duramente pela sua posição em relação à Lei das Finanças Regionais - Jardim disse apenas estar "consumada a eleição", não tendo mais comentários a fazer.

Mudança da Hora: Relógios adiantam 60 minutos no domingo

Domingo, quando forem 2 da manhã, há que adiantar os relógios uma hora. É a entrada no horário de Verão: dias mais longos e noites curtas.

sexta-feira, 26 de março de 2010

UE/Cimeira: Sócrates diz que Constâncio no BCE é uma "honra para Portugal"

O primeiro ministro, José Sócrates, considerou hoje em Bruxelas uma "honra para Portugal" a nomeação pelo Conselho Europeu de Vítor Constâncio para vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE).

"Isso é uma honra para Portugal, isso consagra uma carreira, consagra o prestígio de Vítor Constâncio, mas vejo esta nomeação também como uma vitória diplomática do nosso país", disse Sócrates, no final da cimeira de líderes da União Europeia.

O primeiro ministro manifestou-se ainda orgulhoso pelo facto um português ir ocupar uma vice-presidência do BCE.

Os chefes de Estado e de Governo da UE, reunidos em Bruxelas, nomearam hoje formalmente Vítor Constâncio para uma vice-presidência do BCE, para um mandato de oito anos, com início a 01 de junho.

"O Conselho Europeu nomeou Vítor Constâncio como vice-presidente do BCE", lê-se nas conclusões hoje aprovadas pelos líderes europeus, no segundo e último dia da cimeira realizada em Bruxelas.

Os ministros das Finanças da zona euro designaram a 16 de fevereiro último Vítor Constâncio para ocupar o lugar de vice-presidente do BCE, tendo o Conselho do BCE dado a 04 de março, em Frankfurt (Alemanha), um parecer positivo à designação do governador do Banco de Portugal.

A concluir o processo antes da nomeação formal de hoje, o Parlamento Europeu deu na quinta feira o parecer favorável, não vinculativo, à designação de Vítor Constâncio, através de uma votação em sessão plenária, seguindo a recomendação da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários da assembleia

Coreia do Norte: Pyongyang ameaça com "ataque nuclear sem precendentes" quem pretender derrubar regime

A Coreia do Norte ameaçou hoje lançar um "ataque nuclear sem precedentes" contra qualquer país que tente derrubar o regime comunista de Kim Jong-il, noticiou a agência norte-coreana KCNA, citada pela sul-coreana Yonhap.

A ameaça foi feita depois de a imprensa da sul-coreana ter noticiado na semana passada que peritos em segurança nacional da Coreia do Sul, China e Japão se vão reunir em abril, em Pequim, para discutir respostas a um possível colapso do regime norte-coreano.

Um porta-voz do Exército da Coreia do Norte qualificou como um "sonho inalcançável de um lunático" a possibilidade de uma situação de emergência no seu país que provocasse a queda do regime de Kim Jong-il e assegurou que qualquer país que tente derrubá-lo será vítima de um "ataque nuclear sem precedentes de um Exército invencível".

A Coreia do Sul e os Estados Unidos não têm intenção de melhorar as suas relações com a Coreia do Norte e apenas se dedicam a elaborar um plano para acabar com o regime de Pyongyang, segundo o mesmo porta-voz norte-coreano.

Estas ameaças de Pyongyang surgem depois de o general Walter Sharp, comandante dos 28 500 soldados norte-americanos estacionados na Coreia do Sul, ter aludido, há uma semana, a um possível clima de instabilidade na Coreia do Norte.

Segundo a imprensa sul-coreana, no ano passado, a Coreia do Sul e os Estados Unidos elaboraram um plano de ação para lidar com um eventual colapso do regime da Coreia do Norte, uma possibilidade que aumentou depois de informações de que Kim Jong-il teria sido vítima de um derrame cerebral em agosto de 2008.

A Coreia do Norte atravessa uma crise económica significativa devido a sanções internacionais impostas por causa dos seus testes com mísseis e o seu programa nuclear.


Foto: Arquivo LW

Luxemburgo: 25 museus abrem gratuitamente portas este fim-de-semana

A partir de hoje e até domingo, 25 museus estatais, municipais e regionais do país abrem gratuitamente portas ao público amante da cultura.

Durante estes três dias, os museus vão praticar os horários habituais, sendo que todos vão estar pelo menos abertos das 14h às 18h - uns abrem mais cedo ou fecham mais tarde.

A iniciativa "Invitation aux musées" (Convite aos museus), registou uma afluência de mais de 12 mil pessoas no ano passado e engloba este ano mais 15 museus do que o ano passado.

Ainda que o número de 25 participantes seja considerável, importa sublinhar que nem todos aderiram a esta acção cultural. "Todos os museus do país foram convidados a participar neste grande encontro popular. Porém, deploro que cerca do mesmo número de museus não responderam", lamenta Jo Kox, coordenador do agrupamento dos museus da cidade do Luxemburgo ("groupement stater muséeën").

Para ver a lista completa dos 25 museus abertos este fim-de-semana, consulte o portal www.invitation-aux-musees.lu.

Foto: Marc Wilwert

quinta-feira, 25 de março de 2010

Suspeito do duplo homicídio do bairro da Gare preso em Espanha

O presumível autor do duplo homicídio ocorrido no bairro da Gare na noite de passagem foi preso no Sul de Espanha pela Polícia Criminal do país.

Objecto de um mandato de captura internacional Simon René Dacougna, 30 anos de idade, nascido em Villeneuve-Saint-Georges, nos subúrbios de Paris, foi ontem entregue às autoridades luxemburguesas. Neste momento, aguarda julgamento em prisão preventiva no Centro Penitenciário de Schrassig.

Recorde-se que na noite de passagem de ano foram encontrados dois cadáveres baleados no bairro da Gare. O primeiro foi encontrado pelas 22h30 num pátio da rue de Hollerich e o segundo pelas 22h45 na rue Joseph Junck. Na altura a Polícia Judiciária levantou a hipótese de os dois homicídios estarem relacionados. As vítimas, dois estrangeiros de 27 e 29 anos, encontravam-se no país em situação irregular.

Foto: Polícia Grã-Ducal

BCE: Parlamento Europeu dá parecer favorável à nomeação de Vítor Constâncio

O Parlamento Europeu aprovou hoje, em Bruxelas, a nomeação de Vítor Constâncio para vice-presidente do Banco Central Europeu, um dia antes dos líderes europeus nomearem formalmente o ainda governador do Banco de Portugal.

A assembleia "dá parecer favorável ao Conselho Europeu sobre a recomendação do Conselho de nomear Vítor Constâncio para o cargo de vice-presidente do Banco Central Europeu" para um mandato de oito anos que começa a 01 de junho, lê-se na resolução aprovada.

O deputado do Parlamento Europeu que estava a presidir à sessão plenária limitou-se a referir que a votação secreta foi feita com 488 votos a favor, sem referir o número de votos contra ou as abstenções.

O Parlamento Europeu tem 736 deputados e o parecer dado não é vinculativo.

O novo vice-presidente do BCE deverá ser nomeado oficialmente sexta feira pelo Conselho Europeu (Chefes de Estado e de Governo) reunido também em Bruxelas, por maioria qualificada.

Foto: Lusa

Literatura infantil quer despertar imaginário dos mais pequenos

Vanda Furtado Marques e Rosário Alçada estiveram no Luxemburgo para contarem as suas histórias aos mais pequenos. Na bagagem, trouxeram a vontade de despertar o imaginário das crianças, mas também de as aproximar da cultura e tradições portuguesas.

" Esperava que as crianças de origem portuguesa, aqui no Luxemburgo, soubessem pelo menos quem foi o primeiro rei de Portugal, mas não. Ainda mais quando aqui no Luxemburgo há o Grão-Duque, que poderia aguçar o apetite para que os mais novos quisessem saber a história de Portugal, mas não é o caso".
O desabafo é da autora de livros infantis baseados em histórias da História de Portugal, Vanda Furtado Marques.

A autora e contadora de histórias infantis esteve no Luxemburgo durante três dias a convite dos Amigos do 25 de Abril. "O Luxemburgo é um país muito diferente de Portugal: é muito organizado, há menos confusão, é um país muito arrumadinho – não há carros estacionados em cima dos passeios –, mas penso que os imigrantes portugueses devem ter uma vida muito ocupada, trabalham muito e não devem ter tempo para contar histórias aos filhos", observa Vanda Marques.

Há quatro anos, esta mãe de três filhos e professora de História no Ensino Secundário, em Portugal, lançou-se na aventura de contar aos mais novos as aventuras das rainhas e dos reis portugueses."O amor de Pedro e Inês", "O Milagre de Isabel e Dinis" e "A Padeira de Aljubarrota" foram os primeiros três livros que lançou no mercado. Todos fazem parte do Plano Nacional de Leitura.

Depois veio a "Lenda da Fonte da Senhora", "D. Fuas Roupinho", e já tem no prelo a "Herança de Filipa e João" e a história de "D. Nuno Álvares". Histórias de adultos contadas às crianças. " Elas apreendem muito bem as pequenas subtilezas das histórias. Eu trabalho muito com metáforas e nas minhas visitas aos jardins de infância vejo como os mais pequenos apreendem as histórias dos meus livros. Sobretudo, o que diz respeito às Rainhas e aos Reis", afirma a autora.

Com três filhos em casa, Vanda Furtado Marques garante que antes de publicar um novo livro, testa as suas histórias com os filhos: "A minha filha mais nova, a Luísa que tem quatro anos, sabe de cor as histórias. Ela trata os reis e as rainhas como se fossem seus amigos".

Esta foi a primeira vez que Vanda Furtado Marques contou as suas histórias fora de Portugal, mas a autora garante que "gostava de repetir a experiência". "Ir ao encontro das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e levar-lhes a nossa História".

Na deslocação ao Luxemburgo, a autora participou no ateliê de literatura infantil promovido pelo Festival das Migrações e esteve também na escola de Steinfort.

"A LÍNGUA PORTUGUESA DEVE SER AMADA
E DEFENDIDA"

"Sempre gostei muito de ler histórias infantis. Desde criança que tenho uma predilecção especial por histórias e fábulas. Foi algo que me marcou imenso e por isso decidi ser escritora de livros infantis", lançou Rosário Alçada Araújo, quando se dirigiu aos alunos portugueses do 1° ao 4° ano de escolaridade da escola da gare, na cidade do Luxemburgo.

Convidada pela associação Amitiés Portugal - Luxembourg, a autora esteve pela primeira vez no Luxemburgo, onde participou também no Festival das Migrações das Culturas e da Cidadania.

Apesar de licenciada em Direito, com pós-graduação em Sociologia e Comunicação, resolveu dedicar-se incondicionalmente à escrita. Com mais de uma dezena de obras editados, lançou o seu primeiro livro – "A história da pequena estrela" – em 2002, "muito por culpa da minha prima Joana, que me incentivou bastante para escrever", elucida.

"Ser escritor é escrever cartas ao mundo", disse, ao abrir o livro "O menino escritor", que leu para uma plateia de olhos arregalados.

"Quando escrevo vou à terra dos encantos", disse no fim de um diálogo animado com os alunos.

"Nestas idades, as crianças têm uma capacidade extraordinária para se deixarem envolver pela fantasia. Por isso, procuro colocar-me na pele das crianças e, ao mesmo tempo, divertir-me", explica.

"Hoje, deu-me um prazer particular estar pela primeira vez numa escola fora do meu país, já que é uma experiência diferente. Saber que a nossa língua é um factor de união e identidade foi muito gratificante para mim. E disse isso mesmo aos alunos. Adoro a nossa língua e tentei transmitir-lhes a importância de amar, preservar, cuidar e defender este bem importantíssimo que é a nossa língua".

DM/Á. Cruz
Fotos: JLC/Á.Cruz


Língua: Falantes de português aumentam para 335 milhões em 2050

A língua portuguesa é falada por mais de 250 milhões de pessoas em todo o mundo, a grande maioria - quase 200 milhões - no Brasil, prevendo-se que esse número suba para os 335 milhões em 2050.

Na lista das línguas com maior número de falantes, o português surge entre o quinto e o sétimo lugar, conforme os critérios das organizações que as elaboram.

Se o critério for apenas o da língua materna, o português surge em sétimo lugar, mas se for analisado também como segunda língua, então sobe para o quinto lugar das tabelas.

Falado nos cinco continentes, o português é a língua oficial de oito países: Angola (12,7 milhões de habitantes), Brasil (198,7 milhões), Cabo Verde (429 mil), Guiné-Bissau (1,5 milhões), Moçambique (21,2 milhões), Portugal (10,7 milhões), São Tomé e Príncipe (212 mil) e Timor-Leste (1,1 milhões).

Contudo, em Timor-Leste são uma minoria as pessoas que falam português e em países como a Guiné-Bissau e Moçambique predominam outras línguas, com destaque para o crioulo, e em Angola o português convive com outras línguas nacionais.

Além da população residente, a maioria desses países tem uma vasta população emigrante que promove o português no mundo.

Dados oficiais indicam que existem mais de cinco milhões de emigrantes portugueses, espalhados sobretudo por França, Luxemburgo, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá e Venezuela, e uma diáspora brasileira de três milhões.

A língua portuguesa é ainda falada em locais por onde os portugueses passaram ao longo da História como Macau, Goa (Índia) e Malaca (Malásia).

Na Internet, a importância do português é mais facilmente avaliada, sendo o sexto idioma mais divulgado.

De acordo com o site "Internet World Stats", cerca de 73 milhões de pessoas navegam em português, mas representam apenas 4,2 por cento do total dos utilizadores da web.

No entanto, entre 2000 e 2009, o número de utilizadores de português na Internet aumentou 864 por cento.

Um estudo recente revela também que o português é a terceira língua mais utilizada na rede social Twitter, atrás do inglês e do japonês.

A língua portuguesa está já presente nos sítios da Internet de alguns blocos político-económicos como a União Europeia, o Mercosul e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

Contudo, os sítios na Internet das Nações Unidas, União Africana, NATO, Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) e a União dos Estados Ibero-americanos (UEI) não apresentam a língua portuguesa como alternativa de escolha.

Segundo projeções divulgadas pelo Estado português, baseadas na evolução demográfica, os oito estados que têm o idioma como língua oficial deverão totalizar 335 milhões de habitantes em 2050, prevendo-se neste sentido, a consolidação da importância da língua portuguesa.

Para debater o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial e delinear estratégias, dezenas de especialistas vão juntar-se numa Conferência Internacional, em Brasília, entre hoje e 31 de março.

Escritores, académicos, professores, editores, jornalistas e outros profissionais diretamente vinculados à difusão da língua vão refletir sobre o fortalecimento do ensino do idioma, a sua aplicação em organizações internacionais e a importância das diásporas de cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Foto: Guy Jallay

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um desafio desportivo e social: Luxemburgo vai ao Mundial de Futebol de Rua dos Sem-abrigo

Saverio Rella

O Luxemburgo prepara a sua segunda participação no Homeless World Cup, um Mundial de Futebol de Rua para os Sem-abrigo, que se vai realizar no Brasil em Setembro deste ano. Para Saverio Rella, team manager da equipa, o evento é um desafio desportivo e social.

Arua foi sempre um dos maiores viveiros do futebol. Muitos dos grandes "craques" mundiais que marcaram a história do desporto-rei saíram da rua – onde jogavam – para os grandes estádios dos quatro cantos do mundo, à imagem de Pélé, Johan Cruyff, Maradona e, mais recentemente, o nosso Cristiano Ronaldo.

O Homeless World Cup é um campeonato de futebol de rua, mas para os sem-abrigo, para muitos cuja vida é dura, incerta e que por vezes está presa por um fio...

O Luxemburgo, sem ser verdadeiramente um "viveiro" de jogadores, prepara-se para a sua segunda participação na competição, que terá lugar no Brasil, no Rio de Janeiro, de 19 a 26 de Setembro deste ano.

A última edição, no ano passado, teve lugar em Milão. A equipa que representou o Luxemburgo ficou no 30° lugar entre as 48 participantes.

Para Saverio Rella, responsável da equipa, "a participação neste mundial é ao mesmo tempo um desafio desportivo e social".

"No ano passado, esta competição acabou por servir de integração na sociedade para alguns jogadores que estiveram em Milão. Alguns deles arranjaram trabalho e hoje estão bem na vida, o que foi muito gratificante. A sã convivência durante os meses em que praparámos a equipa acabou por dar frutos, e isso é muito importante para nós. Os contactos que se fazem com jogadores de outras nacionalidades em competições desta natureza acabam por ser importantes para eles, já que todos se sentem importantes e valorizados", sublinha.

No ano passado, o Luxemburgo obteve o 30° lugar entre 48 participantes. Rella conta como foi: "De início foi difícil, era uma descoberta para todos nós, mas depois as coisas foram saindo e acabámos por terminar em beleza".

"Este ano a prova disputa-se no Rio de Janeiro, com a participação de 60 equipas. Começámos a preparação mais cedo para podermos preparar melhor a competição. O treinador, Domenico Laporta, e eu, temos coordenado a primeira fase dos treinos de captação para em Maio ou Junho podermos escolher os oito eleitos", revela Saverio.

"No entanto, o trabalho não é fácil. Os treinos estão abertos a todos, mas alguns aparecem uma vez e depois nunca mais voltam. Por vezes, tudo depende de como acordam... alguns têm problemas de álcool e droga, entre outros. Portanto, o trabalho de enquadramento, por vezes, é complicado. A disciplina é importante, e muitos, que nunca conheceram limites na vida, não sabem o que isso significa", explica.

"Até agora, as coisas têm corrido bem e espero que este ano possamos ter uma participação ainda melhor que o ano passado. A motivação é grande por parte de alguns, principalmente dos que têm vindo sempre aos treinos, mas ainda é cedo para se ter uma ideia da equipa. Os jogadores são oriundos de várias nacionalidades e isso também tem influência no seu comportamento, mas acredito que temos possibilidades de fazer um bom campeonato, desportiva e socialmente", remata Saverio Rella.
Á. Cruz

terça-feira, 23 de março de 2010

Destaques da edição de 24 de Março de 2010 do jornal CONTACTO

(Clique na imagem para ampliar)

Na edição desta semana, o CONTACTO faz manchete com caso da hospedeira portuguesa que morreu no acidente aéreo da Luxair em Novembro de 2002. A Família da vítima recorreu para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, queixando-se da lentidão da justiça luxemburguesa. Não perca as declarações que o CONTACTO obteve junto da advogada da família enlutada.


Nesta edição, não perca ainda os detalhes da comemoração oficial dos 40 anos do CONTACTO, na qual estiveram presentes personalidades como o ministro da Imigração, Nicolas Schmit, o embaixador de Portugal no Luxemburgo, José Pessanha Viegas e o deputado luso-descendente Felix Braz.


Também a 27a edição do Festival das Migrações não passou ao lado do CONTACTO. Veja as coloridas páginas centrais inteiramente dedicadas ao certame.


Destaque ainda para a vinda do primeiro-ministro cabo-verdiano, José Maria Neves, ao Luxemburgo nos dias 11 e 12 de Abril, para encontros bilaterais com as autoridades luxemburguesas.


No desporto, as atenções centram-se no jogo de domingo entre o Dudelange e a Jeunesse. A Jeunesse d’Esch, actual líder da Ligue BGL, desloca-se na próxima jornada ao terreno do Dudelange para disputar aquele que é considerado o jogo do ano.


Estas e outras notícias no jornal CONTACTO, o seu semanário em língua portuguesa no Luxemburgo.


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Primeiro-ministro cabo-verdiano vem ao Luxemburgo em Abril



José Maria Neves vai estar no Luxemburgo em meados de Abril para encontros bilaterais com as autoridades luxemburguesas.

Dia 12 de Abril, o primeiro-ministro cabo-verdiano encontra-se com o seu homólogo luxemburguês, Jean-Claude Juncker, soube o CONTACTO junto de fonte da Embaixada de Cabo Verde no Luxemburgo.

O programa da visita ainda não está concluído, mas segundo fonte do protocolo luxemburguês, é provável que José Maria das Neves venha a encontrar-se também com a ministra da Cooperação, Marie-Josée Jacobs, e com outros políticos luxemburgueses.

Durante a visita, José Maria Neves encontra-se ainda com a comunidade cabo-verdiana no Grão-Ducado. É no dia 11 de Abril, às 15h, na Abadia de Neumünster, no Grund, na capital luxemburguesa, confirmou fonte da Embaixada de Cabo Verde.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Escolas luxemburguesas vão perder 180 postos de trabalho até 2020

A reforma fundamental do ensino está a alarmar o Sindicato da Educação e das Ciências (SEW/OGB-L) que recentemente chamou à atenção para o facto de o Estado estar a querer economizar quatro mil aulas nos próximos 10 anos, o equivalente a menos 180 postos de trabalho. "Ao efectuar todos os anos 10 % da redução desejada, o Ministério da Educação Nacional tenta desdramatizar as medidas que está a tomar", considera o sindicato.

Recorde-se que no quadro da reforma fundamental, a gestão do pessoal docente passa das comunas para o Estado.

O sindicato sente-se também desiludido com os resultados até ao momento da reforma, já que considera que os docentes não dispõem de meios para levar por diante as suas novas tarefas. Como exemplo, a avaliação do segundo ciclo inclui qualquer coisa como 60 competências por aluno que devem ser avaliadas pelo professor.

Na conferência de imprensa, o vice-presidente do sindicato, Guy Foetz, denunciou a vontade do Governo de contratar no futuro educadores com bacharelato em vez do actual master dos professores, criando uma carreira paralela à dos actuais docentes, “com um nível de formação e de remunerações inferiores e uma tarefa de 24 aulas em vez de 22.

Governo luxemburguês incentiva introdução de redes de alta velocidade para dinamizar economia

O Governo luxemburguês quer desenvolver as redes Internet de nova geração. Actualmente, a maioria dos internautas luxemburgueses navegam na Internet através de uma rede ADSL de seis megabits e os responsáveis governamentais pretendem que até 2020 se instale uma rede de fibra óptica com uma velocidade de ligação da ordem de um gigabit.

Trata-se de uma rede de fluxos ultra rápidos que poderão proporcionar ao Luxemburgo uma boa vantagem competitiva para atrair novas empresas. Em 15 anos, as aplicações digitais revolucionaram o nosso quotidiano. Música descarregada da Internet, vídeo a pedido, partilha de informação nas redes sociais – há para todos os gostos e todas as idades. Mas, o desenvolvimento desta tecnologia está ligado a novas exigências, nomeadamente uma velocidade de navegação superior.

O Governo luxemburguês decidiu, por isso, elaborar uma estratégia para desenvolver as redes Internet de nova geração. Por exemplo, uma música em mp3 que hoje pode ser descarregada em sete segundos demorará apenas seis centésimos de segundo dentro de alguns anos. Ou o descarregamento de 100 fotos digitais demorará apenas dois segundos em vez dos actuais cinco minutos. Tudo isto graças ao desenvolvimento das redes de fibra óptica.

Um empurrÃo
ao sector econÓmico
"Num primeira fase queremos assegurar uma ligação de 100 Mbits para toda a população até 2015", explica François Biltgen, ministro das Comunicações. "Em paralelo, desenvolveremos as fibras ópticas para dispormos de ligações de 1 Gbit em 2020. Com duas etapas intermediárias, uma cobertura Internet ultra rápida para um quarto da população em 2013 e para os restantes residentes em 2015".

Para além das casas particulares, estes progressos técnicos prometem dar um empurrão ao sector económico. "Será um argumento suplementar em termos de competitividade, nomeadamente para as zonas económicas com acesso a débitos muito elevados. Atrairemos novas empresas mostrando-lhes que ao instalarem-se aqui disporão já de todas as infra-estruturas tecnológicas", considera Jeannot Krecké, ministro da Economia.

P&T investem
130 milhões
Porém, antes disso vai ser preciso avançar com as obras no terreno, aproveitando eventualmente as infra-estruturas já existentes. O departamento "Ponts et Chaussés" e as comunas serão chamados a trabalhar em conjunto para assinalar as estradas e ruas que estão neste momento em obras, uma vez que se poderá aproveitar a ocasião para instalar as novas tubagens necessárias à instalação de cabos de grande débito.

O Estado vai financiar a operação de forma a incentivar os operadores a introduzir as fibras ópticas nas suas redes. "Queremos fazer um forcing, mas o Estado não poderá fazer tudo sozinho. Os operadores têm que ser sensibilizados", salienta Jeannot Krecké.

A P&T, empresa com participação do Estado, é uma das mais importantes neste sector e deve, por isso, dar o exemplo. "É um actor no qual temos influência. É tempo de os Correios activarem os seus 30% de fibras ópticas existentes, contribuindo para o projecto com um investimento de 130 milhões de euros", revela o ministro.

O instituto luxemburguês de regulação, ILR, encarregar-se-á de garantir que o acesso às redes seja aberto e transparente, lembrando o ministro que estas redes não serão liberalizadas mas sujeitas a regulamentação. F. Pinto

Fundos de investimentos luxemburgueses para apoiar criação de pequenas empresas no Terceiro Mundo podem ser bom investimento

Acabam de ser lançados no Luxemburgo novos fundos de investimento em micro-finanças. Trata-se de uma forma de pôr o dinheiro a render e ao mesmo tempo ajudar as pessoas do Terceiro Mundo a realizar os seus projectos. Se 100 euros não representam muito para a maioria dos residentes do Luxemburgo, em certos países do Terceiro Mundo permitiria a um empresário lançar a sua pequena empresa. O problema é que os bancos não emprestam dinheiro aos pobres... É aqui que entram as instituições de micro-finanças que fazem empréstimos de baixos montantes , os microcréditos.

A partir de agora, qualquer pessoa poderá participar neste esforço graças ao "Luxembourg microfinance and developement fund" (LMDF), que pode ser subscrito até 31 deste mês ao preço de 100 euros por acção.

Se é verdade que o rendimento destes fundos não podem concorrer com outros fundos comerciais, pelo menos o investidor tem a certeza que o seu dinheiro será utilizado para ajudar o desenvolvimento de regiões desfavorecidas.



"As microfinanças não são a solução para todos os males, mas permitem melhorar as coisas localmente", salienta Marc Elvinger, vice-presidente do conselho de administração dos fundos, explicando ainda que o fundo luxemburguês não emprestará directamente dinheiro a particulares nos países em questão, mas colocará os fundos (200 mil euros em média) em instituições de micro-crédito locais. A particularidade destes novos fundos prende-se com o facto de serem resultado de uma colaboração entre o Estado e parceiros privados, a saber seis bancos – Dexia-BIL, BGL, BNP Paribas, BCEE, Banque de Luxembourg, Banque Fortuna e CBP – e duas companhias de seguros – Foyer e La Luxembourgeoise.

Actualmente estes fundos de investimento dispõem de 17 milhões de euros, dos quais 60 % provenientes do público e 40 % de institutos financeiros privados. O objectivo é atingir os 25 milhões de euros, nomeadamente graças aos investimentos de particulares que, se deixarem passar o prazo de 31 de Março, poderão comprar acções todos os trimestre nos bancos e seguradoras atrás referidas.

Com o objectivo de diminuir os riscos do investimento, o Estado, através das suas acções, compromete-se a cobrir uma parte das perdas que poderão sofrer os particulares.

Diversificar a praÇa financeira
Mas por trás estes fundos e do seu duplo objectivo de fazer render o capital promovendo o desenvolvimento sustentável, esconde-se uma estratégia de diversificação da praça financeira.

Em 90 fundos de investimento em microfinanças no mundo, o Luxemburgo conta 30", explica George Heinrich, director do "Tesouro" do Ministério das Finanças, sublinhando que estes 30 fundos representam cerca de metade dos investimentos mundiais, ou seja 2,2 mil milhões de euros. Um número ainda modesto em comparação com outros investimentos realizados na praça, mas que está em plena expansão. Na verdade, apesar da crise, os activos destes fundos aumentaram 30 % em 2008-2009. E isso faz com que o governo apoie este projecto, contribuindo para fazer do Luxemburgo um centro de excelência em matéria de microfinanças.

A ministra da Cooperação, Marie-Josée Jacobs, salientou as boas experiências realizadas pelo Grão-Ducado, indicando que um fundo criado em 2000 com um montante de 1,25 milhões de euros permitiu já financiar 860 mil pequenas empresas em todo o mundo.

Mais informações no site Internet www.lmdf.lu .

F. Pinto

domingo, 21 de março de 2010

Viver na ilegalidade – retratos da comunidade brasileira no Luxemburgo

O Luxemburgo tem sido o destino de muitos brasileiros nas últimas duas décadas. Chegam do outro lado do oceano cheios de sonhos, à procura de uma vida melhor e poucos são aqueles que conseguem realizar os seus objectivos. A maioria vive na ilegalidade e sofre um isolamento muitas vezes ditado pela barreira da língua e pelas diferenças culturais. Mas há também "estórias" de sucesso, de pessoas que hoje são figuras de referência dentro e fora da comunidade brasileira.

Fábio de Carvalho, 29 anos, foi deportado ontem, dia 16 de Março, para o Brasil. O seu pedido de legalização foi recusado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros luxemburguês. Depois de cinco anos a trabalhar ilegalmente, Fábio encontrou no seu último emprego no Luxemburgo um patrão disposto a ajudá-lo a conseguir a legalização. O patrão fez-lhe um contrato de trabalho, e correspondendo aos requisitos do ministério, escreveu uma carta de recomendação, dizendo que a contribuição do Fábio era essencial para a produção da empresa. A resposta do ministério chegou dois meses depois. O pedido foi recusado porque "faltavam documentos" e "alguns carimbos". Pelo caminho ficou o dinheiro gasto na tradução oficial de documentos como o certificado de habilitações e a sensação de ser vítima de uma injustiça.

A carta não dava um prazo para o Fábio sair do Luxemburgo. O jovem decide apresentar-se na polícia de livre vontade. Uma vez chegado, informou as autoridades que ia comprar um bilhete para o Brasil para abandonar o território luxemburguês. A partida para a sua terra natal no estado de Santa Catarina, no Brasil, aconteceu ontem.

"A gente trabalha com um objectivo, com um sonho de adquirir as nossas coisas, para poder estabilizar a vida no Brasil. Mas a vida no Luxemburgo está difícil e não deu certo."

Anos antes de chegar ao Luxemburgo, o sonho de Fábio era viver e trabalhar em Inglaterra. Por quatro vezes tentou entrar no país. Por quatro vezes foi deportado. "A minha história começou no fim de 2001. Tentei um visto para o Canadá. Não consegui. Tentei para os Estados Unidos, foi negado. Na fila da embaixada dos EUA (n.d.r.: no Brasil) conheci uma senhora que tinha um familiar na Suíça. Decidi tentar. Poupei dinheiro e comprei um bilhete de avião. A Suíça é o pior dos países em termos de controlo." Um dia, ao sair do trabalho, é abordado por dois polícias à paisana, que lhe pediram os documentos. Daí seguiu directamente para a prisão. "Tiraram o meu telemóvel, a minha chave de casa. Eu não dei a morada certa mas através do código da chave descobriram o meu endereço. Fiquei três dias preso numa cela. Sentia-me um bandido!" Em Janeiro de 2003, Fábio vê-se de novo no Brasil, onde ficou quase dois anos. Incapaz de ser adaptar e com saudades da Europa, entra no Velho Continente pela França em Junho de 2003. O objectivo é Inglaterra, mais uma vez. "Comprei o bilhete de avião, cheguei lá e não me deixaram entrar. Voltei no mesmo dia, no mesmo voo." Ao fim de um ano e meio o sonho da Europa era um apelo cada vez mais forte. "A minha mãe vendeu o carro para eu poder voltar para a Europa. Isso foi em Junho de 2005 e a ideia era entrar em Inglaterra através de França." Mais uma vez ficou pelo caminho. A precisar de dinheiro, decide ligar a um amigo no Luxemburgo.

"Ele falou com o patrão dele que disse que me dava emprego. Cheguei ao Luxemburgo em Agosto de 2005. Comecei a trabalhar numa empresa de mármores. Foi aqui que acabei com as minhas costas. Estava a ganhar 500 euros por mês durante os primeiros seis meses, nos últimos meses passei a 700 euros e no último mês aumentaram-me para 1.100 euros."

"Dei entrada com os papéis porque já estava cansado de estar na mão de um, e de outro". Foi enganado muitas vezes pelos patrões, ora não sendo pago, ora recebendo menos do que estava acordado. "Comecei a pensar no meu futuro, que podia fazer a universidade no Brasil na área que eu gosto, que é a informática."

Quando lhe perguntamos se sente injustiçado ao ver o seu pedido de legalização recusado, Fábio não esconde uma certa revolta: "Acho que me sinto injustiçado por todos os Brasileiros que são honestos, e que é gente que trabalha, enquanto outros que estão a receber o subsídio de desemprego fazem trabalhos por fora, dobrando o salário. Isto é desonesto. Eu vim para trabalhar e eles negam-me os papéis! E o objectivo que eu tinha de uma vida melhor foi por água abaixo."

Mesmo antes de receber a decisão do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Fábio já pensava regressar ao Brasil. Cansado de oito anos de ilegalidade, a carta do Ministério veio acelerar o desenrolar dos acontecimentos: "Estou cansado de ser pisado. Foram oito anos tentando. Não deu, olha, vou tirar o curso de Informática, que me dou muito bem com os computadores", conclui.

Casamento com um luxemburguês

Vânia Rodios vive no Luxemburgo há quase dez anos. A decisão de abandonar o Brasil foi motivada por um acontecimento trágico na sua vida." A razão principal que me levou a deixar o Brasil foi a morte do meu filho. Eu fiquei muito traumatizada. Ele morreu de acidente e aquilo tudo abalou-me muito. Um rapaz de 21 anos, recém-casado há cinco meses... Eu ia ficando doida. Naquela altura não conseguia viver no Brasil, até porque para ir para o trabalho eu tinha que passar no local do acidente. Foi horrível. Faz dez anos que o meu filho morreu e ainda hoje eu choro."

Chegou à Alemanha, onde uma amiga a esperava. Quando foi controlada na alfândega do aeroporto receava ser mandada para trás. "Havia um convite e o dinheiro era nenhum! Havia só cara e coragem. Foi a minha amiga quem me disse que na Alemanha havia muito controlo e quem me aconselhou a tentar encontrar um trabalho no Luxemburgo."

Vânia conta que até foi fácil encontrar emprego no Luxembrugo: "No meio dos portugueses, de tantos restaurantes de portugueses, consegui logo um emprego com um patrão muito bom e lá fiquei durante dois anos. Comecei a trabalhar num sábado; no domingo começaram as comunhões. Eu fiquei numa situação muito má: no Brasil era vendedora e nunca tinha trabalhado com uma máquina de loiça! Eu não sabia o que fazer com tanta coisa, com tanta loiça! Eu não conseguia despachar-me! Só saí desse emprego porque o patrão vendeu o restaurante. Depois fui trabalhar para o norte, para Vianden, onde trabalhei para um Luxemburguês. Foi nessa altura que aprendi um bocado de Alemão. Depois fui para outro patrão que não me pagou."

Considera-se uma mulher forte e determinada, mas não deixa de reconhecer que a vida na ilegalidade comporta algumas dificuldades: "Tirando o medo, a maior dificuldade era querer ter mais liberdade. Eu estive doente da mão e tive de ir receber cuidados médicos. Quando fui à Segurança Social para entregar os papéis – porque eu tinha de pagar tudo – eles ficavam logo com o meu passaporte porque não tinha número de Segurança Social. Eu pagava, deixava o endereço de uma amiga Portuguesa – não deixava o meu porque tinha medo que fossem lá bater! Eu paguei logo todas as despesas e passados uns meses recebo uma nova factura para pagar. Fui lá de novo com a minha amiga e disse que tinha pago tudo na hora e que até tinham ficado com o meu passaporte, mas explicaram-me que como não tinha Segurança Social tinha de pagar duas vezes: tem que pagar uma vez ao médico e outra à segurança social (n.d.r.: Caisse de Maladie). Tive de pagar os tratamentos, as radiografias, os medicamentos. A minha sorte era que trabalhava para um patrão muito bom. O médico proibiu-me de trabalhar durante um mês e ele pagou-me à mesma."

Mas Vânia também conhece o reverso da medalha: "Um patrão não pagava e eu não tive como reclamar porque ele aproveitou-se do facto de eu não ter papéis." Diz que sempre utilizou a determinação que a caracteriza em seu favor: "Sempre tive a ideia de estudar as línguas e de me integrar no país. Comecei a estudar Alemão e fiz inclusivamente dois cursos em Trier."

Em 2005, quando já ponderava regressar ao Brasil, conhece um Luxemburguês com um sonho muito particular. Uma amiga sua diz-lhe que não deve voltar, que há um Luxemburguês que ela deve conhecer. "O sonho dele era casar com uma brasileira e viver no Brasil. Conhecemo-nos e fomos ao Brasil. Passados três meses estávamos casados. Eu conheci-o em Junho e em Outubro de 2005 estávamos casados." Apostada em integrar-se no país, Vânia conta que quer continuar a aperfeiçoar o seu conhecimento das línguas faladas no Luxemburgo: "E como eu não sei se volto para o Brasil, estou a pensar aprender Luxemburguês porque é preciso para pedir a nacionalidade".

Antes Vânia Rodios tinha a certeza que voltaria ao Brasil, hoje já não tem a certeza.

A capoeira

Pelézinho (foto, em baixo), 36 anos, trabalha na Associação Abadá Capoeira e está há 10 anos no Luxemburgo. Chegou para o primeiro encontro de capoeira, e depois recebeu um convite para ficar: "Para mim o primeiro ano foi um choque cultural, a língua, e também o frio. Voltei para o Brasil e depois um amigo convidou-me para ficar um mês e dar umas aulas e acabei ficando. Foi em 2000."


Pelézinho conta que foram as dificuldades económicas que o levaram a deixar o Brasil: "No Brasil eu tinha um trabalho e trabalhava muito. Aqui trabalho e penso em ajudar a minha família. A verdade é que nunca imaginei que a capoeira fosse tão bem aceite e hoje não sei quando voltarei para o Brasil. O que mais me faz ficar aqui é o trabalho, que eu gosto. Acho que se fizer outro trabalho noutro país é uma parte de mim que vai embora."

O trabalho que desenvolve no Luxemburgo fez de si uma pessoa bem integrada na sociedade e é com alegria que fala dos seus projectos: "Tenho um trabalho grande aqui no Luxemburgo. Agora tenho um trabalho com o Ministério da Educação (n.d.r.: a Associação Abadá Capoeira). Faço um trabalho em seis liceus luxemburgueses e na prisão para a recuperação de menores que têm problemas com a droga. Trabalho ainda em três casas de jovens no Luxemburgo." Reconhece que se deparou com alguns obstáculos para conseguir a legalização: "Eu tive dificuldade com os papéis, mas nunca pensei casar por isso ou fazer uma coisa errada. Há um ano e meio que estou legalizado. No Ministério dos Negócios Estrangeiros mostrei todos os projectos em que estou envolvido e é fácil para os políticos verem que eu faço um trabalho importante."

Para Pelézinho o maior obstáculo que os brasileiros sentem quando chegam ao Luxemburgo é falta de informação e a falta de apoio e explica como a capoeira pode servir como forma de integração: "Com a capoeira não tem essa questão da cor, da nacionalidade. A capoeira é aberta para todo o mundo, é um meio de informação também. A parte da integração também, porque as pessoas chegam aqui, a um bom mercado de trabalho, mas sentem-se perdidas. As pessoas dos outros países encontram-se, comunicam, falam e através da capoeira muitas pessoas começam a viver melhor. A Abada Capoeira estabeleceu uma comunidade no Luxemburgo com quase 400 membros."

Reconhece que nos primeiros tempos "viveu no medo" e aplaude quem não desiste de se legalizar no país: "Eu bato palmas para as pessoas que foram obrigadas a ir embora e que voltaram e se conseguiram legalizar. Você sabe, porque nós nos nossos países já vivemos num desafio. Acho que todo o mundo tem direito de querer trabalhar e querer vencer na vida."

Pelézinho está agradecido ao Luxemburgo pelas oportunidades que lhe foram dadas, mas reconhece que os luxemburgueses perdem muito em serem tão fechados: "Eu amo o Luxemburgo porque é o país onde eu me realizei, que me deu oportunidade de fazer um grande trabalho. Eu também falo isso às pessoas nas escolas, que imigraram para cá e que não gostam do país. Tem um lado muito difícil mas também tem um lado muito bom, o da oportunidade. Eu vejo os luxemburgueses que têm um lado muito fechado, mas que têm um coração enorme."

"Je suis brésilien et je ne parle pas français"


Duda Oliveira (primeira foto do texto) chegou a Bruxelas em 2002. Deixou o Brasil por razões profissionais: "Eu já não tinha para onde ir e como eu gosto dos desafios, de crescer, aqui era um maior desafio, por causa da questão da língua."

Conta que no seu primeiro dia de trabalho, ao dar a primeira aula na academia teve que se apresentar com um papel na mão. "Na frente de 30 pessoas, ao olhar para um papel que tinha na mão, disse 'Je m'appelle Duda Oliveira, je suis brésilien et je ne parle pas Français.' Todo o mundo riu porque achou que era brincadeira! Foi uma coisa que impressionou as pessoas, como é que um cara que não fala a língua chega aqui e põe o mundo todo a dançar. Eu nunca tive medo de aprender, se não sabia perguntava e as pessoas corrigiam-me."

Esteve um ano sem papéis: "Eu costumo dizer que quando a gente entrega os papéis aqui está no limbo, você está num local onde você não existe como pessoa. Depois quando a gente consegue a regularização parece que nos sai um peso de cima dos ombros."

As diferenças culturais podem vincar a sensação de isolamento da comunidade brasileira, mas Duda acredita que se devem usar essas diferenças para promover a integração: "Eu acredito que você precisa de ter raízes – as suas raízes são a sua referência de vida – mas você não precisa ficar plantado, você pode usar as suas raízes como referência para se dar bem melhor em muitos outros lugares. Mas quando eu vim para cá eu aproveitei toda essa cultura, a chance de conhecer sítios históricos que eu só conhecia de livros, a comunidade portuguesa, que é quem acolhe a gente aqui."

Oito meses na cadeia sem acusação formal

Manuel Macedo é o dono do Café Brasil, em Esch. Há 20 anos no Luxemburgo, é hoje em dia uma figura muito conhecida entre a comunidade brasileira. Diz a brincar que o seu café devia ser conhecido como a "Santa Casa da Misericórdia", tal é o número de brasileiros que o procuram em caso de necessidade. Manuel é filho de portugueses emigrantes no Brasil e originários de Trás-os-Montes: "Saí do Brasil com 17 anos e através da minha família tentei obter a minha documentação legal (n.d.r.: em Portugal) para viver no país. Quando eu vim para o Luxemburgo já não vim ilegal."

A sua intenção era ganhar dinheiro para voltar para o Brasil e abrir lá o seu negócio, mas diz que se foi "acostumando". "À medida que consegue as coisas, você vai mudando de ideias."

Quando chegou ao Luxemburgo, começou por viver em Beaufort. Teve vários trabalhos, desde ser jardineiro a trabalhar na construção civil, até adquirir o seu "comércio em 2002", o Café Brasil I, em Dudelange.

No Brasil, era feirante e vendia fruta. Mas com o alastrar da crise económica, "o negócio começou a cair muito, ficou muito ruim e a falta de trabalho levou-me a decidir ir para Portugal, onde tenho família." Foi lá que ouviu falar no Luxemburgo, "um país onde pagavam na hora."

Manuel conta como esteve oito meses na prisão, acusado pelas autoridades luxemburguesas de auxílio à imigração ilegal: "Em 2000, tinha uma emigração ilegal brasileira muito forte. Houve um controlo muito grande da polícia e eles fecharam o cerco à imigração brasileira e foi muita gente presa. Eu fui acusado de ter usado papéis falsos durante seis meses. Eu acho que eles não entendiam como eu podia ter papéis portugueses e brasileiros. Estive oito meses preso, acusado de tráfico de papéis. Tive um brasileiro que viveu comigo, que trouxe a mulher e a filha, e que tinha documentação falsa. Como ele viveu comigo, eles me acusaram de ter acobertado e de ser intermediário na emigração ilegal." Nunca foi levado a tribunal e ficou em prisão preventiva sem culpa formada. "Eles me libertaram porque não conseguiram provar nada. Arrumei um advogado para entrar com um recurso contra o Estado e eu perdi porque eles me acusaram de saber que eu não era totalmente inocente por ter abrigado na minha casa um imigrante ilegal."

Hoje reconhece que não voltaria para o Brasil, onde teria "que recomeçar tudo de novo".

"Hoje, já fica mais difícil. Tenho aqui a minha vida estabilizada, tranquila. Você trabalhando honestamente você consegue adquirir tudo aquilo que uma pessoa deseja. Ter casa, ter carro, ter a assistência médica que se tem aqui, isso tudo vale muito."

Texto e fotos: Irina Ferreira

Primeiros cabo-verdianos chegaram no princípio dos anos 60 ao Grão-Ducado

A imigração cabo-verdiana no Luxemburgo começou no início da década de 1960, à semelhança da portuguesa. Hoje, “pode chegar aos 8 mil”, segundo números da Embaixada de Cabo Verde no Luxemburgo. O CONTACTO falou com a comunidade e dirigentes associativos para perceber os seus principais anseios, preocupações e desafios.

"Os primeiros cabo-verdianos a chegaram ao Luxemburgo, em 1963/64 vieram da Mosela francesa”, conta Pedro Santos (mais conhecido na comunidade pela alcunha de "Piduca", segunda foto), presidente da Associação Luso-Cabo-Verdiana.

Segundo o presidente da associação Amizade Cabo Verde-Luxemburgo, Firmino Neves, Carlos Costa e Afonso Pires criaram no início dos anos 70, em Dommeldange, um primeiro grupo cabo-verdiano. Recordamos-lhe que o CONTACTO na sua edição de Setembro de 1975 (pág. 3) noticiava que a 31 de Agosto desse ano era fundada a primeira associação oficial cabo-verdiana em Ettelbruck por José da Luz e Armando Brito. Piduca ajuda nas contas: "E a 2 de Fevereiro de 1979 aparece a segunda, a Luso-cabo-verdiana, vulgo FC Amílcar Cabral". Hoje são cerca de 30 e nas mais diversas áreas de actuação e consoante as regiões em que os cabo-verdianos se concentram mais: na capital, Ettelbruck, Esch/Alzette e Differdange, revelam os dirigentes.

A chegada, a integração e a comunidade

Carlos Silva (terceira foto), hoje com 85 anos, estava nos fim dos anos 50 em Metz e assegura que foi um dos primeiros cabo-verdianos a chegar a essa região.

“A integração não foi fácil. Eu trabalhava nas estradas e as condições não eram as mesmas de hoje”, recorda. “Depois vim para o Grão-Ducado, em 1959. A ideia não era ficar no Luxemburgo”, mas com a guerra do Ultramar, Carlos decidiu ir buscar os filhos a Cabo Verde antes de estes chegarem à idade da tropa e trouxe a família para cá.

Em 1974, com 18 anos, chega ao Luxemburgo João da Luz, filho de José da Luz (fundador da primeira associação cabo-verdiana no país). João confia que foi num dos liceus da capital que sentiu “os primeiros conflitos e discriminação” e lembra a mentalidade dos professores: “Os estrangeiros tinham de ter o mínimo de formação para irem trabalhar o quanto antes na construção civil.”

“O Luxemburgo era vazio em casas, estradas, imigrantes, mas os cabo-verdianos e portugueses tinham uma comunidade formidável, uma grande família”, recorda.

Nelson Neves nasceu em Santo Antão e veio de Cabo Verde com sete anos de idade, em 1980. O primeiro choque foi com a “hora para a refeição, hora de brincar e da escola, foi dura a adaptação!”, começa por dizer. Em Diekirch “eram poucas as pessoas de cor e as crianças às vezes eram cruéis, chamavam-me negro e outras coisas”. Mas Nelson vingou na escola e formou-se em pintura e decoração.

Fátima Monteiro, residente em Ettelbruck, deixou Portugal em 2003 sem hesitar. “Se me chamassem para a França, era a França, mas não houve escolha. Um amigo cabo-verdiano chamou-nos para o Luxemburgo porque não havia trabalho em Portugal", conta. E lembra que foi com a ajuda de uma portuguesa que encontrou o seu primeiro trabalho neste país.

Humberto da Graça, residente na cidade do Luxemburgo, chegou de Cabo Verde em 1988 e lembra que foi “bem recebido”.

“A comunidade era reduzida. Havia futebol e festas nos locais onde os cabo-verdianos se encontravam para tomar um copo e conversar”. "Hoje", ressalva, "a união mantém-se, mas está um pouco mais espalhada.”

Uma das recentes e bem coroadas chegadas foi a de Ana Santos, 32 anos, secretária na Citco Bank. “Nunca pensei vir cá para o Luxemburgo, até o momento em que fiquei desempregada em Portugal”. Mas se encontrou trabalho numa instituição bancária de prestígio, nem tudo o que veio cá encontrar lhe traz boas memórias. Recorda como em 2008, da casa de uma amiga portuguesa que vivia na rue de Strasbourg (na capital), via “a parte da comunidade cabo-verdiana menos integrada, com as suas festas, confusões e brigas". "Tínhamos espectáculos de graça quase todos os fins-de-semana”, ironiza.

Preocupações e desafios


Para Fátima e Carlos, “o desemprego é hoje o principal problema da comunidade cabo-verdiana”. Ana Santos apresenta outra visão: “Acho a nossa comunidade fechada, como a dos brasileiros, que fazem as suas festas apenas para si próprios”.

Nelson, que passou pelo sistema de ensino luxemburguês, comenta o que conhece: “Fico triste quando vejo jovens cabo-verdianos a abandonarem os estudos, o que leva os luxemburgueses a pensar que o nosso povo não é capaz. Fico triste porque isso não corresponde à verdade”.

Humberto também lamenta: “Há muito tempo que estamos aqui e temos ainda poucos quadros. Há qualquer coisa que não está bem no sistema de educação [no Luxemburgo]”.

Humberto formou um grupo de contradança (dança típica cabo-verdiana) e confia que “gostava de ensinar as danças tradicionais do seu país aos mais pequenos, como forma de estes guardarem a sua cultura de origem”. Considera que a comunidade tem “ignorado a sua própria cultura, sem lhe dar apoio".

João da Luz lembra que no seu tempo “o sistema escolar luxemburguês, já era muito baseado na língua alemã e isso travou a sua geração no acesso a um melhor emprego". E é por isso que alerta os jovens cabo-verdianos de hoje: "Sem formação podemos ser esmagados por outros”.

Para Firmino Neves, "os problemas da comunidade são encontrar um patrão, ter um documento na mão, os preços exorbitantes da habitação e a falta de união na comunidade.”

Já para Piduca, um dos problemas que a comunidade enfrenta é a que mais lamenta é a de “os luxemburgueses continuarem apreensivos em relação aos estrangeiros e sobretudo às pessoas de cor”.

Concretizações e oportunidades

“Hoje, tudo o que tenho é graças ao Luxemburgo”, diz Nelson Neves, que fora das horas em que pinta trabalha como funcionário do Estado num laboratório. “Pensava que trabalhar na Função Pública era só reservado aos luxemburgueses, mas é um erro pensar assim.” Conta como concorreu a um trabalho entre dois mil outros candidatos e conseguiu. O que o faz afirmar hoje peremptório: “Se eu consegui, outros também podem conseguir”.

Nelson conta igualmente que teve apoio quando quis expor as suas obras em Paris e Cabo Verde. “O Estado luxemburguês dá apoios, mas a comunidade [cabo-verdiana] não apresenta projectos”, diz.

Fátima concorda que o Luxemburgo tem muitos lados positivos: “Aqui pagam-nos salários razoavelmente bons. Se uma pessoa tem organização, consegue fazer a sua vida.”

Na mesma linha, Humberto refere: “Conheço muita gente que viveu 40 anos em Portugal, mas só 10 anos daqui [Luxemburgo] têm mais vantagem do que esses 40 anos.” E revela-nos o seu sonho: “Gostava de ver um dia os filhos de cabo-verdianos a estudar na Universidade.”

Ana Santos reconhece que “aqui há oportunidades e uma pessoa pode evoluir e fazer carreira.” O seu desejo era que “os cabo-verdianos pudessem naturalizar-se e ocupar cargos administrativos ou outros postos que normalmente são atribuídos a outras nacionalidades.”

“Muitos conseguiram trabalho de forma honesta e adaptaram-se bem”, limita-se a dizer Carlos e a sua principal referência é a sua própria vida.

João da Luz prefere deixar o mote: “Esta não é uma sociedade fechada, mas é uma sociedade de combate”.

Para Piduca, “apesar de tudo, o Luxemburgo é um país acolhedor, porque mesmo no desemprego pode-se superar os problemas, melhor do que em outros países”. “Um cabo-verdiano que viva cá no Luxemburgo tem outra dinâmica de vida”, remata por seu lado Firmino.

"Juntos...mas só no futebol!"

E como são as relações entre a comunidade cabo-verdiana e as outras comunidades lusófonas?, quis ainda saber o CONTACTO.

Se para Humberto “existe uma boa relação entre as comunidades lusófonas”, já para Ana Santos, “estas convivem quando têm de conviver, embora muitos tentem integrar-se.”

Fátima diz que há “algumas desavenças, porque alguns portugueses pensam que são superiores a nós, mas no fundo entendemo-nos bem.”

João da Luz recua no tempo e lembra que nos anos 70 “cabo-verdianos e portugueses viviam juntos, numa relação de amizade, mas a partir dos anos 80, os retornados de África trouxeram esse ódio com eles e houve fortes fricções”. "Hoje, no desporto estamos todos juntos, mas nas manifestações culturais, cada um organiza as suas coisas e, tecnicamente, não há lusofonia”, lamenta João.

Nelson defende que devia haver “mais união, porque as nossas culturas têm muitas semelhanças, o português é língua oficial [de Cabo Verde], somos todos emigrantes e é mais fácil enfrentarmos os problemas juntos.”

“O FC Amílcar Cabral entrou no campeonato português do Luxemburgo em 1981 e isso mostra que sempre houve laços. Mas, por outro lado, nesse campeonato não há equipas guineenses, brasileiras ou angolanas”, nota Piduca.

Firmino lembra como nos anos 70, "éramos conhecidos aqui todos como portugueses", nessa altura, lembra, "não se falava de cabo-verdianos”.

E para dar o exemplo da interculturalidade, Firmino (na foto, em baixo) a sua própria associação: "a Amizade Cabo Verde-Luxemburgo ensina francês e luxemburguês a guineenses, portugueses, brasileiros, angolanos, são-tomenses e não só a cabo-verdianos. Temos trabalhado sempre juntos”.

Henrique de Burgo
Fotos: M. Dias

Maria Augusta Esteves, emigrante no Luxemburgo desde 1955

Pioneira da imigração lusitana no Grão-Ducado, Maria Augusta Esteves teve um começo de vida difícil. Chegou ao Luxemburgo a 2 de Maio de 1955 (ver foto). Casadinha de fresco, trocou São Martinho de Dume (freguesia de Braga) por Esch/Alzette, onde o marido trabalhava, na então Arbed. Teve cinco filhos e foi das primeiras portuguesas a pedir a nacionalidade luxemburguesa. Enviuvou e naturalizou-se. Confessa que nunca lhe passou pela cabeça voltar a Portugal, pois é no Luxemburgo que se sente bem.

Completou recentemente 83 anos e já está há mais de meio século no Luxemburgo. Viveu os dois primeiros anos em Esch-sur-Alzette e radicou-se em Tétange até aos dias de hoje.

"Eu e uma senhora Ramos, que vive em Esch, fomos as primeiras portuguesas, actualmente vivas, a chegar ao Luxemburgo", começou por revelar.

"Mas a minha história é meio complicada. O meu falecido marido já cá estava há muito tempo, ainda solteiro. Emigrou com o pai para França e depois veio para o Luxemburgo trabalhar. Aqui casou com uma luxemburguesa que depois faleceu. Entretanto escreveu ao irmão que era meu vizinho, em São Martinho do Dume, freguesia de Braga, a pedir que este lhe arranjasse uma mulher portuguesa", explica.

"E foi assim que conheci o meu marido. Ele foi a Braga, namorámos pouco tempo, casámos e viemos para o Luxemburgo" lembra.

Quando chegou, enfrentou uma realidade diferente da que conhecia em Portugal. De início, a vida foi difícil e a adaptação ao novo quotidiano também.

"Quando aqui cheguei, a 2 de Maio de 1955, vivi dois anos em Esch/Alzette antes de me mudar para Tétange. Os portugueses eram raros e o contacto com as outras pessoas praticamente nenhum. O meu marido (Joaquim Fernandes Duarte) trabalhava na Arbed. Tive de criar três filhos do primeiro casamento do meu marido e depois mais cinco meus, quatro raparigas e um rapaz", explica.

"Nos primeiros meses, quando ia às compras, tinha de apontar com o dedo às coisas que queria porque não sabia a língua", lembra com uma gargalhada.

O INÍCIO DA CHEGADA DOS PORTUGUESES
Algum tempo depois de se estabelecer em Tétange, Maria Augusta mandou vir os irmãos para o Luxemburgo.

"O meu marido e um amigo dele conseguiram arranjar trabalho para os meus irmãos. Vieram todos para cá", lembra com saudade.

"Primeiro, tiveram que trabalhar no campo durante três anos. Era a lei antigamente. Para se permanecer definitivamente no país, tinham que passar três anos em trabalhos agrícolas e só depois poderiam ter acesso a outro tipo de empregos, se o patrão assinasse os papéis de autorização", explica.

Foi no início dos anos sessenta em que os portugueses começaram a chegar ao Grão-Ducado.

"A vida naquele tempo era dura", lembra. "Ajudei muitos portugueses quando eles começaram a chegar ao Luxemburgo. Arranjei casa e pensões para muitos. Como já sabia falar alguma coisa, cheguei a ir com eles para os ajudar naquilo que precisavam. Aqui era tudo diferente de Portugal".

"Um luxemburguês que eu encontrava regularmente na missa vinha-me trazer roupas para eu distribuir pelos portugueses. A minha casa parecia a Caritas", lembra.

"Eram meus conterrâneos, tinha de fazer alguma coisa por eles, não é?", recorda Maria Augusta. E continua. "O número de portugueses começou a aumentar a pouco e pouco e de vez em quando já se ouvia falar português na rua, sobretudo em alguns cafés onde a maioria se concentrava".

"Os portugueses são gente de trabalho e os luxemburgueses sabem disso. Se não fosse assim não vinham para cá, não é? Eles [portugueses] trabalharam muito para o Luxemburgo ser hoje o que é", refere.

Entretanto, a comunidade portuguesa foi crescendo, crescendo, e hoje já ultrapassou a fasquia dos 80.000.

"Às vezes, nas ruas da baixa de Esch, parece que estamos em Portugal, só se ouve falar português"... diz com um sorriso.

"Mas nestes últimos anos perdi muito o contacto com os portugueses. Exceptuando algumas pessoas de família, já não falo com ninguém", diz.

"Das muitas pessoas que conheci e ajudei, a grande maioria já se foi embora para Portugal ou morreu. Praticamente já só saio de casa para fazer compras, por isso o meu contacto com portugueses é muito esporádico. Além do mais, agora, já não conheço quase ninguém", sublinha.

Sobre a nova vaga de portugueses que continua a chegar ao Luxemburgo, exclama: "Já são muitos"...

Lembrando que a situação económica e social em Portugal é precária, Maria Augusta disparou: "Lá e um pouco por todo o lado", enfatiza.

"Mas eu compreendo. As pessoas têm que tentar melhorar as condições de vida e em Portugal as coisas estão mesmo complicadas. Infelizmente, nem todos têm sorte", lamenta. "Mesmo a vida no Luxemburgo já não é o que era", insiste.

"Hoje já não se arranja emprego com a facilidade de há uns anos e as dificuldades aumentaram para todos", lembra.

"Mas, apesar de tudo, a vida aqui tem outra qualidade e as pessoas, com maior ou menor dificuldade, acabam por fazer face à crise", lembra.

Luxemburguesa há 35 anos

Maria Augusta nunca trabalhou no Luxemburgo. Viúva há 35 anos, foi perdendo as raízes e o contacto com o país que a viu nascer.

"A última vez que estive em Portugal, foi na celebração das Bodas de Ouro do casamento do meu irmão Brás (já falecido), em Braga. Desde essa altura nunca mais lá regressei", revela.

"Nem sei se vou voltar mais alguma vez. Só lá tenho um irmão que trabalhou aqui e já está reformado. Tirando ele, não tenho família nem conheço ninguém. Com o passar dos anos fui perdendo o contacto com a minha terra. A família e os amigos vão desaparecendo e depois apenas ficam as lembranças", esclarece.

Depois da morte do marido ficou com os filhos a viver da reforma e optou pela nacionalidade luxemburguesa, há mais de trinta anos.

"Eu e as minhas três filhas mais velhas pedimos a nacionalidade luxemburguesa porque foi a melhor solução para todos. As vantagens eram grandes e, para quem já vivia há alguns anos no país, como eu, acabou por ser uma escolha natural", diz.

"Agora, este é o meu país. É aqui aqui que me sinto bem e vou ficar até morrer. Tenho cá os meus filhos – só um é que vive em Itália – e o que me resta da família. Portanto, vou acabar os meus dias no Luxemburgo", rematou Maria Augusta.

Á. Cruz